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Em dois anos, Dirceu viajou 113 vezes em jato de luxo emprestado por lobista

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OPERAçãO LAVA JATO

Em dois anos, Dirceu viajou 113 vezes em jato de luxo emprestado por lobista

Dado sobre voos foi registrado por delator Julio Camargo, que diz que duas aeronaves foram cedidas, entre 2010 e 2011, para ex-ministro da Casa Civil do governo Lula por dívida de R$ 1 milhão em propina; trecho percorrido de 105 mil quilômetros daria para dar duas voltas e meia ao mundo

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ricardo brandt, julia affonso e fausto macedo

26 Janeiro 2016 | 11h35

O ex- ministro José Dirceu, que está preso em Curitiba, sede da Lava Jato. Foto: Futura Press

O ex- ministro José Dirceu, que está preso em Curitiba, sede da Lava Jato. Foto: Futura Press

Entre os anos de 2010 e 2011, José Dirceu – o ex-ministro da Casa Civil (Governo Lula) – usou 113 vezes os jatos do lobista Júlio Gerin Camargo, delator da Operação Lava Jato, totalizando 105 mil quilômetros percorridos, o equivalente a duas voltas e meia ao mundo.

Ouvido na sexta-feira, 22, pelo juiz federal Sérgio Moro – que conduz os processos da Lava Jato em primeira instância -, Julio Camargo afirmou que as horas de voo usadas por Dirceu foram abatidas de uma conta paralela de propinas. O ex-ministro tinha R$ 1 milhão restantes a receber, referente a contratos na Petrobrás intermediados peli empresário.

“O saldo de R$ 1 milhão (de propina) entrou em uma conta de afretamento de aviões. O ministro se utilizava dois aviões que eram de minha propriedade. E isso representava um débito e era compensado nessa conta de R$ 1 milhão que ficou restante”, afirmou Julio Camargo. Os dois são réus em processo por corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa, envolvendo contratos da Petrobrás.

O valor de R$ 1 milhão restante seria a última parte de um acerto de R$ 4 milhões para Dirceu fechado pelo empresário com dois representantes da Diretoria de Serviços da Petrobrás: Renato Duque, ex-diretor indicado ao cargo pelo ex-ministro, e Pedro Barusco, o ex-gerente de Engenharia, braço direito de Duque. Ambos eram cota do PT no esquema de fatiamento político das diretorias da estatal, denunciado na Lava Jato, que incluía ainda o PMDB (que controlava a Diretoria de Internacional) e PP (Diretoria de Abastecimento).

Planilha de voos. Para provar o que diz, Julio Camargo apresentou ao juiz Sérgio Moro, no interrogatório de sexta-feira, uma planilha com os registros de voos, data, hora da partida e da chegada, período de voo e quilometragem, com identificação do passageiro “J.Dirceu”. Nesta segunda-feira, 25, o documento foi anexado ao processo penal em que Dirceu, Duque e Julio Camargo são réus – junto com outros envolvidos – pelo recebimento de propina da empreiteira Engevix e das empresas Hope e Personal.

São dois jatos, um Citation Excel PT-XIB e outro um Citation Mustang PP-EVG. o primeiro teria sido comprado por Dirceu em 2011 e devolvido, em seguida. O segundo consta como sendo propriedade da empresa Riomarine,  do operador de propinas e ttambém delator Mário Goes, segundo o blog O Antagonista.

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Moro perguntou, no interrogatório, se era feita alguma simulação de pagamento para cobrir o abatimento das horas de voo, no caixa da propina. Julio Camargo explicou que era feito um acerto de contas mensalmente. Participavam com ele desses encontros o operador de propinas Milton Pascowitch, o irmão e sócio de Dirceu, Luis Eduardo, e o assessor do ex-ministro Roberto Marques, o Bob – os três, também réus do processo.

O magistrado pediu para Julio Camargo apontar se alguma vez Dirceu pagou pelo uso das aeronaves de Julio Camargo.

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“Se não me falha a memória uma ou duas vezes foram pagos. Mas se o senhor considerar os inúmeros voos que foram feitos, diria para o senho que foi muito pequena (as) parte (s) que foram pagos diretamente.”

