Empreiteiros da Camargo Corrêa usarão tornozeleira eletrônica

Em prisão domiciliar, Dalton Avancini e Eduardo Leite, novos delatores da Lava Jato, terão de usar o equipamento

Redação

28 Fevereiro 2015 | 11h56

Por Fausto Macedo, Julia Affonso e Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba 

Os empreiteiros da Camargo Corrêa vão usar tornozeleira eletrônica em casa. Tão logo recebam o benefício da prisão domiciliar, o que deverá ocorrer no máximo em duas semanas, Dalton dos Santos Avancini, diretor-presidente da Camargo Corrêa Construções e Participações S/A, e Eduardo Hermelino Leite, vice-presidente da empresa, vão ter de usar o apetrecho por meio do qual serão monitorados dia e noite pela força-tarefa da Operação Lava Jato.

Avancini e Leite fecharam acordo de delação premiada às 4h30 deste sábado, 28. A rodada final da negociação com os procuradores da República e os delegados da Polícia Federal arrastou-se desde o início da tarde da sexta feira, 27.

Foram quase 15 horas de uma tensa discussão à mesa. A força-tarefa impôs aos novos delatores da Lava Jato que não se limitassem à rotina de malfeitos na Petrobrás – agora são 15 investigados que, pela liberdade, resolveram abrir a boca.

Os procuradores e os delegados queriam que eles relatassem os bastidores de obras de outras áreas do governo. Eles acenaram com a entrega de ampla documentação. Leite vai falar mais sobre contratos da Petrobrás, alguns já conhecidos. Dalton Avancini sobre a polêmica Usina de Belo Monte.

Os executivos da Camargo Corrêa Eduardo Leite (esq.) e Dalton Avancini, que terão que usar tornozeleira eletrônica em prisão domiciliar/Reprodução

Os executivos da Camargo Corrêa Eduardo Leite (esq.) e Dalton Avancini, que terão que usar tornozeleira eletrônica em prisão domiciliar/Reprodução

Novos nomes da estatal petrolífera deverão ser incluídos no rol de suspeitos, mas não há indicação de que as revelações dos empreiteiros colaboradores vão apontar para patamares mais altos na Petrobrás. Até aqui, três ex-diretores estão sob suspeita, Paulo Roberto Costa (Abastecimento), Nestor Cerveró (Internacional) e Renato Duque (Serviços).

Sob forte pressão e apelo de seus familiares, acuados ante a iminência de uma pesada condenação pelos crimes de corrupção ativa, formação de organização criminosa e lavagem de dinheiro – crimes a eles imputados em ação penal já em curso na Justiça Federal do Paraná – os dois altos executivos de uma das maiores e mais tradicionais empreiteiras do País se renderam.

Em troca da liberdade, ainda que limitada a seus lares nos próximos doze meses, eles vão para a delação, após 103 dias recolhidos na Custódia da PF em Curitiba, base da Lava Jato.

Do lado da força-tarefa, um grupo de procuradores da República experientes no combate à corrupção impôs condições para o acordo de delação. Eles não querem apenas falcatruas na Petrobrás -­ até porque as provas de que dispõem já são múltiplas, o que permitiu oferecimento de 19 denúncias criminais e abertura de cinco ações civis por improbidade.

Do outro lado da mesa, dois advogados habilidosos e com forte atuação em ações sobre crimes financeiros coordenaram a estratégia de defesa ­- Pierpaolo Bottini, constituído por Dalton Avancini, e Marlos Arns, por Eduardo Leite.

Em princípio, os delatores não deverão apontar nomes de políticos ou relações com partidos.

Avancini e Leite receberão o benefício da prisão domiciliar tão logo a delação seja homologada pelo juiz federal Sérgio Moro, que conduz todas as ações da Lava Jato.

A domiciliar vai valer por um ano. Até lá, os empreiteiros vão usar a tornozeleira eletrônica.

O acordo prevê que Avancini e Leite, mesmo fazendo delação, poderão pegar uma pena mínima de 10 anos e máxima de 15 anos – na prática, porém, não significa que voltarão para a cadeia, a menos que rompam os termos da colaboração.

Cada um vai pagar multa de R$ 5 milhões por danos ao Tesouro que reconhecem ter causado pelos crimes praticados.

Do mesmo benefício da prisão ao lado da família desfruta o primeiro delator da Lava Jato, o ex-diretor de Abastecimento da estatal petrolífera, Paulo Roberto Costa – em agosto e setembro, ele fez uma sucessão de depoimentos e apontou deputados, senadores, ex-governador e até governador que se teriam valido do esquema de corrupção e propinas instalado na Petrobrás no período entre 2003 e 2012.

Costa também carrega tornozeleira eletrônica.

COM A PALAVRA, A CAMARGO CORRÊA

Em nota divulgada neste sábado, 28, por sua Assessoria de Imprensa, a Camargo Corrêa assinalou que não participou do acordo de colaboração de seus executivos. Mas reafirma que permanecerá “à disposição das autoridades”.

Compromete-se, ainda, a “sanar eventuais irregularidades, aprimorando a governança administrativa”.

LEIA A ÍNTEGRA DA NOTA DA CAMARGO CORRÊA

“A Construtora Camargo Corrêa tomou conhecimento pela imprensa que seus executivos  Dalton Avancini e Eduardo Leite firmaram acordos individuais de colaboração com o Ministério Público Federal. A companhia lamenta que tenham sido submetidos a longo período de prisão, antes do julgamento do caso.  Embora não tenha participado do citado acordo, a companhia permanecerá à disposição das autoridades para o que for necessário e sanará eventuais irregularidades, aprimorando a governança administrativa para seguir contribuindo com o desenvolvimento do País.”

 

 

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