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Ex-gerente da Petrobrás aponta Vaccari como recebedor de propina e relata jantares com Dirceu

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JOSé DIRCEU

Ex-gerente da Petrobrás aponta Vaccari como recebedor de propina e relata jantares com Dirceu

Interrogado por juiz da Lava Jato, o delator Pedro Barusco confirmou que esquema de corrupção foi 'sistematizado' e que ex-tesoureiro do PT era quem cuidava da cota do partido; assunto de valores não era tratado com ex-ministro

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julia affonso, ricardo brandt e fausto macedo

20 Janeiro 2016 | 22h45

Ex-gerente da Petrobrás Pedro Barusco foi ouvido nesta quarta-feira, pelo juiz Sérgio moro. Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

Ex-gerente da Petrobrás Pedro Barusco foi ouvido nesta quarta-feira, pelo juiz Sérgio moro. Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

O ex-gerente de Engenharia da Petrobrás Pedro Barusco – delator da Operação Lava Jato – afirmou nesta quarta-feira, 20, ao juiz federal Sérgio Moro que o pagamento de propinas na estatal “era uma sistemática que existia e se aprofundou”. Interrogado como réu em ação penal que tem como principal acusado José Dirceu, ele apontou o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto como operador da corrupção e o ex-ministro como representante da legenda.

“A combinação que eu lembro era em torno de 2% em cada contrato dessas grandes empreiteiras envolvidas nesse cartel. Quando eram contratos executados pela Engenharia para atender o Abastecimento, 1% ficava na Diretoria de Serviços e 1% ia para a Diretoria de Abastecimento”, detalhou Barusco.

“Eu não ameaçava ou pressionava (as empreiteiras para receber propinas)”, afirmou o ex-gerente – que fechou acordo de delação com a Lava Jato, em 2014. Moro quis saber porque as empresas pagavam percentuais por fora para agentes públicos e políticos. “Meritíssimo, em alguns casos ou na maioria dos casos era para manter o status quo. Era um sistemática que existia, se aprofundou”, respondeu o delator.

Partido. O ex-gerente explicou ao juiz da Lava Jato que o acerto entre as partes era que do valor da propina destinado à Diretoria de Serviços, área em que atuava,  metade era para a “Casa”, composta por ele e pelo ex-diretor Renato Duque, e metade para o PT. O partido controlava a diretoria no esquema de loteamento da Petrobrás, que inclui ainda PMDB e PP. Dirceu seria o padrinho político de Duque.

Moro perguntou se o Partido dos Trabalhadores também recebia um percentual dessa propina.

“Essa era a combinação”, respondeu. “Não sei exatamente quando começou, mas quem era responsável por gerenciar essa parte do partido era o o senhor João Vaccari.”

Barusco disse ter já devolvido US$ 97 milhões, de valores que eram mantidos ocultos em contas na Suíça. Ele explicou que da mesma forma que cuidava do gerenciamento da propina recebida em nome da “Casa” na Diretoria de Serviços, Vaccari cuidava da cota do PT. Assim, os contatos que eles mantinham com operadores de propinas das empreiteiras eram sempre feitas separadamente. No caso da Engevix, Vaccari tratava direto com Milton Pascowitch, operador de propinas.

O delator afirmou que fazia reuniões com Vaccari. Mas disse que as propinas não eram tratadas entre eles, isso era feito diretamente pelo ex-tesoureiro com o operador de cada empresa. “Cada um cuidava de um nicho. Como era recebido (a propina por Vaccari), de que forma era recebido, se era recebido, não sei. Isso era tratado pelo operador e pelos responsáveis por gerenciar aquela parte.”

Dirceu. Barusco afirmou ao juiz que a empreiteira Engevix sempre tratou de propinas na Petrobrás via operador Milton Pascowitch – que também fez delação e confessou pagar valores para e despesas de Dirceu. Réu no processo, Pascowitch também foi interrogado por Moro nesta quarta-feira.

“Uma vez eu vi o senhor José Dirceu (em um jantar). Participou eu, o doutor Milton Pascowitch, o senhor João Vaccari Neto, José Dirceu, uma outra pessoa que trabalha com Jose Dirceu, que se chamava Bob, Bob Marques”, explicou Barusco. Bob, braço direito do ex-ministro, também é réu no processo e será ouvido na segunda-feira, pelo juiz da Lava Jato.

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O delator afirmou que não conversou de propina com Dirceu nesses encontros. “Conversávamos sobre projetos, perspectivas de novos negócios, política.”

O juiz insistiu em saber se ele sabia que valores de propina eram destinadas a agentes políticos, ou se Dirceu era beneficiário.

“Não tenho nenhuma prova, mas que ele era uma pessoa que tinha influência no partido e era um representante do Partido dos Trabalhadores, falava em nome do partido, sim”, respondeu Barusco.

“Mas foi dito alguma vez para o senhor, ou ouviu que ele recebia esses valores?”, perguntou Moro.

“Eu ouvia comentários, como eu não gerenciava, não estava ali…”, explicou Barusco.

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