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‘Eles não provam’, desafia Fernando César Mesquita sobre suspeita de compra de MPs

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ENTREVISTA

‘Eles não provam’, desafia Fernando César Mesquita sobre suspeita de compra de MPs

Acusado de receber R$ 78 mil para repassar informações a lobistas, ex-diretor de Comunicação do Senado admite amizade com lobista da Operação Zelotes, mas diz que acusações da Procuradoria são 'muito superficiais'

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Julia Affonso

31 Janeiro 2016 | 06h00

Fernando César Mesquita. Foto: Marcos Oliveira

Fernando César Mesquita. Foto: Marcos Oliveira

A investigação da Operação Zelotes indicou pagamento de R$ 78 mil, entre dezembro de 2009 e março 2010, ao então diretor de Comunicação do Senado, Fernando César Mesquita. O dinheiro teria sido pago para que ele acompanhasse o trâmite da Medida Provisória 471/2009 e repassasse informações a lobistas, entre eles Alexandre Paes dos Santos, o ‘APS’. Fernando César nega irregularidades.

“Conheço Alexandre Paes dos Santos há quase 30 anos. Sempre fomos amigos, ele sempre foi muito ético comigo”, afirma. “Ah, o Alexandre te deu dinheiro? O Alexandre já me emprestou dinheiro. Nós viajávamos juntos. Somos amigos há muito tempo. Isso não nego. Já me emprestou dinheiro em viagem.”

Fernando César, que foi porta-voz da Presidência da República no Governo José Sarney (1985/1989), diz que o empréstimo nada tem a ver com a investigação da Zelotes. Segundo ele, o pagamento foi quitado em data que não lembra.

Em dezembro de 2015, o ex-diretor de Comunicação do Senado, que ficou no cargo por 10 anos, se tornou réu por corrupção. A Justiça Federal em Brasília ainda aceitou a denúncia contra 15 investigados.

A medida provisória editada em 2009 pelo governo do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva teria sido “comprada” por meio de lobby e de corrupção para favorecer montadoras de veículos. Empresas do setor negociaram pagamentos de até R$ 36 milhões a lobistas para conseguir do Executivo um “ato normativo” que prorrogasse incentivos fiscais de R$ 1,3 bilhão por ano.

Para ele, acusações da Procuradoria da República são ‘muito superficiais’. “Se eles dizem que eu interferi de alguma maneira para votar isso ou aquilo, que provem. Mas eles não provam. Falei isso várias vezes. É fácil ficar botando isso na imprensa, que eu sou culpado, que eu recebi dinheiro. Eles não provam.”

De acordo com as investigações, a MMC Automotores, subsidiária da Mitsubishi no Brasil, e o Grupo CAOA (fabricante de veículos Hyundai e revendedora das marcas Ford, Hyundai e Subaru) pagariam honorários a um “consórcio” formado pelos escritórios SGR Consultoria Empresarial, do advogado José Ricardo da Silva, e Marcondes & Mautoni Empreendimentos, do empresário Mauro Marcondes Machado, para obter a extensão das benesses fiscais por ao menos cinco anos. Os incentivos expirariam em 31 de dezembro de 2010, caso não fossem prorrogados. Dono da SGR, José Ricardo era parceiro de negócios do lobista Alexandre Paes dos Santos.

Alexandre Paes dos Santos e Mauro Marcondes estão presos desde outubro.

“Conheço o Alexandre, conheço o Mauro Marcondes, o Zé Ricardo, conheço todo mundo. Eu moro aqui desde 1963, fui jornalista e já tive cinco cargos no governo. As pessoas me conhecem, eu conheço as pessoas. No Congresso, eu conheço todo mundo”, diz.

A denúncia do Ministério Público Federal afirma que Fernando Mesquita teve ‘seu nome lembrado’ pelos lobistas por ser amigo íntimo de Alexandre Paes dos Santos. “Ele recebeu a oferta e posterior pagamento de propina para a tarefa, natural ante sua posição dentro do Senado Federal”, anotam os procuradores.

O documento lista a relação de Fernando Mesquita e Alexandre Paes dos Santos. Em uma das apreensões, em 22 de dezembro de 2009), Alexandre Paes dos Santos, afirmou a Procuradoria, orientou que Fernando Mesquita entrasse em contato com José Ricardo para pegar “5 processos em inglês, já traduzidos para o português”. Para os procuradores, a frase significa parte da propina.

Em 9 de março de 2010, de acordo com a denúncia, o lobista mandou dois e-mails para Fernando Mesquita para que ele monitorasse emendas parlamentares apresentadas ao texto da MP 471/2009.

“Sobre o pagamento efetuado, em 17 de março de 2010, Alexandre Paes dos Santos remete para José Ricardo proposta de divisão dos valores obtidos em razão da Medida Provisória 471/2009. No documento, consta para Fernando Mesquita: “50.000 + US$ 10 + R$ 10.000 (adiantamento) = R$ 78.000 pago”.”

