Em ação contra Lula, ex- Petrobrás confirma a Moro que pagamento de propina era automático

Pedro Barusco, delator da Lava Jato, disse que em todos os grandes contratos da estatal com empreiteiras como Odebrecht havia corrupção; desvios teriam bancado R$ 12 milhões para Lula, em compra de terreno para Instituto e apartamento em São Bernardo do Campo, acusa Procuradoria

Luiz Vassallo, Ricardo Brandt, Julia Affonso e Fausto Macedo

24 Maio 2017 | 18h06

Pedro Barusco. Foto: André Dusek/Estadão

O ex-gerente de Engenharia da Petrobrás Pedro Barusco confirmou nesta quarta-feira, 24, em processo contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por recebimento de R$ 12 milhões de corrupção da Odebrecht, que o pagamento de propinas pelas empreiteiras do cartel acusado de corrupção pela Operação Lava Jato era “automático”.

“Era automático, essas empresas, essas empresas que que pagavam propina, quando ganhavam os contratos, Andrade Gutierrez, Odebrecht, já estava implícito que tinha esse percentual”, disse Barusco ouvido por Moro como testemunha de acusação do Ministério Público Federal no segundo processo criminal aberto contra Lula, na Lava Jato, em Curitiba.

O percentual era de 2% do valor dos contratos, segundo o delator, metade para ser gerenciado pelo ex-diretor de Abastecimento Paulo Roberto Costa, indicado pelo PP ao cargo na Petrobrás, e metade para o ex-diretor de Serviços Renato Duque, cota do PT no esquema. Barusco era braço direito e subordinado de Duque – que está preso e tenta pela primeira vez uma delação.


 

Nessa ação penal, em fase inicial, a força-tarefa acusa Lula de crimes de corrupção e lavagem de dinheiro. A denúncia da Procuradoria da República aponta que propinas pagas pela Odebrecht, no esquema de desvios na Petrobrás, que seria liderado pelo ex-presidente, chegaram a R$ 75 milhões em oito contratos com a Petrobrás e incluíram terreno de R$ 12,5 milhões para o Instituto Lula e cobertura vizinha à residência de Lula em São Bernardo de R$ 504 mil.

Barusco foi o segundo delator entre executivos da Petrobrás, envolvidos no bilionário esquema de desvios. Nunca chegou a ser preso pela Lava Jato, por buscou os investigadores antes de virar alvo de mandado judicial.

Espécie de contador da propina destinada à Diretoria de Serviços, que era comandada por Renato Duque e cota do PT no esquema de fatiamento da estatal entre partidos da base – que envolvia ainda PMDB e PP – Barusco entregou em 2014 provas de que em cerca de 10 anos repassou R$ 200 milhões para os cofres petistas, por intermédio do ex-tesoureiro João Vaccari Neto.

Ouvido como testemunha de acusação do Ministério Público Federal ele confirmou os termos de suas delações, em que detalhou como funcionava o cartel de empresas e as divisões de propinas entre PT e PP, em obras de refinarias, como a Abreu e Lima, em Pernambuco, Repar, no Paraná, Reduc, no Rio, gasotudos, plataformas de petróleo e do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj).

Neste processo em que Lula é réu, o ex-ministro Antonio Palocci (Fazenda/governo Lula e Casa Civil/governo Dilma) é apontado como principal interlocutor com a Odebrecht. O petista era o “Italiano” que aparece nas planilhas secretas da empreiteira e que “Amigo” era o ex-presidente.

 

Apartamento. A acusação informa que durante as buscas e apreensões da Operação Aletheia, deflagrada em março de 2016, que tiveram Lula como alvo, “teria sido constatado que Luiz Inácio Lula da Silva ocuparia não apenas o apartamento 122, mas igualmente o apartamento contíguo”.

Ao tornar Lula réu, Moro transcreveu trechos da acusação do Ministério Público Federal, no Paraná. “O referido apartamento teria sido adquirido, em 20 de setembro de 2010, por Glaucos da Costamarques. Segundo a denúncia, por rastreamento bancário, foi possível constatar que o custo da aquisição, no valor de R$ 504 mil, teria sido suportado pelo Grupo Odebrecht”, anota Moro.

O magistrado destacou que ‘muito embora tenha sido encontrado um contrato de locação entre Glaucos da Costa Marques e a esposa do ex-presidente, Marisa Letícia Lula da Silva, não teriam sido identificadas quaisquer provas documentais do efetivo pagamento do aluguel’.

Confissão. No dia 12 de abril, o empresário Marcelo Bahia Odebrecht, também réu nesse processo, confessou a Moro ter comprado o terreno para atender interesses de Lula, após pedido de Paulo Okamotto, presidente do Instituto Lula e também réu do caso, e o pecuarista José Carlos Bumlai – amigo do ex-presidente.

“O prédio IL foi aquele pedido que eu comentei com o sr.  Em meados de 2010, o Paulo Okamotto ou o Bumlai, um dos dois, fez o primeiro approach. Mas depois eu conversei com os dois. Veio dizer que o Bumlai e Roberto Teixeira tinham fechado um terreno que queriam que fosse a futura sede do Instituto Lula”, contou Odebrecht.

“Queriam que a gente comprasse o terreno e doasse. Eu tinha acertado o valor que em tese era para ser doado todo. Vocês não querem, vocês ficam pedindo aos poucos. Se arrancar do provisionamento que eu tenho com Palocci, tudo bem. Mas eu tenho que pegar autorização dele. Eu fui em Palocci e disse: ‘Palocci, pessoal tá querendo Instituto. Tem autorização sua para usar esses recursos no IL?’. Ele disse que sim. Eu fiz a transação, a gente comprou o terreno. Eu pedi a um amigo meu que prestava serviço para a empresa, de confiança, ele comprou o terreno no nome da empresa dele. Depois não andou em frente.”

O empresário e delator da Lava Jato afirmou que uma empresa do grupo acabou comprando o terreno para um empreendimento imobiliário. “Depois não teve interesse. Eles resolveram comprar e depois desistiram. Foi feito um débito e lá na frente um crédito ao saldo Amigo”, afirmou Marcelo Odebrecht.

 Mosh. O delator também confirmou ao juiz da Lava Jato que Vaccari era o operador dos recebimentos de propina para o PT e que ele identificava o ex-tesoureiro como “Mosh”, em referência à inseparável mochila preta que era carregada pelo petista.

Vaccari está preso em Curitiba, pela Lava Jato, desde abril de 2015.

Mais conteúdo sobre:

operação Lava JatoLula