Emílio ofereceu ‘pacote de propinas’ a Lula: terreno, sítio e R$ 300 mi, diz Palocci

Emílio ofereceu ‘pacote de propinas’ a Lula: terreno, sítio e R$ 300 mi, diz Palocci

Ex-ministro da Fazenda e da Casa Civil do PT incrimina ex-presidente em interrogatório perante juiz Sérgio Moro

Julia Affonso, Ricardo Brandt e Luiz Vassallo

06 Setembro 2017 | 20h59

Emílio Odebrecht. Foto: Paulo Giandalia/Estadão

O ex-ministro Antonio Palocci, homem forte da Fazenda e da Casa Civil nos Governos Lula e Dilma, falou. Primeiro petista a romper a barreira do silêncio, na Operação Lava Jato, Palocci entregou os ex-presidentes Lula e Dilma e seu partido.

Ao juiz federal Sérgio Moro, o ex-ministro detalhou nesta quarta-feira, 6, em interrogatório, o suposto ‘pacto de sangue’ entre a Odebrecht e Lula. O acerto ocorreu em 2010, segundo o ex-ministro, e envolvia a compra do terreno onde seria instalado o Instituto Lula, o sítio de Atibaia.

Palocci relatou que houve uma reunião em 2010 entre Emilio e Lula, da qual ele não participou. O ex-ministro disse que não participou do encontro. Segundo Palocci, Lula contou o conteúdo do que havia conversado com Emilio na manhã seguinte à reunião.

“Quando a presidente Dilma foi tomar posse, a empresa entrou em um certo pânico e foi nesse momento em que o Dr Emilio Odebrecht fez um uma espécie de pacto de sangue com o presidente Lula. Ele procurou o presidente Lula nos últimos dias do seu mandato e levou um pacote de propinas para o presidente Lula que envolvia esse terreno do Instituto que já estava comprado, seu Emilio apresentou ao presidente Lula, o sítio para uso da família do presidente Lula, que ele estava fazendo a reforma, em fase final e ele disse ao presidente Lula que o sítio já estava pronto, e também disse ao presidente Lula que ele tinha a disposição dele para o próximo período para ele fazer as atividades políticas dele R$ 300 milhões. Eu fiquei bastante chocado com este momento, porque achei que não era assim que era o relacionamento da empresa naquele…”, disse o ex-ministro.

“(Eu) não estava presente. Por que eu sei disso? Porque no dia seguinte, de manhã, o presidente Lula me chama no Palácio da Alvorada e me conta da reunião. Ele também se mostrou um pouco surpreso, porque ele falou: ‘olha, ele só fez isso, porque ele tem muito receio da Dilma. Porque ele nunca tratou de recursos comigo, mas dessa vez ele tratou de um pacote de coisas e um recurso muito alto e ele pediu para eu tratar desse recurso com o Marcelo Odebrecht’. Aí é que surge essa tal planilha, para mim pelo menos. Para o Marcelo ela pode existir há décadas.”

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Durante o interrogatório, o advogado Cristiano Zanin Martins questionou Palocci sobre o encontro. O ex-ministro reafirmou o que havia dito a Sérgio Moro.

“O Emílio o abordou, no final de 2010, não foi para oferecer alguma coisa, Dr., foi para fazer um pacto, que eu chamei de pacto de sangue, porque envolvia um presente pessoal, que era um sítio, envolvia o prédio de um museu, pago pela empresa, que envolvia palestras pagas a R$ 200 mil foram impostos, combinadas com a Odebrecht para o próximo ano, várias palestras, envolvia uma reserva de R$ 300 milhões. O presidente Lula me procurou. Eu ficaria surpreso também. Eu não estranhei a surpresa do presidente. Mas ele não mandou eu brigar com o Odebrecht. Ele mandou eu recolher os valores”, afirmou.

Segundo o ex-ministro, ‘não era prática’ de Emilio Odebrecht ‘tratar de reservas de recursos com o presidente Lula’.

“Eu tive em dezenas de reuniões com eles, esse assunto não era pauta das reuniões. Mas nessa foi. Esse foi o espanto do presidente Lula. Não o espanto de ter disponíveis R$ 300 milhões. Ele gostou disso, tanto é que na segunda vez falou que o Dr. Emilio tinha confirmado os trezentos e poderia ser mais, para eu cuidar disso. Não era para cuidar do espanto dele, era para cuidar do dinheiro”, afirmou.

Antonio Palocci relatou que houve uma ‘divergência’ entre os valores. Segundo o ex-ministro, enquanto Emilio apontava para R$ 300 milhões, Marcelo Odebrecht acenava com outro valor.

“O Marcelo Odebrecht, quando eu falei com ele, confirmou que ele tinha pedido pro pai dele ir falar e só teve divergência de valores. Ele falou ‘não é R$ 300 milhões, meu pai se enganou. Trezentos é a soma daquilo que foi dado com aquilo que ainda tem disponível’. E o pai do Marcelo, seu Emílio, disse ao presidente Lula que R$ 300 milhões é o que estava disponível naquele momento. Havia, entre eles, uma divergência. Eu algumas vezes conversei com o Marcelo sobre isso”, contou.

Dilma. Durante o interrogatório, Palocci relatou que, em 2010, ‘ocorreu uma coisa estranha’.

“A empresa Odebrecht se mostrou muito tensa com a posse da presidente Dilma. Uma tensão que eu diria desproporcional. Uma tensão muito grande por quê? Havia uma razão para isso”, narrou.

Palocci relatou a Moro que Dilma, no período em que era ministra de Minas e Energia, não queria que a Odebrecht fizesse duas obras de usinas do rio madeira. Segundo o ex-ministro, Dilma achava que era uma ‘concentração de obras inadequada’.

“Ela liderou um embate muito forte com a Odebrecht nesse momento, que resultou na Odebrecht ter perdido a segunda licitação e ganho a primeira a um preço muito ruim. Do ponto de vista do mercado parecia um preço muito ruim, muito baixo”, contou.