‘Estou às ordens’

‘Estou às ordens’

Mensagem atribuída ao ex-procurador da República Marcello Miller foi recuperada no grupo de WhatsApp do executivo Wesley Batista, acionista e delator da JBS preso nesta quarta-feira, 13

Julia Affonso, Luiz Vassallo e Fábio Fabrini

13 Setembro 2017 | 20h52

O ex-procurador Marcello Miller chega para depor na Procuradoria na sexta-feira, 8, no Rio. FOTO: FABIO MOTTA/ESTADÃO

A Polícia Federal recuperou mensagens atribuídas ao ex-procurador da República Marcello Miller no grupo de WhatsApp do executivo Wesley Batista, acionista e delator da JBS. Numa delas, enviada em 4 de abril, Miller diz. “Se quiserem falar ou tirar alguma dúvida, estou às ordens.”

Na ocasião, Miller ainda exercia o cargo de procurador do Ministério Público Federal. Os investigadores identificaram contatos entre executivos do grupo que falavam de um certo ‘rapaz do Rio’, possível referência a Miller, que mora na Lagoa.

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Os investigadores suspeitam que ele foi ‘corrompido’ pela JBS e ao grupo já prestava uma espécie de consultoria, inclusive sobre a estratégia para conquistar ‘as melhores vantagens’ no acordo de delação premiada com a Procuradoria-Geral da República – Miller trabalhou durante três anos no gabinete de Rodrigo Janot.

Os arquivos do grupo de WhatsApp de Wesley foram capturados pela PF na quarta fase da Operação Lama Asfáltica, deflagrada em maio. O conteúdo das mensagens levou a PF a preparar a segunda etapa da Operação Tendão de Aquiles, nesta quarta-feira, 13, denominada Acerto de Contas.

No relatório da Acerto de Contas, a PF atribui a Miller corrupção passiva e que ele foi ‘cooptado’ pelo Grupo J&F.

“O que impressiona é o fato da cooptação de Marcelo Miller ocorrer num momento em que supostamente os investigados se apresentavam às autoridades públicas com uma proposta baseada fundamentalmente em um duplo alicerce: arrependimento, diga-se, dispostos a não mais delinquir, e propensos a ‘colaborar’ de forma efetiva, daí o termo do presente instituto, com apresentação de .provas que envolviam a participação de importantes agentes políticos no delito de corrupção.”

A mesagem em que ele se põe ‘às ordens’ dos delatores foi transmitida em 4 de abril, na véspera de embarcar para os Estados Unidos onde sua missão seria tratar da leniência da J&F com o Departamento de Justiça. Solícito, ele dizia que tentaria alcançar um ótimo acordo.

A mensagem atribuída a Miller cita outras duas empresas brasileiras e bastante conhecimento.

“Nosso maior desafio é evitar a imposição de um monitor, que Embraer e Odebrecht tiveram de aceitar. Ambas estão sob monitoramento. O monitor, acho que vocês sabem, mas não custa lembrar, é, basicamente, um interventor, só que pago pela própria empresa. É um profissional local (brasileiro) escolhidas pelas autoridades americanas para fuçar todos os procedimentos de compliance da empresa e fazer uma espécie de ‘auditoria da investigação’.”

COM A PALAVRA, MARCELLO MILLER

Nota à imprensa

Marcello Miller esclarece que:

1) Repudia veementemente as insinuações e ilações feitas com base no conteúdo das gravações e mensagens divulgadas na imprensa. A defesa está esclarecendo o sentido e o contexto a todas as referências ao nome de Miller.

2) Reitera ainda que jamais fez jogo duplo e que não tinha contato com o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, nem se aproveitou de informações sigilosas de que teve conhecimento enquanto procurador. Ele também não atuou na Operação Lava Jato desde outubro de 2016 , na Operação Greenfield ou na Procuradoria da República no DF.

3) Não atuou em investigações ou processos relativos ao Grupo J&F nem buscou dados ou informações nos bancos de dados do Ministério Público Federal.

4) Pediu exoneração em 23/2/2017, tendo essa informação circulado imediatamente no MPF.

5) Não obstruiu investigações de qualquer espécie, nem alegou ou sugeriu poder influenciar qualquer membro do MPF.

6) Tem uma carreira de quase 20 anos de total retidão e compromisso com o interesse público e as instituições nas quais trabalh

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