Era um homem corajoso

Era um homem corajoso

Fausto Macedo

14 Dezembro 2016 | 14h10

Dom Paulo Evaristo Arns - 2 de fevereiro de 2016. Foto: Felipe Rau/Estadão

Dom Paulo Evaristo Arns – 2 de fevereiro de 2016. Foto: Felipe Rau/Estadão

Dom Paulo sempre me passou a certeza de que nem tudo estava perdido. Ele era um homem corajoso, determinado, ousado – poucos ousavam enfrentar os generais -, mas sempre sereno.

Todos o admirávamos. Em tempos difíceis como aqueles, meados dos anos 1970, muito poucos tinham a sua firmeza.

Vivíamos uma etapa de violências do Estado, eram os anos de chumbo, mas ele nos passava a certeza de que havia uma saída. Era uma luz em meio às trevas.

Eram tempos de poucas informações e muitas incertezas no dia a dia dos jornalistas e de todo mundo.

As redações do Estadão e do Jornal da Tarde ficavam no centro velho da cidade, na Rua Major Quedinho com a Consolação. Vivíamos dias e noites de aflição. Como no dia da missa pelo Herzog, nosso colega morto nas dependências do DOI-CODI em outubro de 1975. A polícia de choque fez um cerco monumental, praticamente isolou a Sé, para evitar manifestações na cerimônia religiosa. Foi a ‘Operação Gutemberg’, que Dom Paulo desafiou para celebrar o ato para a História.

Poucas vezes estive com Dom Paulo, pessoalmente. Não era minha área de cobertura no jornal. Na época, eu fazia reportagens policiais. Mas sua pregação fazia parte do nosso dia a dia. Ele pregava a tolerância.

O DOPS, a polícia política, tinha no delegado Fleury o símbolo do terror oficial. O secretário de Segurança Pública era o coronel Erasmo Dias, agressividade espantosa, a tirania em pessoa.
Fleury e Erasmo, dizia-se – e era assim mesmo -, mandavam mais que tudo e todos, reportavam-se diretamente à Brasília dos generais.

Do outro lado da trincheira estava o cardeal, em vigília permanente pelos direitos de todos nós. Ele nos passava esperança de que algo podia mudar. Um homem impressionante.

Lá pelos idos de 1978, por aí, a Cúria Metropolitana criou a Comissão de Direitos Humanos, que tornou-se um reduto de mães e pais em busca de informações de familiares desaparecidos ou torturados.

Como repórter, muitas vezes frequentei a Comissão. Ali pude ter ideia da dimensão exata da grandeza, da generosidade e da coragem do cardeal.

Alguns anos mais tarde, já em 1989, o País pôde acompanhar ao vivo pela TV uma atuação marcante e decisiva de Dom Paulo. Coube a ele pôr fim a um drama policial, sem uma gota de sangue derramada.

O empresário Abílio Diniz havia sido sequestrado. Mantido em um cativeiro sinistro na zona Sul por um incrível bando formado por argentinos, canadenses e chilenos, Abílio foi resgatado num domingo, no dia do segundo turno das eleições presidenciais daquele ano – as urnas escolheram Fernando Collor, impondo revés a Lula.

A polícia mantinha um cerco feroz à casa desde a manhã do sábado, mas uma eventual invasão podia colocar em risco a vida do empresário.

Foram quase dois dias de negociações.

No domingo, os sequestradores fizeram uma exigência para libertar Abílio. Eles queriam o cardeal. Sabiam que a presença de Dom Paulo era a garantia de que os homens armados com metralhadoras e fuzis lá fora não iriam executá-los.

No fim da tarde ele chegou à praça de guerra. Com sua serenidade habitual tirou Abílio do inferno.

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