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ATIBAIA

“Fico chateado de ver um delegado de PF se preocupar com pedalinho”, queixa-se petista

Brinquedo fica no sítio Santa Bárbara, em Atibaia; Lava Jato suspeita que imóvel pertence a Lula

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Julia Affonso, Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba, e Mateus Coutinho

14 Março 2016 | 13h46

Sítio frequentado pelo ex-presidente Lula em Atibaia. Foto: Márcio Fernandes/Estadão

Sítio frequentado pelo ex-presidente Lula em Atibaia. Foto: Márcio Fernandes/Estadão

 

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou à Operação Lava Jato, em depoimento coercitivo prestado no dia 4 de março, que fica ‘chateado de ver um delegado de Polícia Federal se preocupar com pedalinho’. O petista se referiu aos brinquedos encontrados no sítio Santa Bárbara, em Atibaia, usado por ele e sua família.

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A propriedade é alvo de investigação da força-tarefa da Lava Jato. Os procuradores suspeitam que empreiteiras que formaram cartel para esquema de corrupção na Petrobrás entre 2004 e 2014 bancaram reformas milionárias do sítio e também de um tríplex no Condomínio Solaris, no Guarujá.

“Eu fico chateado de ver um delegado de Polícia Federal se preocupar com pedalinho (ininteligível)”, afirmou Lula.

“Eu só tenho uma preocupação aqui, é lhe dar oportunidade para o senhor responder isso”, disse o delegado da PF que interrogou o petista.

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“É o pedalinho”, retrucou o ex-presidente.

Os dois pedalinhos do lago do sítio, que custaram R$ 5.600, foram encomendados e pagos pelo subtenente do Exército Edson Antonio Moura Pinto, que trabalha na Assessoria Especial da Presidência destacado para atender o ex-presidente.

A nota fiscal foi emitida pela Ipe Fibra de Vidro Ltda, localizada em São Lourenço, Minas Gerais. O documento indica local para entrega dos pedalinhos Estrada Clube da Montanha, Atibaia, endereço do sítio Santa Bárbara, que o Ministério Público suspeita pertencer a Lula – o que é negado por sua defesa.

Durante o depoimento, o delegado da PF questionou: “O senhor tem conhecimento se a dona Marisa ou algum familiar seu comprou algum bem como, volto a dar o exemplo, o barco, e mandou entregar no sítio?”

“Não sei”, respondeu Lula.

“Recentemente foi noticiado que tinha pedalinhos com inscrições”, afirmou o delegado.

“Ela comprou, certamente que ela comprou”, disse Lula.

“E o barco…”, afirmou o delegado.

O ex-presidente respondeu. “Certamente que a dona Marisa adoraria ver os netos dela e outras crianças que fossem lá possivelmente passear naquilo”.

O sítio está em nome de Fernando Bittar – filho do ex-prefeito de Campinas Jaco Bittar (PT) – e do empresário Jonas Suassuna, sócio de um dos filhos de Lula. A família do ex-presidente usa frequentemente o sítio, que foi totalmente reformado em 2011, após sua compra.

Durante o depoimento, a defesa de Lula fez uma intervenção. “Se a linha de investigação é que o sítio é do presidente e não dos reais proprietários, isso é prova documental, ou seja, o senhor tem aí a escritura, o senhor tem o cheque que comprou o sítio. O fato de frequentar, de ter pedalinho, de ter barco? Nós somos profissionais do Direito, isso não transfere propriedade, isso a imprensa pode explorar, mas nós, operadores do direito, não podemos explorar isso.”

O delegado da Polícia Federal afirmou que aquela era uma ‘oportunidade’ para que Lula esclarecesse a questão.

A defesa do ex-presidente questionou o delegado. “Qual seria o crime que o senhor estaria investigando por ter um barco e um pedalinho?”

“O mesmo que eu falei desde o início, que apura o registro da propriedade do sítio, e aqui o ex­presidente está esclarecendo…”, respondeu o delegado.

“Eu fico, acho que não é legal, eu fico constrangido de você me perguntar de pedalinho e de me perguntar de um barco de 3 mil reais, sinceramente eu fico…”, disse Lula.

“Há uma questão muito importante nessa resposta agora, delegado”, afirmou a defesa do petista.

“Eu acho que depõe contra, não sei, depõe contra mim. Fica bem pra Veja, mas desde então…”, disse Lula.

O delegado prosseguiu. “Eu só estou lhe dando oportunidade de esclarecer o que tem sido publicado e o que realmente é verdade.”

A defesa alegou. “Delegado, uma questão só, uma questão, é que na ordem das perguntas há uma mistura temporal, por exemplo, ele falou só soube em janeiro, aí o senhor pergunta do pedalinho e tal, como se aquilo fosse à época, antes de ele sair da presidência. Então isso poderá, amanhã, numa tradução, imaginar o seguinte: ele, presidente, sabia que havia pedalinho como se fosse dentro da época que ele não tinha conhecimento. Então só vamos tentar esclarecer, deixar nas perguntas pra ficar explicado isso também, correto?”

“Sim. Todo momento que pode haver esse tipo de dúvida ou confusão temporal, os senhores têm toda a liberdade de pedir pra que seja esclarecido”, disse o delegado.

“Vou só deixar esclarecido então que a questão do pedalinho e do barco é bem posterior, é coisa de 1, 2 anos atrás, não se misturando com os fatos que eram de 2010, final de 2010, 2011”, retrucou a defesa.

“E a imprensa foi atrás da nota do pedalinho”, disse Lula.

“Sim, sim. Mas esse é o momento para a gente esclarecer. E os senhores têm toda a liberdade de pedir pra que seja esclarecido”, registrou o delegado.

“Eu fico chateado de ver um delegado de Polícia Federal se preocupar com pedalinho (ininteligível)”, afirmou Lula.

“Eu só tenho uma preocupação aqui, é lhe dar oportunidade para o senhor responder isso”, disse o delegado da PF que interrogou o petista.

“É o pedalinho”, retrucou o ex-presidente.

Em trecho seguinte, a defesa afirma. “É o que eu acho, doutor, me desculpe, a questão da propriedade, quer dizer, então existe uma escritura do sítio onde constam duas pessoas, “Ah, quem pagou?”, na escritura consta o cheque que pagou, então se tem esse caminho, quer dizer, a menos que haja algum tipo de vício nessas declarações, o fato de ter um pedalinho, de ter um barco, de ter o que for lá dentro, não pode tornar o ex­presidente proprietário. Então, eu acho que, assim, o que eu pediria é que nós pelo menos levássemos em consideração que há esses documentos, que são públicos, têm fé pública, certo? Então fazer perguntas em torno de aspectos que não podem contribuir…”

“Doutor, as perguntas que estão sendo feitas é para esclarecer justamente documentos que ainda não foram esclarecidos e isso só ajuda ao seu cliente a esclarecer. Isso chama ampla defesa. Então se eu estou com uma dúvida e eu estou conduzindo uma investigação, eu sou obrigado a perguntar, o seu cliente não é obrigado a responder”, prosseguiu o delegado.

“Eu sei disso, eu só estou colocando esta questão pra lembrar ao senhor de que há esses documentos que têm fé pública…”, disse a defesa.

“Agora, se eu não responder mais é porque eu me sinto envergonhado de falar no pedalinho”, afirmou Lula.

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