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Atibaia

‘Eu tinha a chave do sítio’, diz ex-presidente à PF

Por Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba, Julia Affonso, Mateus Coutinho e Fausto Macedo

15/03/2016, 03h00

   

Lula contou a delegado da Operação Aletheia que frequentava o emblemático Santa Bárbara, em Atibaia, com sua mulher, Marisa Letícia

Sítio Santa Bárbara. Foto: Márcio Fernandes/Estadão

Sítio Santa Bárbara. Foto: Márcio Fernandes/Estadão

O ex-presidente Lula disse à Polícia Federal que ‘tinha a chave’ do sítio Santa Bárbara, localizado no município de Atibaia, interior de São Paulo. O Santa Bárbara é um dos alvos da força-tarefa da Operação Aletheia, desdobramento da Lava Jato que mira no ex-presidente.

Os investigadores suspeitam que o petista é o verdadeiro dono da área e que empreiteiras como a OAS e a Odebrecht bancaram os gastos com benfeitorias.

A OAS e a Odebrecht teriam sido beneficiadas pelo esquema de cartel instalado na Petrobrás entre 2004 e 2014 (governos Lula e Dilma). Oficialmente,o sítio está em nome dos empresários Fernando Bittar e Jonas Suassuna, mas os investigadores suspeitam que a área pertence, de fato, ao ex-presidente. Ele nega.

O delegado da PF, que ouviu o petista coercitivamente no dia 4 de março, em São Paulo, perguntou a ele. “Pra essas visitas, o senhor e a sua esposa têm a chave do imóvel, pra quando o senhor quisesse frequentar livremente, vocês tinham a chave do sítio?”

Lula respondeu: “Tinha a chave, o Fernando (Bittar) ligava para o caseiro que a gente ia…”

“Qual o nome do caseiro?”, perguntou o delegado.

“Hein?”

“O nome do caseiro? Pode ser Maradona”, continuou o delegado.

Lula: “Até pensei que ele jogava de meia-esquerda, o filho da puta jogava de lateral direita.”

O delegado: “Quando alguém da sua família ou o próprio senhor, quem lhe recebia no sítio, quem lhe recebia além do caseiro?”

Lula: “Só, quando não ia o Fernando, quando não ia ninguém da família, era o caseiro.”

“Quando o senhor costuma visitar o sítio em Atibaia, quem costuma acompanhá-lo, além de sua esposa?”, indagou o delegado.

“Meus amigos.”

“O senhor Fernando Bittar costuma…”

“Dentre os quais, o Fernando Bittar, que, aliás, é um bom churrasqueiro.”

“Quando vocês estavam no sítio, ou algum parente seu estava no sítio, vocês…”

Lula: Não ia parente lá sem a presença da dona Marisa. Não ia parente meu sozinho.”

“E quais parentes costumavam frequentar o sítio?”

“Meus parentes.”

“Tem algum dos filhos em especial que costumava ir mais ou todos iam independente…”

“Todos iam dentro do possível.”

“Frequentavam algum estabelecimento comercial na região?”

“Não sei se frequentavam, eu sei que eu nunca, eu duvido que alguém tenha me visto alguma vez lá.”

“Nem a dona Marisa?”

“Eu acho que nem a dona Marisa. As pessoas não me veem nem na praia, eu sou um… eu sou… eu vou pra praia e ninguém me vê porque eu não consigo entrar na água, e vou para o sítio. O único lugar que eu descansava realmente era o Torto, que era afastado, então ninguém me via, então lá eu ficava à vontade.”

“Mas aí o senhor pedia pra quem quando, por exemplo, o senhor precisasse de um remédio?”

“Não, quem ia fazer as coisas era o pessoal que trabalha comigo.”

“Da segurança?”

“É. Eu, precisando, eles iam comprar, iam na farmácia, iam na padaria, iam…”

“Mas eles tinham a senha do seu cartão ou eles tinham cartão próprio deles pra isso?”

“Eu não tenho cartão.”

“Não tem?”

“Não uso cartão, querido.”

O delegado quis saber se Lula já frequentava o sítio enquanto era presidente.

“Não, não sabia que existia o sítio. Eu só fiquei sabendo do sítio dia, já falei pra você isso…No dia 12 de janeiro e só fui lá a primeira vez dia 15 de janeiro. Eu fui presidente durante 8 anos, a Dilma já está há 5. Até hoje ela se queixa do vazamento das reuniões que ela faz, termina a reunião tem uma coisinha no jornal. No meu tempo a gente dizia que tinha um anão embaixo da mesa da Presidência da República, porque com a gente lá acontecia, e esses companheiros conseguiram comprar um sítio e ficaram de agosto, setembro, outubro, novembro, dezembro e janeiro sem vazar essa porra.”