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Operação Zelotes

Empresária diz que lobista tentou encontro com Lula sobre caças

Por Andreza Matais e Fábio Fabrini/ BRASÍLIA

02/02/2016, 18h25

   

Cristina Mautoni, presa na Operação Zelotes, declarou à Justiça Federal que seu marido, Mauro Marcondes, queria se reunir com ex-presidente, mas não teve êxito porque não foi atendido

Presa sob suspeita de envolvimento em esquema “compra” de medidas provisórias, a empresária Cristina Mautoni disse em depoimento à Justiça Federal que sua consultoria, a Marcondes & Mautoni Empreendimentos, trabalhou para a Saab quando a empresa sueca disputou a venda de caças para a Força Aérea Brasileira (FAB).

O procurador Frederico Paiva quis saber se ela tinha conhecimento de que seu marido, o lobista Mauro Marcondes, havia se reunido com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para tratar do assunto. “Acho difícil, porque (a secretária do Mauro), em 2013, reclamava que ela não conseguia contato com o Lula. Ela dizia que havia deixado dez recados. Agora, qual o motivo da reunião, o que ele queria falar, não sei”, disse. Num segundo momento, reforçou: “A secretária ligou para o Instituto Lula, mas não teve sucesso porque Lula não atendeu.”

Mauro Marcondes também está preso, acusado de pagar propina a agentes públicos em troca de decisões do governo federal. Ele acompanhou o depoimento da mulher ao lado de outros réus na ação penal. Na busca e apreensão feita pela Polícia Federal na Marcondes & Mautoni foram encontrados e-mails em que o lobista pede à mulher, que os repassa à secretária, para agendar reunião com Lula e representantes da Saab. Também foi apreendida uma carta endereçada a Lula na qual Marcondes pede que o petista interceda junto à presidente Dilma Rousseff para que o governo escolhesse a indústria sueca. O contrato com a Saab, segundo Cristina, foi redigido em inglês e tinha regras de compliance. É a primeira vez que a Marcondes admite o contrato com a empresa sueca.

A Operaçao Zelotes investiga se há relação entre o lobby de medidas provisórias e do negócio dos caças a pagamentos feitos pela Marcondes & Mautoni à LFT Marketing Esportivo, empresa de Luís Claudio Lula da Silva, filho mais novo do ex-presidente Lula. O Estado revelou que a firma recebeu R$ 2,5 milhões da Mautoni entre 2014 e 2015. Cristina afirmou ter feito esse pagamento mesmo sem ter conhecimento sobre o trabalho que ele teria prestado. “Sim, efetuei pagamento. Mas eu não li sobre o que era. Tinham lá os relatórios (da consultoria)”, disse.

A empresária contou que, ao saber de quem era a empresa contratada, disse ao marido: “Quando eu vi filho do Lula, eu disse: ‘Você esta contratando o filho do Lula?’ Ele começou a falar do idealismo dele, me disse que era para o centro de exposições assim como todos os outros projetos”.

A empresária justificou que só assinava os contratos da Marcondes & Mautoni por orientação do advogado, uma vez que a firma esta registrada em nome dela e de sua filha, de 14 anos. Mas, segundo ela, era Marcondes quem tocava o negócio, conseguia os contratos, tratava com os clientes. Sua função, afirmou, era fazer pagamentos a mando do marido, que não aceitava questionamentos.

Segundo ela, o marido dizia que teve chefe a vida toda e que não aceitaria ser agora chefiado pela mulher. “Eu tenho um relacionamento com um homem de 27 anos de diferença. É outro tipo de relacionamento. E a gente tem uma filha. Então você não pode levar tudo a ferro e fogo e querer saber de tudo. É outra época, mais machista.”

Sobre os e-mails que recebia de outros investigados, ela afirmou que o marido “não aprendeu a mexer com tecnologia” e que todos que queriam enviar mensagens a ele ou até mesmo acessá-lo pelo celular a procuravam.

Cristina confirmou que a Marcondes & Mautoni foi contratada pela MMC Automotores, montadora de carros Mitsubishi no Brasil, e CAOA, que fabrica veículos Hyundai, para atuar pela edição das medidas provisórias 471/2009 e 627/2013, editadas por Lula e Dilma Rousseff, que prorrogaram incentivos fiscais que beneficiaram as duas montadoras.

Segundo ela, ao contrário da MMC, a CAOA não assinou contrato formal e deu um calote no pagamento. Perguntada pelo Ministério Público sobre qual a relação dela com o ex-ministro e ex-chefe de gabinete de Lula, Gilberto Carvalho, Cristina afirmou que não o conhece.

Ela esclareceu que comprou bonecas de presente para duas filhas do ex-ministro porque soube pelo marido que ele tinha “adotado duas crianças pobres”. “Nunca vi (o ex-ministro). Meu marido disse que ele tinha adotado duas crianças. Eu fiquei tocada de ele ter adotado duas crianças pobres. ‘Eu falei porque você não dá essas bonecas para essa duas meninas?’”.

Carvalho é um dos investigados pela Operação Zelotes. O nome dele apareceu em agendas de lobistas que atuaram ao lado de Marcondes no esquema de compra de MPs. O ex-ministro tem negado qualquer envolvimento nesse tema.

Ao fim do depoimento, Cristina apelou ao juiz para que fosse libertada e pudesse cuidar da filha. “Não entendo porque estou presa. Minha filha está sem o pai e sem a mãe.” O juiz Vallisney de Souza Oliveira disse que iria avaliar a situação.

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