Grampo da PF indica articulação de executivos de Eletros contra Lava Jato

Grampo da PF indica articulação de executivos de Eletros contra Lava Jato

Em relatório, investigadores sustentam que Valter Cardeal, 'preocupado com a repercussão de denúncias de cobrança de propina' disse a Othon Luiz, ex-presidente da Eletronuclear, para 'ambos se ajudarem, isto é, combinarem suas histórias'

Julia Affonso, Fausto Macedo, Ricardo Brandt e Mateus Coutinho

08 Outubro 2015 | 04h30

Valter Luiz Cardeal (à esq.) e Othon Luiz Pinheiro da Silva. Fotos: Estadão

Valter Luiz Cardeal (à esq.) e Othon Luiz Pinheiro da Silva. Fotos: Estadão

Três semanas antes de ser preso na Operação Radioatividade – desdobramento da Lava Jato, que alcançou o setor elétrico – o almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva, então presidente licenciado da Eletronuclear, caiu no grampo da Polícia Federal. Às 14h do dia 11 de julho de 2015, Othon Luiz recebeu ligação de Valter Luiz Cardeal, diretor de Geração da Eletrobrás. Os dois conversaram durante 7 minutos e 44 segundos. O tema central do diálogo foi o empreiteiro Ricardo Pessoa, dono da UTC Engenharia e delator da Lava Jato, e uma suposta articulação contra denúncias que os envolveriam em propinas.

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No relatório de interceptações telefônicas, de 24 de julho, a PF atribui a Valter Cardeal a função de presidente da Eletrobrás. Segundo a estatal, ele era diretor de Geração. O documento afirma que Ricardo Pessoa envolveu o nome de Valter Cardeal, relacionando-o à cobrança de propina na negociação do contrato de construção da Usina de Angra 3.

“Tu sabe o que aquele filha da puta daquele Ricardo fez?”, disse Valter Cardeal ao almirante, que foi preso no dia 28 de julho e cumpre regime preventivo em uma base militar em Curitiba, sede da Lava Jato.

“Não sei não. Não…”, respondeu Othon Luiz.

“Vou te contar!”, prosseguiu Valter Cardeal, que citou o executivo da UTC Walmir Pinheiro Santana e o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto. “Ele (Ricardo Pessoa) disse que nós…que a Eletrobrás né..que fez uma negociação intensa pra baixar 10%. E baixando 10%, então ele..que ele só aceitou 6 né! E que a diferença né..eu mandei que ele desse..que eu mandei…que eu conversei com o tal de Walmir Pinheiro e coisa e tal…tem que ler aí! Que eu mandei dar pro..pro..que eu mandei dá pro Vaccari!”

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Na sexta-feira, 2, o ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou ao juiz federal Sérgio Moro que enviasse à Corte máxima os autos da Radioatividade. A medida foi tomada sob alegação de que político com foro privilegiado – senador Edison Lobão (PMDB-MA) – havia sido citado como destinatário de valores ilícitos.

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Othon Luiz foi monitorado pela PF em duas etapas, a primeira entre  25 de junho e 9 de julho de 2015. A vigilância foi retomada, com autorização judicial, em 11 de julho.

A delegada Erika Mialik Marena afirma no relatório de grampos que Valter Cardeal ligou para Othon Luiz naquele dia 11 de julho, ‘preocupado com a repercussão de denúncias de cobrança de propina em relação ao mesmo’ e dizendo ao almirante ‘que ambos devem se ajudar, isto é, combinarem suas histórias caso a investigação efetivamente se aprofunde’. Segundo interpretação da PF, os dois executivos do setor elétrico, ‘se mostram descontentes com o que julgam ser uma possível armação de veículo de imprensa e cogitam de processar o jornalista’, em referência a uma reportagem da revista Veja.

“Você podia…ao menos fazer igual a Grace Kelly né…ela falava i way dont do go tomanocu..(risos)”, disse Othon.

“(risos) Então tá ótimo! Deixa eu te dizer. Eu me lembro que tu fez uma carta muito bem feita, fez uma resposta tá. Então o que que eu imagino, que eu precisava daquela carta pra mim poder tá na “mema” base com você pra gente se ajudar tá?”, responde Valter Cardeal.

O executivo nega que ele e Othon Luiz tenham combinado suas histórias. “Não, jamais houve qualquer articulação política.”

A carta a que se refere Valter Cardeal, segundo a PF, seria um comunicado enviado dias antes à imprensa a respeito da citação a seu nome pelo ex-presidente da Camargo Corrêa, Dalton Avancini, um dos delatores da Lava Jato. Em depoimento à força-tarefa da Lava Jato, Avancini declarou que em agosto de 2014 houve ‘uma reunião na empresa UTC’, em São Paulo, em que ‘foi comentado que havia certos compromissos do pagamento de propinas ao PMDB no montante de 1% e a dirigentes da Eletronuclear’. Os repasses teriam sido acertados no âmbito das obras de Angra 3.

Avancini disse que um outro executivo ligado à Camargo Corrêa, que identificou como Luis Carlos Martins, lhe havia dito sobre ‘um acerto futuro do pagamento de propina a funcionários da Eletronuclear, sendo citada nominalmente a pessoa de Othon Luiz Pinheiro da Silva’.

COM A PALAVRA, A ELETROBRÁS

Nas datas citadas em suposto documento, o sr. Valter Cardeal exercia o cargo de Diretor de Geração da companhia, e não de presidente. Atualmente ele está licenciado do cargo.