‘Ele tem que dar resultado prá bancada do PDT’, diz gerente da BRF no grampo da Carne Fraca

‘Ele tem que dar resultado prá bancada do PDT’, diz gerente da BRF no grampo da Carne Fraca

Roney Nogueira dos Santos caiu na interceptação telefônica da Polícia Federal em conversa com outro executivo do frigorífico informando que fiscal do Ministério da Agricultura iria 'matar no peito' resultado de auditoria

Mateus Coutinho, Julia Affonso, Luiz Vassallo e Fausto Macedo

20 Março 2017 | 13h15

BRASÍLIA DF BSB 17/03/2017 POLÍTICA / OPERAÇÃO CARNE FRACA / POLÍCIA FEDERAL - A Polícia Federal (PF) cumpre, na manhã desta sexta-feira (17), 309 mandados judiciais em seis estados e no Distrito Federal. A operação, batizada de

A Polícia Federal (PF) durante a Operação “Carne Fraca”. NA FOTO viaturada da Polícia Federal estacionadas no Ministério da Justiça para cumprir mandado de busca e apreensão. FOTO DIDA SAMPAIO/ESTADÃO

Em diálogos interceptados pela Operação Carne Fraca, executivos da BRF revelam que o chefe do Serviço de Inspeção de Produtos de Origem Animal em Goiás (Sipoa-GO), Dinis Lourenço da Silva, tinha que ‘dar resultado’ para a bancada do PDT e chegou a pedir doações da BRF durante as eleições municipais de 2016 em troca da liberação de funcionamento da planta de Mineiros (GO), cuja auditoria do Ministério da Agricultura havia pedido a suspensão da habilitação.

Em uma conversa às 22h23 do dia 2 de maio de 2015, o gerente de Relações Institucionais e Governamentais da BRF Roney Nogueira dos Santos relatou ao diretor da BRF para o Centro-Oeste André Baldisserra que Dinis havia prometido ‘matar no peito’ e não encaminhar para Brasília o resultado da auditoria que havia determinado a suspensão da planta. Em troca, informou Roney, Dinis teria pedido apoio da empresa para candidatos do PDT nas eleições municipais de 2016 e até R$ 300 mil para um homem que seria responsável por manter Dinis em Goiânia.

“O que eles vão propor é, é, suspender a certificação, só, e vão dar 15 dias, 15 ou 20, dias pra BRF preparar, ali, atender os planos de ação e fazer uma nova supervisão pra voltar à exportação”, disse Roney a André. Após conversarem mais detalhes sobre a punição alternativa negociada com Dinis, André comemora o fato de que vão conseguir evitar a suspensão da habilitação para o funcionamento da planta, que produz carnes até para exportação.


“RONEY: Aí ele falou que vai matar no peito, pra não levar pra Brasília, até que tenha uma nova supervisão. Aí depois tem o golpe, né. (risos)

ANDRÉ: RONEY, esta é a notícia que nos faz tomar um vinho agora antes de dormir, cara.

RONEY: (risos) (…). Não é um assunto pra ti, né. Mas ele pediu o seguinte, vou contar. O que é que ele pediu: hoje, ele, o DINIS, tá pra assumir aqui como Superintendente, por que a bancada que cuida aqui do Ministério da Agricultura é do PDT, e pra ele ficar como Superintendente ou ficar no SIPOA, ele tem que dar resultado pra bancada do PDT. Ele pediu o apoio da BRF nas eleições aí municipais, tá.

ANDRÉ: Ah, vamos fazer. (ininteligível) se tem que fazer, vamos fazer essa merda.”
Posteriormente, em outro diálogo interceptado, eles seguem conversando sobre a liberação da planta de Mineiros e Roney relata que Dinis teria pedido R$ 300 mil para “ajudar o cara que mantém ele”.

“ANDRÉ: O DINIS (ininteligível). O que é que ele pediu daquela vez lá?

RONEY: É ele pediu.

ANDRÉ: Pra apoiar ele no quê, cara?

RONEY: É, cara, mas não deu. Ele pediu pra gente trezentos mil reais pra ajudar o cara que mantém ele lá em Goiânia.

ANDRÉ: Putz. Aí é foda.

RONEY: Aí não dá, né. Eu não tenho.

ANDRÉ: Deus (ininteligível).

