Zelotes indica que Gilberto Carvalho recebeu ‘kit’ de consultorias

Zelotes indica que Gilberto Carvalho recebeu ‘kit’ de consultorias

Ex-ministro do governo Dilma e ex-assessor de Lula foi ouvido em inquérito que investiga suposta compra de Medida Provisória para favorecer indústria automotiva

Andreza Matais, Fabio Fabrini e Julia Affonso

26 Outubro 2015 | 16h13

Gilberto Carvalho. Foto: André Dusek/Estadão

Gilberto Carvalho. Foto: André Dusek/Estadão

Atualizado às 19h20

O ex-ministro Gilberto Carvalho foi ouvido nesta segunda-feira, 26, pela Polícia Federal, em um inquérito da Operação Zelotes, que investiga a suposta compra de Medidas Provisórias para favorecer o setor automotivo. Documentos apreendidos pela PF revelam que o ex-ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República no Governo Dilma (2011/2015) e assessor do ex-presidente Lula no Palácio do Planalto teria recebido ‘um kit’ do esquema de consultorias envolvidas com o suposto esquema das MPs.

A PF questionou lobistas presos ou conduzidos coercitivamente sobre o conteúdo do ‘kit’.

Os investigadores também encontraram outros documentos durante buscas realizadas nas etapas anteriores da Zelotes. Um desses documentos aponta para uma reunião entre o consórcio formado pelas consultorias SGR e Marconi & Mautoni e Gilberto Carvalho e do qual constam especificações de valores e momentos de pagamentos, segundo os investigadores.

gilberto-carvalho

A Zelotes sustenta que Gilberto Carvalho ‘atuou em conluio’ com Mauro Marcondes ‘quando se trata da defesa dos interesses do setor automobilístico’.

Relatório de inteligência da Polícia Federal diz, ainda. “Constatamos que as relações mantidas entre empresa (Marcondes) e Gilberto Carvalho são deveras estreitas. Documentos fortalecem a hipótese da compra da MP 471 para beneficiamento do setor automotivo, utilizando-se do ministro que ocupava a ante sala do então presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva, responsável direto pela edição de Medidas Provisórias.”

[veja_tambem]

Gilberto Carvalho foi ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, no Governo Dilma (2011-2015), e assessorava o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Palácio do Planalto.

O ex-ministro foi intimado a prestar depoimento e compareceu espontaneamente à PF. Ele não foi alvo dos mandados de buscas e nem de condução coercitiva que atingiram investigados na nova fase da Zelotes deflagrada hoje pela PF, Receita e Ministério Público Federal.

Agenda. Segundo investigadores, Gilberto Carvalho foi citado por vários personagens envolvidos no suposto esquema de compra de Medidas Provisórias. O nome do ex-ministro consta de uma agenda do lobista Alexandre Paes dos Santos, o ‘APS’, relacionado a informações sobre a MP 471.

O ex-ministro teria se reunido com representantes das montadoras para tratar dos incentivos fiscais quatro dias antes da edição da MP 471. Um encontro consta de uma agenda do lobista Alexandre Paes dos Santos, que atuava em conjunto com a Secretaria-Geral da Presidência, uma das empresas de lobby envolvidas na negociação. ‘APS’, como é conhecido, tem ligações com a ex-ministra Erenice Guerra, que era secretária executiva da Casa Civil na época das tratativas.

As anotações, obtidas pelo Estado, registram valores e regras dos contratos de lobby, além de nomes de executivos que teriam participado das negociações para viabilizar a MP. Numa das páginas está registrado um “café” com “Gilberto Carvalho” em “16/11/2009”.

Por meio de sua assessoria de comunicação, o ex-ministro Gilberto Carvalho informou. “No dia 16 de novembro de 2009, Gilberto Carvalho, então chefe de gabinete do ex-presidente Lula, estava em Roma, na primeira Cúpula Mundial sobre Segurança Alimentar, acompanhando agenda do então presidente da República, que levou àquele fórum as exitosas experiências brasileiras de combate à fome e à pobreza. Uma rápida busca no Google pode confirmar a agenda presidencial à época, conforme link abaixo, postado na página do Itamaraty. ”

COM A PALAVRA, GILBERTO CARVALHO

NOTA À IMPRENSA

Na manhã desta segunda-feira, 26/10/2015, fui intimado pela Polícia Federal a comparecer, às 10 horas, à Superintendência da instituição a fim de “prestar esclarecimentos no interesse da Justiça”. Fui ouvido pela delegada Dra. Graziela Machado da Costa e Silva, sem a presença de advogado, respondendo a todas as questões por ela formuladas.

Os temas versaram a respeito da atuação do escritório do senhor Mauro Marcondes junto ao Governo Federal, e da acusação de que teria havido pagamentos em relação à publicação de Medida Provisória que determinaria incentivos à indústria automobilística no Centro Oeste do País. Relatei à delegada federal os contatos que tive com o senhor Mauro Marcondes, dentro da minha função de Chefe de Gabinete da Presidência da República durante o mandato do Presidente Lula (2003 a 2010). Neguei qualquer interferência no andamento da referida MP, como já havia feito por meio da imprensa, assim como declarei jamais ter recebido valores da parte do senhor Mauro Marcondes ou de qualquer outra pessoa durante meu trabalho ao longo de 12 anos no Palácio do Planalto.

Ciente da minha conduta e interessado que toda a verdade venha à tona, tomei a iniciativa de colocar à disposição da Justiça meus sigilos telefônico, fiscal e bancário, o que ficou devidamente consignado. Reafirmo que jamais o Presidente Lula, a quem servi com orgulho, ou os componentes do seu gabinete, se envolveram neste tipo de negociação. Os projetos de lei, medidas provisórias ou iniciativas de qualquer natureza sempre foram tomados na estrita e preocupada política de defender o desenvolvimento econômico e social do País.
Gilberto Carvalho.