Ex-diretor da Dersa ‘coordenava a trama criminosa’, afirma Procuradoria

Ex-diretor da Dersa ‘coordenava a trama criminosa’, afirma Procuradoria

Paulo Vieira de Souza, emblemático aliado do PSDB em São Paulo, foi denunciado à Justiça Federal por peculato, inserção de dados falsos em documento e formação de quadrilha

Julia Affonso e Fabio Serapião

23 Março 2018 | 05h15

Ex-diretor da Dersa Paulo Vieira de Souza. Foto: ROBSON FERNANDJES/ESTADÃO

A força-tarefa da Operação Lava Jato, em São Paulo, afirma que o ex-diretor da Dersa Paulo Vieira de Souza, emblemático aliado do PSDB, ‘coordenava uma trama criminosa’. O ex-dirigente e mais quatro investigados são acusados de desviar, entre 2009 e 2011, um total de R$ 7,7 milhões (valores da época) em recursos e imóveis destinados ao reassentamento de desalojados por grandes obras viárias realizadas pela estatal paulista na região metropolitana de São Paulo – o trecho sul do Rodoanel, o prolongamento da avenida Jacu Pêssego e a Nova Marginal Tietê.

“Paulo Vieira coordenava a trama criminosa, com a inserção de familiares e pessoas próximas a ex-funcionária da Dersa e a ele próprio no Programa de Reassentamento Involuntário de Famílias do Rodoanel Sul, Jacu Pêssego e Nova Marginal Tietê”, acusa a Procuradoria, em denúncia formal levada à 5.ª Vara Criminal Federal da Justiça Federal em São Paulo.

Segundo a denúncia, o ex-diretor de Engenharia da Dersa, Paulo Vieira de Souza, comandava o esquema, que envolvia também dois ex-ocupantes de cargo em comissão na empresa, José Geraldo Casas Vilella, então chefe do departamento de assentamento da Dersa, e uma funcionária do setor na época dos fatos.

Também é acusada de integrar o esquema uma irmã desta funcionária, e a psicanalista Tatiana Arana Souza Cremonini, filha de Vieira de Souza.

A denúncia relata em detalhes os três eventos criminosos envolvendo os cinco acusados e contou com provas obtidas por auditoria realizada pela própria Dersa. Como parte dos recursos desviados eram federais, o Ministério Público do Estado de São Paulo, onde o caso começou a ser investigado, encaminhou o procedimento ao Ministério Público Federal, que continuou com a investigação e colheu mais provas.

Os cinco são acusados pelos crimes de formação de quadrilha, peculato e inserção de dados falsos em sistema público de informação. Paulo, Geraldo e a funcionária participaram dos três eventos denunciados. A irmã da funcionária da Dersa e Tatiana participaram de um evento cada uma.

“Quase 1800 pessoas foram inseridas indevidamente nos programas de reassentamento das três grandes obras pela quadrilha liderada por Paulo Vieira de Souza”, diz a força-tarefa. “Algumas dessas pessoas receberam indevidamente auxílios, indenizações ou apartamentos da CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo), empresa parceira da Dersa nos reassentamentos.”

COM A PALAVRA, A DEFESA DE PAULO VIEIRA DE SOUZA

O criminalista Daniel Bialski, defensor de Paulo Vieira de Souza, rechaçou com veemência a denúncia da Procuradoria da República. “A denúncia nada mais é do que uma repetição de outra denúncia que tinha sido feita pelo Ministério Público de São Paulo e que a Justiça Estadual acabou por declinar da competência”, disse Bialski.

“O Ministério Público estadual fez uma denúncia contra o Paulo e o juiz estadual entendeu que a competência para o caso era da Justiça Federal”, segue o advogado.

Bialski assinalou que o Ministério Público Federal mandou o caso para a Polícia Federal ‘complementar as diligências’.

“Essa complementação trouxe elementos ainda mais fortes de que o Paulo não favoreceu ninguém. Nem o Paulo e nem a família dele cometeram ilícito nenhum. Muito pelo contrário.”

O criminalista destacou que auditoria interna da Dersa ‘inocentou Paulo Vieira de Souza de qualquer tipo de irregularidade’.

Sobre a imputação de três crimes ao ex-diretor da Dersa – peculato, inserção de dados falsos em documentos e formação de quadrilha -, o defensor é categórico. “É preciso ressaltar que o Paulo nega todas as acusações. A auditoria da Dersa indica uma ex-funcionária e parentes dela como envolvidos na prática de atos ilícitos e improbidade.”

Segundo Daniel Bialski, ‘essa ex-funcionária para tentar se eximir de responsabilidade, tinha que falar o nome de alguém e falou do Paulo para tentar usar isso como fogo de encontro’.

COM A PALAVRA, A DERSA

A DERSA – Desenvolvimento Rodoviário S/A e o Governo do Estado de São Paulo são os grandes interessados quanto ao andamento das investigações. A Companhia esclarece ainda que em 2011 organizou seu Departamento de Auditoria Interna, instituiu um Código de Conduta Ética, cuja adesão é obrigatória para todos os funcionários e contratados, e também abriu canais para o recebimento de denúncias que garantem o completo anonimato da fonte. Parte relevante das informações que embasam a denúncia do Ministério Público foi obtida internamente como fruto deste trabalho. A Empresa reforça seu compromisso com a transparência e permanece à disposição dos órgãos de controle para colaborar com o avanço das apurações.

COM A PALAVRA, JOSÉ GERALDO CASAS VILELA

A defesa de José Geraldo Casas Vilela, representada por Fernando Araneo, sócio do escritório Leite, Tosto e Barros Advogados observa que seu cliente “não tinha poder para autorizar pagamentos e que, nem ele nem qualquer familiar ou amigo, foram contemplados com apartamento no CDHU ou indenizações. Em auditoria interna na própria DERSA, não lhe foi imputada nenhuma conduta irregular” explica Araneo.

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