RONEY: Eu tive que enrolar. Enrolei lá um monte. Não tem nem como, né.

ANDRÉ: Não. Daí não dá.

RONEY: Não dá ainda mais se a BRF, a se a lei não tivesse mudado, a gente conseguiria. A gente sempre fez doação de campanha. Agora não tem nem como, né”.

Roney, Dinis e André tiveram a prisão preventiva decretada na semana passada por ordem do juiz Marcos Josegrei da Silva, da 14ª Vara Federal de Curitiba. Para o magistrado, as investigações apontam que Dinis “regularmente se envolve com práticas criminosas, em troca dos mais diversos ‘favores'”

“Presta orientação, auxilia no atendimento a interesses espúrios, pressiona empresários até a que adquiram veículos pessoais seus, recebe quantidades consideráveis de dinheiro sem qualquer justificativa lícita ligada ao seu trabalho, solicitou R$ 300 nil para alegadamente uma campanha eleitoral de ‘padrinho’ seu, recebe produtos das empresas fiscalizadas”, assinala o juiz.

“É mais um indivíduo que, tudo indica, faz uso da profissão para, antes de mais nada, atender a seus interesses pessoais. Viabilizou a manutenção em funcionamento de Unidade da BRF em Mineiros/GO cuja indicação era de suspensão de atividades”, segue Josegrei na decisão que deflagrou a Carne Fraca.

Dinis era um dos servidores públicos que foi identificado na operação como responsável por liberar plantas de produção de carne em troca de propinas. A investigação, que começou a partir de um depoimento de um fiscal do Paraná que estava sendo punido dentro do órgão por não atuar no esquema, apontou que havia irregularidades nas superintendências do Mapa no Paraná, Goiás e Minas Gerais.

Na sexta-feira, 17, após a deflagração da Carne Fraca, a Polícia Federal informou que há suspeitas de que parte da propina paga aos fiscais e servidores envolvidos abastecia o PP e o PMDB.

COM A PALAVRA, O PDT

O PDT informou que nunca teve indicação de cargo no Ministério da Agricultura. O partido destacou que ‘nem mesmo quando era governo’ indicou aliados para a Pasta, muito menos agora, que é oposição.
“O nome do PDT só é citado em um determinado ponto da escuta, é impossível que algum dos arrolados tenha qualquer tipo de ligação com o partido. O PDT não tem cargos no atual governo e nunca indicou qualquer fiscal do MAPA.”

COM A PALAVRA, DINIS LOURENÇO DA SILVA

A defesa de Dinis Lourenço da Silva não foi localizada. O espaço está aberto para manifestação.

