Emílio Odebrecht falou sobre os ‘300’ dos ‘crocodilos’ e os ‘200’ dos ‘jacarés’

Patriarca da mega delação da Lava Jato confirmou entendimento do PT de que 'pacto de sangue', citado por Palocci a Moro, envolvia R$ 100 milhões a mais que o montante previsto por seu filho, Marcelo Odebrecht

Ricardo Brandt, Julia Affonso, Luiz Vassallo e Fausto Macedo

18 Setembro 2017 | 15h26

O empresário Emílio Odebrecht tratou sobre a divergência entre “o pessoal” do PT do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o filho Marcelo Odebrecht sobre o valor do “pacote” de propinas acertado por ele com o petista em 2010. No termo de colaboração 29, o patriarca da maior delação da Lava Jato afirma que para os petistas o total pactuado era de R$ 300 milhões e para seus executivos R$ 200 milhões.

O valor era o saldo da “conta corrente” criada entre a Odebrecht e Lula/PT para os projetos políticos do grupo, criada em 2010, e que tinha o ex-ministro Antonio Palocci, identificado como “Italiano” como gerente. O termo 29 trata da anotação “Meet PR – 200 inclui 100. Não 300. Ou 100 Vac” encontrada nas buscas feitas nos endereços de Marcelo Odebrecht e que a Lava Jato.

“Em um determinado momento, perguntado qual era o valor, ele me falou 300”, afirmou Emílio, ouvido em sua delação premiada no dia 14 de dezembro de 2016. Era o valor em milhões de reais da “conta corrente” entre a empresa e o PT de Lula. “Meet PR” era referência a reunião com presidente Lula.

“Era aquela disputa… 300 que ele tinha falado daquela contribuição da conta corrente. Esse negócio de 200 inclui 100 para mim é aquela disputa que ele pediu para mim falar”, explicou Emílio.

O empresário afirma que essa disputa foi a que levou ele a fazer a comparação de “jacaré e crocodilo”, sobre os interesses dos petistas e os da empresa nas negociações da propina. “Foi a colocação que eu fiz a ele de jacaré e crocodilo, mostrando no fundo que um estava querendo minimizar e outro maximizar. E que era importate eu dar um puxão de orelha no meu pessoal para não minizar tanto e ele dar um puxão de orelha para não miximizar tanto.”

Emílio afirma ainda que “Vac” pode ser João Vaccari, ex-tesoureiro do PT. Mas diz que não conhece o petista.

Em outro termo de delação, ele relata a conversa com Lula em 2010, quando o petista deixava o governo e elegeria sua sucessora, Dilma Rousseff. “Lembro de, em uma dessas ocasiões, ter disso ao então presidente que o pessoal dele estava com a goela muito aberta. Estavam passando de jacaré para crocodilo’”, contou Emílio.

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Na semana passada, Palocci (Fazenda/Lula e Casa Civil/Dilma) confessou ao juiz federal Sérgio Moro, da Lava Jato, em Curitiba, ser o “Italiano” que gerenciava a “conta corrente” da Odebrecht com o PT, que teve a disposição R$ 300 milhões em propinas, segundo ele, para o projeto político de Lula. O ex-presidente nega.

Divergência. Palocci fala em R$ 300 milhões, que era o valor que Lula contou a ele que foi oferecido por Emílio, no final de 2010. “Quando a presidente Dilma foi tomar posse, a empresa entrou em um certo pânico e foi nesse momento em que o Dr Emilio Odebrecht fez um uma espécie de pacto de sangue com o presidente Lula.”

O ex-ministro disse não estar no encontro, que foi relatado por ele por Lula no dia seguinte. “Ele (Emílio) procurou o presidente Lula nos últimos dias do seu mandato e levou um pacote de propinas para o presidente Lula que envolvia esse terreno do Instituto que já estava comprado, seu Emilio apresentou ao presidente Lula, o sítio para uso da família do presidente Lula, que ele estava fazendo a reforma, em fase final e ele disse ao presidente Lula que o sítio já estava pronto, e também disse ao presidente Lula que ele tinha a disposição dele para o próximo período para ele fazer as atividades políticas dele R$ 300 milhões. Eu fiquei bastante chocado com este momento, porque achei que não era assim que era o relacionamento da empresa naquele…”

A Moro, Palocci relatou que houve uma “divergência” entre os valores – o que tinha sido citado nas delações premiadas da Odebrecht. Segundo o ex-ministro, enquanto Emilio apontava para R$ 300 milhões, seu filho Marcelo Odebrecht acenava com outro valor.

“O Marcelo Odebrecht, quando eu falei com ele, confirmou que ele tinha pedido pro pai dele ir falar e só teve divergência de valores. Ele falou ‘não é R$ 300 milhões, meu pai se enganou. Trezentos é a soma daquilo que foi dado com aquilo que ainda tem disponível’. E o pai do Marcelo, seu Emílio, disse ao presidente Lula que R$ 300 milhões é o que estava disponível naquele momento. Havia, entre eles, uma divergência. Eu algumas vezes conversei com o Marcelo sobre isso”, contou.

Emílio Odebrecht citou a divergência e o pedido do filho para tratar dos valores com Lula. Segundo ele, em algumas ocasiões Marcelo pediu para “informar valores e esclarecer dúvidas”.

“Lembro de, algumas vezes, ter dito a ele algo como: ‘Presidente, seu pessoal quer receber o máximo possível, e meu pessoal quer pagar o mínimo necessário. Já instruí meu pessoal para chegar ao melhor acordo, e peço também ao senhor para conversar com seu pessoal para aliviar a pressão’”, afirmou Emílio.

Lula. Foto: Reprodução

‘Inverdades’. Lula usou a divergência de valores como um dos elementos para tentar desqualificar as afirmações de Palocci que imputaram a ele crimes de corrupção e lavagem de dinheiro, no se interrogatório, na quarta-feira, 13.

+ VíDEO: VEJA INTERROGATÓRIO DE LULA

Nesse processo, em que os dois petistas são réus, a força-tarefa da Lava Jato aponta R$ 12,5 milhões em propinas ao ex-presidente da Odebrecht, pagas de forma dissimulada na compra de um terreno para ser sede do Instituto Lula, em São Paulo, e de um apartamento no prédio em que ele mora, em São Bernardo do Campo.

“Deixa eu falar um pouco dentro do meu contexto, o senhor fala, eu já repito ou não repito. Então o companheiro Palocci vem aqui e conta uma série de inverdades, ele fala de um fundo, sabe, que hora é 300, outra hora é 200, mas que ele não soube, ele não estava lá, fui eu que contei para ele”, afirmou Lula, interrogado pela segunda vez como réu da Lava Jato em Curitiba, nesta quara-feira, 13.

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