‘Era um apartamento personalizado’, diz empreiteiro sobre reformas no triplex que Lula diz não ser seu

‘Era um apartamento personalizado’, diz empreiteiro sobre reformas no triplex que Lula diz não ser seu

Léo Pinheiro, da OAS, interrogado pelo juiz federal Sérgio Moro, relatou que o ex-presidente e a mulher Marisa foram no apartamento do Guarujá 'para dizer o que queriam'

Ricardo Brandt, Julia Affonso e Fausto Macedo

20 Abril 2017 | 20h12

Fachada do Condomínio Solaris, no Guarujá. Foto: MOTTA JR./FUTURA PRESS

Fachada do Condomínio Solaris, no Guarujá. Foto: MOTTA JR./FUTURA PRESS

O empresário Léo Pinheiro, da OAS, disse ao juiz federal Sérgio Moro nesta quinta-feira, 20, que os investimentos realizados pela empreiteira no triplex do Guarujá – que a força-tarefa da Operação Lava Jato diz pertencer a Lula – ‘não eram para um apartamento decorado’.

“Os investimentos eram para um apartamento específico para uma família. Veja bem, com todo o respeito à figura do ex-presidente, o apartamento era um apartamento personalizado. Não era um apartamento decorado. Foi feito para uma família morar. Se o presidente não quisesse, a gente ia ter um belo problema do que fazer com um apartamento personalizado, um valor excessivamente maior, pelas reformas e decoração feitas, maior do que valia o apartamento. Isso é público e notório. Está nos autos, muito claro isso.”

O relato de Léo Pinheiro reforça as suspeitas da força-tarefa da Lava Jato de que Lula é o dono do triplex do Guarujá e que o petista e sua mulher, Marisa (morto em fevereiro passado), visitaram o imóvel para dar as orientações sobre as reformas de acordo com o gosto do casal.


“Eu não tinha ideia de quanto ia gastar (nas obras)”, disse o empreiteiro.

A visita ao triplex teria sido articulada em janeiro de 2014. Léo Pinheiro diz ter sido chamado pelo ex-presidente ao Instituto Lula, e teria dito que queria levar a esposa, Marisa Letícia, ao apartamento. Segundo o depoimento, ficou acertado que o empreiteiro os esperaria na rodovia Anchieta, em frente ao portão de uma fábrica, e que, quando passasse o carro do ex-presidente, ele o seguiria.

A reunião no apartamento teve as presenças de Léo Pinheiro, Lula, Marisa Letícia, o então presidente da OAS empreendimentos, Fábio Yonamine, e um diretor regional da construtora.

“A esposa do presidente fez um comentário: ‘só vai ser necessário mais um quarto nesse primeiro aqui no primeiro andar’. Por uma questão da logística familiar, precisaria de mais um quarto. Tinha também a cozinha, onde deveriam ser feitas modificações para o melhor aproveitamento do espaço”, afirmou.

Ficou acertada ainda a construção de um elevador interno, uma churrasqueira, uma sauna e o deslocamento da posição da piscina, segundo Léo Pinheiro. “Uma série de modificações que era um projeto personalizado. Nenhum outro tríplex teria aquelas especificações nem aquele espaço que foi criado o espaço a mais e mudanças e tudo”.

Ao fim da visita, Léo Pinheiro, Marisa e Lula teriam saído no mesmo carro, e acertado que a obra teria de começar o ‘quanto antes’, já que o prédio estaria próximo de começar a receber os moradores. “Porque tinha modificação de parede, problema de infiltração, tinha que fazer muita coisa que ia causar transtorno para os outros moradores quando começasse a chegar. Combinamos de começar imediatamente isso e levaria a eles para dar um ok”, relatou.

O advogado de Lula, Cristiano Zanin Martins, questionou Léo Pinheiro. “O ex-presidente Lula alguma vez disse ao sr. que se comprasse (o triplex) não iria pagar pelas reformas no local?”

“O presidente Lula não me perguntou”, disse o empresário. “Quando estive com o João Vaccari (ex-tesoureiro do PT, preso na Lava Jato desde abril de 2015), em 2013, eu mostrei a ele as dívidas que tínhamos a pagar, pagamentos indevidos dessas obras e o gasto que estávamos tendo em cada empreendimento.”

Segundo o empresário, Vaccari pediu a ele que para tratar do triplex procurasse Lula. “Eu estive com o presidente. O presidente foi no apartamento para dizer o que queriam. Porque eu não tinha ideia de quanto ia gastar. Quando dona Marisa e o presidente estiveram no apartamento e nós fizemos o projeto tivemos quantificado.”

“Levei para Vaccari, isso faz parte do encontro de contas com ele. Vaccari me disse, na ocasião, que como se tratava de despesas de compromissos pessoais ele iria consultar o presidente. Voltou prá mim e disse: ‘tudo ok, você pode fazer o encontro de contas’. Se ele (Lula) sabia? Claro que sabia.”

COM A PALAVRA, O EX-PRESIDENTE LULA

“Léo Pinheiro no lugar de se defender em seu interrogatório, hoje, na 13ª Vara Federal Criminal de Curitiba, contou uma versão acordada com o MPF como pressuposto para aceitação de uma delação premiada que poderá tirá-lo da prisão. Ele foi claramente incumbido de criar uma narrativa que sustentasse ser Lula o proprietário do chamado triplex do Guarujá. É a palavra dele contra o depoimento de 73 testemunhas, inclusive funcionários da OAS, negando ser Lula o dono do imóvel”.

“A versão fabricada de Pinheiro foi a ponto de criar um diálogo – não presenciado por ninguém – no qual Lula teria dado a fantasiosa e absurda orientação de destruição de provas sobre contribuições de campanha, tema que o próprio depoente reconheceu não ser objeto das conversas que mantinha com o ex-Presidente. É uma tese esdrúxula que já foi veiculada até em um e-mail falso encaminhado ao Instituto Lula que, a despeito de ter sido apresentada ao Juízo, não mereceu nenhuma providência”.

“A afirmação de que o triplex do Guarujá pertenceria a Lula é também incompatível com documentos da empresa, alguns deles assinados por Léo Pinheiro. Em 3/11/2009, houve emissão de debêntures pela OAS, dando em garantia o empreendimento Solaris, incluindo a fração ideal da unidade 164A. Outras operações financeiras foram realizadas dando em garantia essa mesma unidade. Em 2013, o próprio Léo Pinheiro assinou documento para essa finalidade. O que disse o depoente é incompatível com relatórios feitos por diversas empresas de auditoria e com documentos anexados ao processo de recuperação judicial da OAS, que indicam o apartamento como ativo da empresa”.

“Léo Pinheiro negou ter entregue as chaves do apartamento a Lula ou aos seus familiares. Também reconheceu que o imóvel jamais foi usado pelo ex-Presidente”.

“Perguntado sobre diversos aspectos dos 3 contratos que foram firmados entre a OAS e a Petrobras e que teriam relação com a suposta entrega do apartamento a Lula, Pinheiro não soube responder. Deixou claro estar ali narrando uma história pré-definida com o MPF e incompatível com a verdade dos fatos”.

Cristiano Zanin Martins