Eu tenho medo de Eduardo Cunha, disse delator à PGR

Lobista Júlio Camargo, que acusa presidente da Câmara de pressionar por propina de US$ 5 milhões, relatou à Procuradoria 'agressividade da terceira pessoa mais importante do País'

Redação

21 Agosto 2015 | 23h58

Julio Camargo denunciou propina a Eduardo Cunha. Fotos: Reprodução e Estadão

Julio Camargo denunciou propina a Eduardo Cunha. Fotos: Reprodução e Estadão

Por Beatriz Bulla e Talita Fernandes, de Brasília

O lobista Júlio Camargo, delator da Operação Lava Jato, relatou aos procuradores que conduzem as investigações de políticos envolvidos no esquema que não mencionou a pressão sofrida pelo presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), para pagamento de propina por medo das retaliações que o parlamentar poderia fazer à sua família ou empresas. “Eu tenho medo do deputado Eduardo Cunha”, disse o delator, em depoimento prestado à Procuradoria-Geral da República (PGR) em junho.

Os três depoimentos de Camargo o grupo de trabalho do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, permaneciam em sigilo até hoje, e serviram de fundamento para o oferecimento de denúncia contra o peemedebista por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. “Estamos tratando da terceira pessoa mais importante do País e de uma pessoa agressiva quando quer alcançar seus objetivos”, disse Camargo aos procuradores.

Foi só no segundo depoimento prestado à Procuradoria, no dia 10 de junho, que Camargo detalhou um encontro com Cunha no qual foi pressionado a pagar o restante da propina combinada com o operador do PMDB no esquema de corrupção, Fernando Soares – conhecido como Fernando Baiano. A propina foi fruto da intermediação de contratos para aquisição de navios-sonda pela Petrobras com a coreana Samsung Heavy Industries Co.

Ao atrasar os pagamentos, Camargo passou a ser cobrado por Baiano, que disse estar sendo pressionado por Cunha que estaria sendo “extremamente agressivo” na cobrança. O operador do PMDB indicou, na ocasião, que seriam feitos requerimentos pela Câmara para pressionar pelo pagamento. “Estou vindo na qualidade de seu amigo e na última vez disse que tinha compromissos inadiáveis e quero te dizer o seguinte: eu tenho um compromisso com o deputado Eduardo Cunha”, teria dito Baiano a Camargo, segundo relato do delator. Na época, havia um débito de US$ 15 milhões do acertado a ser pago por Júlio Camargo, sendo ed US$ 5 milhões seriam destinados a Cunha.

A reunião foi solicitada por Camargo e intermediada por Baiano e ocorreu no final de 2011 no Rio de Janeiro. O lobista explicou que não estava recebendo os valores da Samsung e por isso o atraso nos pagamentos, ao que Cunha teria respondido: “eu não sei da história e nem quero saber. Eu tenho um valor a receber do Fernando Soares e que ele atrelou a você”. Fernando Baiano ficou passivo na reunião e as tratativas foram feitas diretamente com Cunha, de acordo com o relato de Camargo.

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