Ex-gerente da Petrobrás confirma a Moro elo de lobista do PMDB e Cunha

Ex-gerente da Petrobrás confirma a Moro elo de lobista do PMDB e Cunha

Eduardo Musa declarou a juiz da Lava Jato que ouviu de operador de propinas que presidente afastado da Câmara era do grupo político que dava sustentação a diretor de Internacional em troca de “vantagens”; depoimento foi dado em ação penal contra Cláudia Cruz

Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba, Fausto Macedo, Mateus Coutinho e Julia Affonso

31 Agosto 2016 | 04h19

CUNHA E JOAO HENRIQUES

O ex-gerente da Petrobrás Eduardo Vaz Musa afirmou ao juiz federal Sérgio Moro que o lobista João Henriques Augusto Rezende, preso há um ano pela Operação Lava Jato como operador de propinas do PMDB, tinha “compromissos” a cumprir pela indicação do ex-diretor de Internacional da estatal Jorge Zelada – também preso desde julho de 2015.

Delator da Lava Jato, Musa confirmou ao juiz que o presidente afastado da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), faria parte do grupo político responsável pela indicação do diretor de Internacional que receberia vantagens em troca. Ele foi ouvido na quinta-feira, 26, como testemunha de acusação na ação penal que tem como ré a mulher do parlamentar, Cláudia Cordeiro Cruz.

“Ele (João Henriques) disse que tinha o apoio do PMDB mineiro, mas que tinha bastante influência do Eduardo Cunha nessa escolha do Zelada como diretor”, afirmou Musa, ao ser questionado em juízo pelo procurador da República Diogo Castor de Mattos, da força-tarefa da Lava Jato.

O delator, que trabalhou na Diretoria de Internacional de 2006 a 2009, disse que o operador do PMDB e Zelada eram “muito próximos”. “Quando o João Augusto se aproximou, nós fomos almoçar juntos algumas vezes, tivemos encontros, quando ele colocou que tinha tido bastante empenho para fazer o Zelada diretor.”

O procurador quis saber do interrogado se o lobista tinha ligações com algum partido. “Na época ele mencionou que o apoio dele era o PMDB minheiro e que ele teria conseguido fazer o Zelada e tinha compromissos a atender”, respondeu Musa.

Moro quis saber se João Henriques disse que influenciava nas decisões na Petrobrás e o interrogado respondeu afirmativamente: “Sim, isso é muito claro”.

“O diretor da Petrobrás, desde que passei a entender o funcionamento da empresa, sempre foi uma postulação política. Você teria que ter apoio político para virar diretor da Petrobrás. Quem apoiava ou o intermediário que tinha esse contato com o grupo político que o apoiava para fazê-lo diretor era a troca de benefício, era querendo algum tipo de benefício, podia não ser só vantagem financeira, mas sem dúvida era um benefício.”

Musa confirmou que o operador do PMDB mantinha influência sobre Zelada e outros dois gerentes da área Internacional. O delator disse que recebeu propina em contrato para operação de um navio-sonda (Vantage), usado para exploração de petróleo em alto mar, durante a gestão do ex-diretor. Ele disse não ter participado da compra do campo de petróleo em Benin, na África, objeto da acusação formal contra a mulher de Cunha.

“Na gestão do Zelada eu só trabalhei com o João Augusto e com o senhor Hamilton Padilha (lobista e também delator), no negócio da Vantage.” Musa explicou que recebeu propina nesse contrato via Padilha. “Não sei no peso da lei, mas esses almoços e encontros com João Augusto eram para tratar de negócios ilícitos na Petrobrás. Eu não recebi nenhum benefício dele diretamente. Ele me indicou o Hamylton Padilha que me procuraria para fazer esses acertos e foi com o Hamylton que foi feito.”

Mentira. Réu na mesma ação penal, o lobista João Henriques pediu para ser ouvido na audiência das testemunhas de acusação, no dia 26, para falar sobre pedido de liberdade apresentado por sua defesa. Ele negou conhecer Eduardo Cunha.

“Não teve prejuízo nenhum para a Petrobrás. Estou em uma preventiva em um fato que não foi ilegal”, afirmou João Henriques – que ainda vai ser interrogado no final do processo como réu do caso.

“Eu continuo preso por uma coisa que não teve nenhuma ilegalidade. A Petrobrás está sendo parcial nas auditorias dela. Isso está me irritando profundamente porque eu estou preso”, desabafou o lobista.

Ele acusou Musa de mentir. “Eu vi o Musa mentindo aqui e, por…, eu estou preso, fiquei olhando para a cara dele… Em 2008, só para dizer uma coisa, o Fernando Diniz era o presidente do PMDB, como ele fala do Eduardo Cunha, eu não conheço o Eduardo Cunha. Eu conhecia o Fernando Diniz, já falei isso em vários depoimentos.”

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