Fernando César Mesquita afirma que não é preciso lobby para obter informações do Senado. “Qualquer pessoa consegue sozinho qualquer informação hoje no Senado a respeito de qualquer coisa. O Senado é uma porta aberta”, declara. “Não há necessidade de você ter alguém que vá dar informações especiais. Que eu levasse pedido para senador, jamais isso aconteceu. Eu desafio a qualquer um a dizer, a provar que eu algum dia falei qualquer coisa com qualquer senador, deputado a respeito desse assunto.”

A ÍNTEGRA DA ENTREVISTA

ESTADÃO: O sr conhece Alexandre Paes dos Santos?

FERNANDO CÉSAR MESQUITA: Sim, conheço Alexandre Paes dos Santos há quase 30 anos. Sempre fomos amigos, ele sempre foi muito ético comigo. Eu sempre tive muito respeito por ele, e ele por mim. O Alexandre teve um problema com Serra, negócio de agenda. Eu achava que o Alexandre tinha sido injustiçado. Eu até ajudei o Alexandre a tentar esclarecer as coisas.

ESTADÃO: O Alexandre é lobista?

FERNANDO CÉSAR MESQUITA: Ele é lobista, isso é inegável. Antes da história da agenda dele, ele tinha mais de 50 empresas. Ele sempre procurou defender a ideia de que o lobby tinha que ser regulamentado. Tem um projeto do Marco Maciel sobre isso. Depois daquela história da briga do Serra, ele perdeu praticamente todos os contratos que ele tinha. Ele tinha contrato com pouquíssimas empresas. Ele conversava muito comigo para fazer avaliações políticas, conjunturais sobre o País. Isso era importante para ele, para mostrar o conhecimento dele da realidade do País. Nossa relação era muito nessa base. Viajamos muito juntos.

ESTADÃO: Amigos pessoais sem ter negócios?

FERNANDO CÉSAR MESQUITA: Amigos pessoais sem ter negócios.

ESTADÃO: O que o sr tem a dizer da denúncia, que diz que o sr recebeu R$ 78 mil?

FERNANDO CÉSAR MESQUITA: Não consta do meu extrato bancário. Ninguém me apresentou quem me pagou, como pagou. Apenas uma anotação de que alguém pagou 78 mil, negócio de dólar. Não tem como pagou, quem pagou e por que pagou.

ESTADÃO: Dia 26 de outubro houve uma busca e apreensão na casa do sr.

FERNANDO CÉSAR MESQUITA: Eles fizeram uma busca e apreensão aqui em casa. O que eu sempre tenho repetido é que eles me acusam de ser intermediário dos interessados na MP para transmitir os interesses deles junto aos parlamentares. Nunca falei com nenhum parlamentar, deputado, senador, quem quer que seja, a respeito de nenhuma medida provisória. Isso seria exorbitado da minha função, seria uma coisa desrespeitosa e eu tenho uma relação muito respeitosa com os senadores, deputados. Eu era o mais jovem repórter do Congresso em 1963, na Câmara. Fiz cobertura durante anos. Mesmo quando eu era chefe de redação do Estado aqui, eu ia todos os dias no Congresso. Depois também editor político do Jornal do Brasil, eu ia todo dia. Eu tenho uma relação muito respeitosa com os parlamentares. Eu desafio que eles digam com quem eu falei, se eu pedi alguma coisa, fiz alguma insinuação, se eu fiz qualquer coisa a respeito dessa medida provisória ou de qualquer outra. Eu fiz uma carta para o juiz onde eu falo isso. Eu nunca pedi, nunca falei nada. Eles têm de provar isso.

ESTADÃO: Por que acha que seu nome foi envolvido nesta situação?

FERNANDO CÉSAR MESQUITA: Porque eu sou meio vitrine, né? Eu era diretor de Comunicação do Senado, amigo do Alexandre. Tem lá uns e-mails onde o Alexandre pede para eu ver o que era uma medida provisória. Eu criei, além do sistema de comunicação do Senado, rádio, jornal, agência, o Senado, hoje, tem toda uma estrutura de completa visibilidade de tudo. Eu criei, inclusive, quando eu assumi, o 0800. Qualquer cidadão pode ligar para o Senado e saber de matéria e tal. Isso até hoje funciona. O Senado é uma porta aberta. Qualquer pessoa tem acesso a qualquer matéria que esteja tramitando, emenda, qualquer coisa. Hoje, um senador está falando, já está saindo lá na internet o discurso dele. O Senado hoje é a coisa mais fácil de saber. Não há necessidade de você ter alguém que vá dar informações especiais. Que eu levasse pedido para senador, jamais isso aconteceu. Eu desafio a qualquer um a dizer, a provar que eu algum dia falei qualquer coisa com qualquer senador, deputado a respeito desse assunto.