Venda do avião. O Ministério Público Federal acusa Dirceu de ter comprado uma cota de um terço do jato prefixo PT-XIB, em 2011, por meio do operador de propinas Milton Pascowitch. Ligado à empreiteira Engevix, ele confessou, também na sexta-feira, 22, ao juiz da Lava Jato ter adquirido parte da aeronave para uso do ex-ministro.

“O denunciado Dirceu, de modo consciente e voluntário, no contexto das atividades da organização criminosa” teria dissimulado e ocultado a origem e a propriedade da parte de 33% dos Cessna Aircraft, modelo 560XL. “Quota parte essa que foi adquirida em favor de Dirceu por Milton, José Adolfo (Pascowitch) e Júlio Camargo, por intermédio das empresas Jamp e Avanti, com recursos provenientes dos crimes de cartel, fraude a licitação e corrupção praticados pelos executivos da Engevix, Hope e Personal, em detrimento da Petrobrás”, registra a denúncia da força-tarefa da Lava Jato.

Os dois operadores de propina na Petrobrás e delatores nos processos disseram que o negócio foi desfeito logo depois, e que apenas uma parcela do valor total de R$ 1 milhão foi paga. O dinheiro teria saído da empresa de Pascowitch para Julio Camargo.

Com o fim da transação, o empresário teve que devolver a primeira parcela paga a Pascowitch. Foi só então que ele diz ter tomado conhecimento do suposto envolvimento de Dirceu no negócio. “Milton que comprou a aeronave pela Engevix e me cobrou com o nome do doutor José Dirceu, a devolução do valor que ele tinha pago.”

O empresário, que representava no Brasil os interesses da japonesa Toyo Engineering Corporation e também de algumas brasileiras, como a Camargo Corrêa, Setal e UTC, disse que em 2011 decidiu vender uma cota da aeronave por não fazer uso constante dela. Pascowitch teria informando que a Engevix precisava de um novo jato, especialmente após a compra do Estaleiro Rio Grande (RS) – adquirido da Wtorre, outra investigada da Lava Jato, para construção de plataformas para a Petrobrás, via Sete Brasil.

 

“Eu vendi uma parte desse avião, e se o senhor verificar, esse contrato de venda para a Engevix aconteceu em 7 de julho de 2011. Se o senhor pegar a tabela que eu vou lhe entregar o senhor vai verificar que os últimos voos do ministro, do ex-ministro, foram em junho de 2011, nessa aeronave”, afirmou Julio Camargo, com o documento entregue a Moro.

Mau negócio. “Se ele (Pascowitch) tivesse me dito que a aeronave era para o senhor José Dirceu eu não teria vendido. Porque isso já estava me causando inúmeros problemas. Porque toda vez que o senhor José Dirceu entrava no avião, aparecia o prefixo do avião e ‘doutor José Dirceu usando avião fretado, andando de jatinho para baixo para cima’. Aquilo deu uma visibilidade no avião que perdeu o seu preço, porque ficou rotulado como um avião do José Dirceu”, contou Julio Camargo.

COM A PALAVRA, O CRIMINALISTA ROBERTO PODVAL, QUE DEFENDE JOSÉ DIRCEU

O advogado Roberto Podval, que defende José Dirceu, disse que está conferindo todos os dados relativos aos voos do ex-ministro chefe da Casa Civil do Governo Lula. O criminalista anotou que as informações sobre o número de horas de voo apontadas na planilha do lobista e delator Júlio Camargo não são exatas.

“Estamos checando esses dados e não me parece que são corretos. Não são corretos. Ainda estamos verificando voo a voo, é um pouco complexo, data por data, para onde foi, de onde foi, para podermos fazer essa prova. Mas já sabemos que não é isso. Pode até ter voado, mas com outras pessoas, outros lugares. Existem voos que sabemos não têm nenhuma relação com o José Dirceu. Estamos batendo voo a voo para saber o que exatamente diz respeito a ele. Esses voos (da planilha de Júlio Camargo) não são 100% de José Dirceu.”

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