Ex-presidente do TCE/Rio advertiu empreiteiro para entregar propina ‘com cuidado’

Empresário entregou áudio ao Ministério Público Federal como parte de acordo de delação premiada, agora parte do processo

Constança Rezende/RIO

03 Abril 2018 | 18h34

O presidente afastado do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ), Aloysio Neves, pediu a um empresário supostamente encarregado de lhe entregar suborno que tivesse cuidado nessa ação, em diálogo registrado em gravação anexa à denúncia do Ministério Público Federal (MPF) contra conselheiros do órgão, acusados de corrupção.

O áudio foi gravado às escondidas pelo executivo Marcos Andrade Barbosa Silva , da empreiteira União Norte Fluminense Engenharia, no apartamento de Neves, em 13 de dezembro de 2017, depois que a Polícia Federal começou a desmantelar o esquema. O empresário entregou o material gravado ao MPF, como parte de acordo de delação premiada, agora parte do processo.

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Silva foi até ao local para entregar R$ 150 mil a Neves, mas ao chegar disse ao ex-conselheiro que só tinha R$ 80 mil do dinheiro acordado, por receio de ser descoberto. No mesmo dia, o então presidente do órgão, Jonas Lopes de Carvalho Júnior, havia sido alvo de uma condução coercitiva, o que, supostamente, alertou os envolvidos no esquema.

Ao chegar ao apartamento do conselheiro afastado, Silva explica, no diálogo cuja gravação foi entregue à Justiça, ter pedido ao motorista para deixá-lo em rua próxima e caminhando até a residência de Neves. Era uma suposta medida de segurança. Afirmou também que, devido à ação policial, não usou mochila para levar as cédulas: escondeu o dinheiro nas roupas.

“Eu vou vir assim, aí, aqui ó”, diz no áudio o empresário, que dividiu o valor da propina entre os bolsos da calça e do blazer.

“Eu imaginei que tava aí”, retruca o conselheiro, rindo.

“Aqui tem sessenta, tem mais dez aqui e dez aqui, oitenta”, diz o empresário.

“Tá”, responde Neves, na gravação.

Silva também afirma que só foi ao encontro de Neves porque sabia que ele “estava precisando muito”. O conselheiro lhe pede que continue tocando o esquema, mas com cuidado.

“Tem que ser com cuidado. No dia-a-dia. Quando sentir dificuldade, fala para o André (operador do conselheiro) que ele pode passar num lugar e pegar”, recomenda Neves.

“Quando for véspera de Natal, posso voltar aqui para te dar um abraço e trago, como vim hoje, assim e blazer”, sugere o empresário dizendo que a sua mulher e família também estão com medo. “Lá em casa está todo mundo apavorado, você imagina. A gente fica apavorado, mas tem que ser sangue-frio. Mas as pessoas que estão em volta da gente não têm”, diz.

“Mas mulher não tem sangue-frio, a preocupação que você tem é a que eu tenho. Eu acho que eles vão me lincar (sic)”, diz Neves referindo-se à sua ligação com o ex-governador do Rio, Sérgio Cabral Filho (PMDB), de quem foi assessor na presidência da Assembleia Legislativa do Rio.

Provas. De acordo com o MPF, um conjunto de provas reunidas de maneira independente corroboraram com o depoimento o colaborador Marcos Andrade de Barbosa Silva no sentido de que Aloysio Neves Guedes “solicitou, aceitou proposta e recebeu vantagem indevida” do representante da empresa União Norte Fluminense Engenharia e Comérico LTDA correspondente a R$ 150 mil por três vezes totalizando R$ 450 mil.

O MPF sustenta que, no áudio entregue pelo empresário, apesar de tentar desconversar sobre o acerto de vantagem indevida feito por Jonas Lopes com as construtoras Odebrecht e Carioca Engenharia, ele acaba confirmando que tinha conhecimento do acerto e chegou a receber uma parcela dos recursos ilícitos.

Ainda segundo o MPF, investigações também mostraram que Aloysio Neves utilizou altas quantias de dinheiro em espécie para pagamento de despesas de viagens e compras de obras de arte, o que reforça a movimentação de recursos ilícitos por ele. Entre elas, o órgão cita uma pintura e uma escultura de Amílcar de Castro, por R$ 60 mil e R$ 20 mil, em espécie e uma obra Daniel Senise po R$ 65 mil, também em espécie.

Além disso, segundo o órgão, Neves também aceitou vantagem indevida correspondente a R$ 100 mil por mês por Sérgio Cabral. Os supostos pagamentos dessa “mesada” de Cabral a Aloysio Neves também foram relatados pelo operador do ex-governador, Carlos Miranda, que também fechou delação premiada.

O investigado foi assessor na presidência da Alerj até 2010, quando era chefe de gabinete do presidente, Jorge Picciani, afastado do cargo sob acusação de corrupção e preso preventivamente no ano passado. Neves deixou o cargo em março daquele ano, quando foi nomeado conselheiro do TCE. Ele ocupou o cargo de vice-presidente do órgão entre 2015 e 2016 e a presidência em 2017, até ser afastado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ).

COM A PALAVRA, A DEFESA DE SÉRGIO CABRAL

Em nota, a defesa de Sérgio Cabral afirmou que o ex-governador “nunca deu mesada para Aloísio Neves ou qualquer outro Conselheiro do Tribunal de Contas do Estado”. “Se o ajudou pessoalmente em alguns momentos da sua vida, foi na condição de amigo e em questões que não envolviam dinheiro, pagamento ou qualquer tipo de contrapartida”, enviou ao advogado Rodrigo Roca, por meio de nota.

COM A PALAVRA, A DEFESA DE ALOYSIO NEVES

O advogado Rafael Faria, defensor de Aloysio Neves, afirmou que seu cliente provará, no curso do processo, a sua inocência. “Sua história de vida se levantará a seu favor”, declarou. Em relação à gravação, o criminalista declarou que “o que se revela é uma conversa em sua maior parte ininteligível”. Segundo ele, “um simples relancear de olhos” permite notar que Neves “não tinha ciência das condutas do real criminoso, o delator”.

Faria disse também que não se pode conferir “a menor credibilidade” ao áudio.

“Em momento oportuno, isso virá à tona”, afirmou.