ESTADÃO: O sr ouviu falar da compra das medidas?

FERNANDO CÉSAR MESQUITA: Nunca ouvi falar. O Alexandre me ligou uma vez me perguntando sobre uma medida provisória, sobre uma emenda que o Gim Argello, queria saber o que era. Eu nem fui atrás. Depois o Alexandre, eu vi no inquérito, que o Alexandre mandou um e-mail para mim, dizendo: Olha, Fernando, eu já sei tudo o que é a emenda do Gim Argello. Não precisou de mim para saber o que era do Gim Argello.

ESTADÃO: Ele conseguiu sozinho.

FERNANDO CÉSAR MESQUITA: Sozinho. Qualquer pessoa consegue sozinho qualquer informação hoje no Senado a respeito de qualquer coisa.

ESTADÃO: São muito superficiais as acusações?

FERNANDO CÉSAR MESQUITA: Muito superficiais. Eles têm de me dizer se eu, algum dia, falei com algum senador, deputado, funcionário, se eu pedi. Eles estão me acusando de ser intermediário para levar as reivindicações. Primeiro, o delegado coloca lá que eu fui corrompido para corromper senadores. Isso é muito grave, corromper senadores. Depois mudaram, que eu tinha sido contratado para monitorar a medida provisória. Monitorar como? Qual o sentido de monitorar? Se está tudo aberto. Se eles dizem que eu interferi de alguma maneira para votar isso ou aquilo, que provem. Mas eles não provam. Falei isso várias vezes. É fácil ficar botando isso na imprensa, que eu sou culpado, que eu recebi dinheiro. Eles não provam.

ESTADÃO: O sr conhece João Gruginski, que teria citado seu nome em um registro de agenda?

FERNANDO CÉSAR MESQUITA: Ele não citou meu nome. Ele disse que o Alexandre tinha dito que tinha falado comigo ou ia falar comigo. Eu, ontem, interpelei o Alexandre e ele disse que nunca falou isso. O Alexandre falou: eu nunca falei isso, isso é mentira dele. Esse Gruginski nunca me viu, nunca vi. Sei nem quem é esse Gruginski. Eu falei: Alexandre, que história é essa?. Ele falou: Não, eu nunca falei isso. Agora, que o Alexandre passou um e-mail para mim perguntando o que era uma medida provisória, o que queria dizer. Nem respondi o Alexandre. Logo depois ele me mandou um e-mail, eu vi também no inquérito, dizendo: Fernando, olha, já sei tudo, já sei o que é aquela emenda do Gim Argello. Ou seja, não precisou de mim. Ninguém precisa de mim para ter qualquer informação sobre qualquer coisa no Congresso. Ah, o Alexandre te deu dinheiro? O Alexandre já me emprestou dinheiro. Nós viajávamos juntos. Somos amigos há muito tempo. Isso não nego. Já me emprestou dinheiro em viagem. Eu era amigo da segunda mulher dele, filha do deputado Paes de Andrade, meu amigo. Tenho uma relação com o Alexandre muito boa. Ele nunca deixou de ser ético comigo. Esses problemas aí, essa história toda de MP, que tinha dinheiro no meio, eu nunca tomei conhecimento disso. Eu não sabia de nada disso.

ESTADÃO: O sr pagou o empréstimo?

FERNANDO CÉSAR MESQUITA: Já paguei.

ESTADÃO: Quanto era?

FERNANDO CÉSAR MESQUITA: Acho que era coisa de vinte. Uma viagem que nós fizemos aí. Ele me adiantou ou pagou a agência, eu paguei depois para ele. Mas não tem nada a ver. São coisas antigas. Há quase 30 anos que nós somos amigos.

ESTADÃO: Quando foi o empréstimo?

FERNANDO CÉSAR MESQUITA: Olha, eu nem me lembro. Não tem nada a ver com essa história. Conheço o Alexandre, conheço o Mauro Marcondes, o Zé Ricardo, conheço todo mundo. Eu moro aqui desde 1963, fui jornalista e já tive cinco cargos no governo. As pessoas me conhecem, eu conheço as pessoas. No Congresso, eu conheço todo mundo. Eu lamento o seguinte. Eu vejo as matérias. Ontem (quinta-feira, 28), por exemplo, teve quatro depoimentos (de suas testemunhas de defesa) falando de minha dignidade e não saiu uma linha em jornal nenhum. A começar pelo Álvaro Augusto Costa, que foi advogado-geral da União, subprocurador da República, que falou sobre a minha conduta ética. Ninguém fala nada. Se o procurador dá uma declaração: ele recebeu dinheiro. Aí sai nos jornais. Eu lamento muito isso, que a imprensa cuide das coisas dessa maneira.

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