Estratégia de pressionar empresas por propina partiu de Cunha, diz delator

Estratégia de pressionar empresas por propina partiu de Cunha, diz delator

De acordo com Baiano, em uma reunião em 2011, 'Eduardo Cunha disse que havia tomado a decisão de fazer um requerimento na Comissão de Fiscalização da Câmara pedindo explicação sobre os negócios de Julio Camargo'

Mateus Coutinho, Julia Affonso Andreza Matais e Ricardo Brandt

23 Outubro 2015 | 04h30

Eduardo Cunha

Eduardo Cunha (esq) e Fernando Baiano. Fotos: Estadão e Geraldo Bubniak

O lobista Fernando Falcão Soares, o Fernando Baiano, apontado como um dos operadores de propinas na Petrobrás, revelou em sua delação premiada que partiu do presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), a iniciativa de pressionar multinacionais a pagar propina referente a contratos de navios-sonda da estatal por meio de requerimentos apresentados na Câmara.

De acordo com Baiano, ele se reuniu, em 2011, com o deputado e, segundo o delator “nesta reunião Eduardo Cunha disse que havia tomado a decisão de fazer um requerimento na Comissão de Fiscalização da Câmara pedindo explicação sobre os negócios de Julio Camargo”.


De acordo com a denúncia da Procuradoria-Geral da República, o pagamento de propina de US$ 40 milhões relativa aos contratos de construção de dois navios-sonda – Petrobrás 10.000 (contratado em 2006) e Vitória 10.000 (contratado em 2007) – pelas multinacionais Samsung e Mitsui foi acertado entre Baiano e o lobista Júlio Camargo, que representava as empresas e atualmente também é delator na Lava Jato.

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A propina seria dividida entre o então diretor da Petrobrás Nestor Cerveró e seus subordinados na Diretoria, Fernando Baiano e Eduardo Cunha – este último teria ficado com US$ 5 milhões.

A partir de 2010, contudo, Camargo deixa de realizar os pagamentos e, de acordo com Baiano, ainda faltava quitar R$ 16 milhões. Em sua versão, a propina era de US$ 35 milhões.

Ainda segundo Baiano, diante do atraso, foram realizadas reuniões entre ele e o peemedebista na casa e no escritório de Cunha, no Rio, entre 2010 e 2011. Nesses encontros foi definida a estratégia para pressionar o lobista.

O uso do requerimento na Câmara pedindo explicações sobre os contratos das empresas representadas por Camargo com a Petrobrás é um dos elementos que embasou a denúncia contra o presidente da Câmara no Supremo Tribunal Federal. A Corte ainda vai decidir se aceita a ação.

Visitas. A primeira reunião descrita por Baiano na residência de Cunha teria ocorrido no segundo semestre de 2010, quando o presidente da Câmara era candidato a deputado federal pelo PMDB do Rio. Baiano disse ter revelado o acerto com Camargo e pediu ajuda do parlamentar para pressioná-lo a quitar a dívida em troca de dividir sua porcentagem da propina com ele.

Como estava envolvido com a eleição, na época, o peemedebista teria lhe dito que não teria condições de “gastar tempo” com aquilo, mas que pensaria em uma solução. Apresentou, no segundo encontro, em 2011, a ideia dos requerimentos na Câmara.

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