Ex-executivo da Odebrecht diz que gerenciava fortuna de Duque

Ex-executivo da Odebrecht diz que gerenciava fortuna de Duque

João Bernardi contou em delação homologada nesta segunda que, em um ano, conta de ex-diretor da Petrobrás ligado ao PT recebeu US$ 5 milhões de propina, relacionados a um grupo italiano; patrimônio secreto foi oculto em ações, imóves e quadros

JULIA AFFONSO, FAUSTO MACEDO, MATEUS COUTINHO E RICARDO BRANDT

27 Outubro 2015 | 05h00

Renato Duque, ex-diretor da Petrobrás, citado por novo delator da Lava Jato. Foto: Fábio Motta/Estadão

Renato Duque, ex-diretor da Petrobrás, citado por novo delator da Lava Jato. Foto: Fábio Motta/Estadão

O primeiro ex-executivo da Odebrecht a fechar acordo de delação premiada com a Operação Lava Jato, João Antonio Bernardi Filho afirmou que abriu a offshore Hayley SA, no Uruguai, e sua filial no Brasil, para ocultar a fortuna secreta do ex-diretor de Serviços da Petrobrás Renato Duque – braço do PT no esquema de corrupção na estatal, que envolvia ainda o PMDB e PP.

“Entre 2009 e 2010 a Hayley recebeu por volta de 5 milhões de dólares”, afirmou Bernardi, em seu termo de delação premiada, homologado nesta segunda-feira, 26 pelo juiz federal Sérgio Moro – que conduz os processos da Lava Jato.

Bernardi conta que em 2009 Duque – que está preso em Curitiba, desde março – o procurou informando que tinha “valores a receber no exterior” e teria oferecido a ele que “administrasse tais valores”.

“Foi aberta a Hayley Sociedad Anonima”, contou Bernardi à força-tarefa da Lava Jato, no termo número 1, ouvido no dia 15. “Foi aberta uma conta no Millenium no BCP, em Genebra.” O convite decorreria da longa amizade e do conhecimento adquirido por ele no trabalho com empresas offshores – usadas, neste caso, para abertura de contas secretas no exterior.

TRECHOS DA DELAÇÃO 1 DE BERNARDI

Imóveis. Além de quadros – foram apreendidos mais de cem na casa de Duque, no Rio -, o patrimônio de propina do ex-diretor teria sido oculto em bens imóveis. “Como no Brasil vivia-se uma grande especulação imobiliária, decidiu-se então investir em imóveis.”

Comprou apartamentos, salas comerciais – duas delas também para Duque, onde foi aberta a empresa de assessoria do ex-diretor, em 2013, após sua saída da Petrobrás.

“A ideia inicial era aplicar esses recursos em papel (bonds, ações, etc) e depois esta ideia evoluiu para também aplicar esses valores no Brasil, em imóveis, de modo a ter renda para quando Renato Duque saísse da Petrobrás”, contou o novo delator da Lava Jato.

Bernardi diz ter contratado o advogado José Reginal Filpi para abrir uma offshore para operar recebimentos de Duque. “(Duque) não disse inicialmente qual montante tinha a receber, mas informou que o valor viria de uma única empresa.”

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“Teria sido Filpi, o advogado, que sugeriu o Uruguai para abertura de uma offshore”, diz o ex-executivo da Odebrecht. “Duque nunca informou expressamente ao depoente a respeito da origem ilícita do dinheiro que administraria, mas tinha ciência, ou desconfiava, que se originava de ‘comissão’ (propina) em razão de alguma compra.”

Bernardi foi solto nesta segunda-feira, 26. Ele diz que foi engenheiro da Odebrecht por 22 anos, até 2002. Depois trabalhou na Saipem – multinacional italiana com contratos investigados na Petrobrás – até junho deste ano. Sua amizade com Duque é anterior, ‘mais de 30 anos’, quando os dois começaram carreira na Petrobrás no setor de perfuração de poços para exploração de petróleo.

Bernardi apontou um total de ativos de US$ 10,6 milhões. Desses, ele entregou US$ 1,65 milhão, da conta Worly, no banco Credit Agricole, em Genebra, Suíça, R$ 891 mil em 14 quadros comprados pela Hayley do Brasil, um quadro do artista Guignard em nome da offshore já apreendido e US$ 1,5 milhão do valor das ações do fundo de investimento