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Operação Lava Jato

Engenheiro revela ‘ira’ de amigo de Lula nas obras do sítio de Atibaia

Por Ricardo Brandt e Fausto Macedo

13/02/2016, 21h04

   

Em depoimento ao Ministério Público, testemunha relata que José Carlos Bumlai exigia celeridade na reforma do Santa Bárbara, no interior de São Paulo, frequentado pelo petista e sua família

O pecuarista José Carlos Bumlai com o ex-presidente Lula

O pecuarista José Carlos Bumlai com o ex-presidente Lula

O engenheiro Emerson Cardoso Leite, que trabalhou nas obras do sítio Santa Bárbara, em Atibaia, frequentado pelo ex-presidente Lula e sua família, relatou que o pecuarista José Carlos Bumlai – amigo do petista e preso na Operação Lava Jato desde 24 de novembro de 2015 – manifestou “agressividade” e “ira” durante a reforma da propriedade rural no interior de São Paulo. Ele disse que “suspeita que realmente quem pagou Adriano dos Anjos (responsável pelo início das obras ) foi a própria Usina São Fernando” – uma das empresas de Bumlai.

Em depoimento ao Ministério Público, o engenheiro atribuiu a Bumlai dedicação e um papel central nas obras que estão sob suspeita da força tarefa da Lava Jato.

Para os investigadores, a relação próxima de Bumlai com o empreendimento reforça a pista sobre o interesse que o ex-presidente teria na propriedade.

Eles trabalham com a hipótese de que o Santa Bárbara, com 173 mil metros quadrados de área, pertence a Lula, o que é negado por seus advogados – formalmente, a área está em nome do empresário Fernando Bittar em sociedade com Jonas Suassuna Filho.

O engenheiro destacou que “em determinada oportunidade, quando Lula saiu do governo e a Dilma entrou, na época coincidente com o câncer do ex-presidente, recebeu uma ligação telefônica de José Carlos Bumlai solicitando que ele indicasse um profissional para execução de uma reforma num sítio em Atibaia, interior de São Paulo”.

“O depoente, como não mexia com reforma de casa, solicitou que Rômulo providenciasse um arquiteto. E esse arquiteto chama-se Igenes Neto”, contou. Segundo ele, “a empresa de Hélio dos Anjos” assumiu a obra, inicialmente, custeada pela Usina São Fernando, de José Carlos Bumlai.

O prazo para a reforma “era exíguo”. Segundo Leite, Bumlai “exigia que a reforma fosse feita até o fim do ano, justamente, para as pessoas passarem o Natal”.

“Em determinado momento da reforma, José Carlos Bumlai ligou agressivamente ao depoente reclamando que a obra não progredia.”

As revelações do engenheiro colocam Bumlai no coração de uma investigação que mobiliza a força-tarefa do Ministério Público Federal e da Polícia Federal.

As suspeitas recaíam inicialmente apenas sobre a OAS, apontada como integrante do cartel formado na Petrobrás entre 2004 e 2014. Na semana passada, o juiz federal Sérgio Moro autorizou a PF a abrir inquérito específico sobre o sítio e as ligações da empreiteira “com outras empresas e pessoas investigadas”.

Sob pressão de Bumlai, o engenheiro disse ao amigo de Lula que “tinha atribuição na Usina Termoelétrica de Porto de Aratum e que não podia se desdobrar para atendimento daquela demanda (no sítio), que nada tinha a ver primordialmente com seu trabalho”. “Daí, na sequência, José Carlos Bumlai resolveu mudar a construtora que trabalhava no local, sob o argumento de demora injustificada.”

O engenheiro disse que “não sabia que possivelmente o sítio seria destinado ao ex-presidente”.

“Em relação à construtora que sucedeu à empresa de Adriano dos Anjos na reforma do sítio, o depoente disse que tem quase certeza, por conta de informações do próprio José Carlos Bumlai, no momento de ira ao telefone, que quem ocuparia o espaço na reforma seria a OAS”, disse o engenheiro.

“Esclareceu que conseguiu compreender esse fato porque o próprio José Carlos Bumlai ao telefone disse que ‘aqueles caras que eles haviam indicado seriam incompetentes’ e que ‘ele colocaria uma empresa competente para fazer a reforma, que seria a Odebrechet’. Entretanto, o depoente acredita que, efetivamente, quem trabalhou no local foi a OAS, porque várias vezes o Neto dizia isso, ou seja, que provavelmente era a OAS quem estava lá. Interpelado se estava junto com a Odebrechet disse que não, pois as informações recebidas por Neto revelavam que apenas a OAS era quem fazia a reforma.”

“A ordem inicial de reforma era a criação de mais cômodos, suítes, anexo ao prédio principal que era antigo”, detalhou o engenheiro, que disse ter trabalhado no Grupo Bertin e que “a última grande obra que tocou foi o Rodoanel em São Paulo”.

Ainda sobre o Santa Bárbara, em Atibaia. “Havia piscina no local. Havia lago com carpas. Quando o depoente estava lá não havia sequer antena de celular. É capaz que depois tenham inserido. Não chegou a conhecer o mestre de obra da reforma.”

“Não conheceu Fernando Bittar e Jonas Suassuna, mas apenas “Maradona” que abria o portão para os trabalhadores. Mais uma vez indagado sobre a suspeita da participação da OAS na reforma disse que Neto, arquiteto, que acompanhou a obra comentou. Ele comentou algum nome da empresa. Esclareceu que os trabalhadores estavam sem uniforme. Mencionou, ainda, que foi feita uma reforma na sauna do sítio. Também mencionou que na piscina havia uma infiltração. Enunciou que havia um campo de futebol no fundo do sítio já deteriorado. A casa também tem uma guarita na entrada, tem uma casa de caseiro, a casa é feita com pedra e tijolinho à vista, tem lagos onde se cria peixes para pesca, churrasqueira. O sítio é em aclive. Suspeita que realmente quem pagou Adriano dos Anjos foi a própria Usina São Fernando. Eles chegaram a terminar a estrutura metálica.”

Bumlai já foi ouvido três vezes na Operação Lava Jato como réu em ação penal em que é acusado de corrupção e fraude no empréstimo de R$ 12 milhões que, em outubro de 2004, tomou no Banco Schahin – o dinheiro foi integralmente destinado ao PT, segundo ele.

O amigo de Lula foi preso na Operação Passe Livre, em alusão ao seu trânsito sem restrições no Palácio do Planalto nos oito anos de gestão do petista.

 

 

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