COM A PALAVRA, A BRF

NOTA DE ESCLARECIMENTO
São Paulo, 20 de março de 2017 às 12h02: Diferentemente do que vem sendo noticiado, a BRF informa que não recebeu nenhuma notificação oficial das autoridades brasileiras ou estrangeiras a respeito da suspensão de suas fábricas por países com os quais mantém relações comerciais, incluindo Coreia do Sul e União Europeia.
COMUNICADO À IMPRENSA
Em virtude do noticiário acerca da chamada Operação Carne Fraca, da Polícia Federal, a BRF vem a público esclarecer alguns fatos importantes:
1 – INTERDIÇÃO DA FÁBRICA DE MINEIROS (GO)
A fábrica da BRF de Mineiros é uma planta construída em 2006 que produz carne de frango e de peru e responde por menos de 5% da produção total da BRF. Seus produtos são destinados a exportações e mercado interno. A planta está habilitada para exportar para os mais exigentes mercados do mundo, como Canadá, União Europeia, Rússia e Japão. Isso significa que segue as diferentes normas estipuladas por esses países.
A fábrica possui três certificações internacionais que estão entre as mais importantes do mundo: BRC (Global Standard for Food Safety), IFS (International Food Standard) e ALO Free (Agricultural Labeling Ordinance). A última auditoria pela qual a fábrica passou foi realizada pelo MAPA e aconteceu entre os dias 20 e 24 de fevereiro de 2017, tendo sido considerada apta a manter suas operações em todos os critérios.
Apesar de o juiz da operação ter considerado desnecessário o fechamento da unidade, ela foi interditada, de forma preventiva e temporária, pelo Ministério da Agricultura. A medida deve durar até que a BRF possa prestar as informações que atestem a segurança e a qualidade dos produtos produzidos, o que deve acontecer em breve, uma vez que a companhia tem confiança em seus processos e padrões, que estão entre os mais rigorosos do mundo.
2 – PRESENÇA DE SALMONELLA NOS PRODUTOS
Sobre esse tema é preciso esclarecer alguns fatos muito importantes para o melhor entendimento da questão. Existem cerca de 2.600 tipos de Salmonella, bactéria comum em produtos alimentícios de origem animal ou vegetal. Todos os tipos são facilmente eliminados com o cozimento adequado dos alimentos.
Em relação ao caso da Itália divulgado na mídia, é importante esclarecer que a BRF não incorreu em nenhuma irregularidade.
O contexto verdadeiro é o seguinte: em 2011, a União Europeia definiu um novo regulamento (CE 1086/2011) para controle de Salmonella em carne de aves produzidas localmente ou importadas. Segundo este regulamento, produtos in natura não podem conter dois tipos de Salmonella: SE e ST (Salmonella Enteritidis e Salmonella Typhimurium).
O tipo de Salmonella encontrado em alguns lotes desses quatro contêineres é o Salmonella Saint Paul, que é tolerado pela legislação europeia para carnes in natura e, portanto, não justificaria a proibição de entrada na Itália.
Diante desse fato, a BRF discutiu duas iniciativas:
O encaminhamento da mercadoria a outro porto, o de Roterdã, na Holanda.
Este porto holandês segue à risca o regulamento europeu. O produto obviamente passaria por todos os testes exigidos, com os mesmos padrões técnicos.
A antecipação da discussão do problema junto ao MAPA, em Brasília.
O acordo entre Brasil e União Europeia para importação de produtos alimentícios determina que não-conformidades gerem um “rapid alert” (alerta rápido) para todos os países da comunidade, para o produtor e para as autoridades sanitárias do país de origem. Portanto, a intenção da BRF foi, antes mesmo da emissão do “rapid alert”, antecipar a comunicação ao MAPA e iniciar sua defesa com argumentos técnicos e científicos.
Diante do exposto, a BRF reitera que todas as medidas tomadas pela empresa e seus técnicos estão plenamente de acordo com os mais elevados níveis de governança e compliance e de forma nenhuma ferem qualquer preceito ético ou legal do Brasil e dos países para os quais a BRF exporta seus produtos.
3 – USO DE PAPELÃO
Não há papelão algum nos produtos da BRF. Houve um grande mal entendido na interpretação do áudio capturado pela Polícia Federal. O funcionário estava se referindo às embalagens do produto e não ao seu conteúdo. Quando ele diz “dentro do CMS”, está se referindo à área onde o CMS é armazenado. Isso fica ainda mais claro quando ele diz que vai ver se consegue “colocar EM papelão”, ou seja, embalar o produto EM papelão, pois esse produto é normalmente embalado em plástico. Na frase seguinte, ele deixa claro que, caso não obtenha a aprovação para a mudança de embalagem, terá de condenar o produto, ou seja, descartá-lo.
4 – ACUSAÇÕES DE CORRUPÇÃO
A BRF não compactua com práticas ilícitas e refuta categoricamente qualquer insinuação em contrário. Ao ser informada da operação da PF, a companhia tomou imediatamente as medidas necessárias para a apuração dos fatos. Essa apuração será realizada de maneira independente e caso seja verificado qualquer ato incompatível com a legislação vigente, a BRF tomará as medidas cabíveis e com o rigor necessário. A BRF não tolera qualquer desvio de seu manual da transparência e da legislação brasileira e dos países em que atua.
5 – PRISÃO DE RONEY NOGUEIRA DOS SANTOS
O sr. Roney apresentou-se voluntariamente às autoridades brasileiras na manhã deste sábado, vindo da África do Sul, onde estava a trabalho, para prestar todos os esclarecimentos necessários às autoridades. A BRF está acompanhando as investigações e dará todo o suporte às autoridades.
6 – NOTÍCIAS SOBRE “CARNE PODRE”
A BRF nunca comercializou carne podre e nem nunca foi acusada disso. As menções a produtos fora de especificação, no âmbito da operação Carne Fraca, dizem respeito a outras empresas, como pode ser comprovado no material divulgado pela Polícia Federal. A BRF lamenta que parte da imprensa tenha inserido o seu nome de maneira equivocada em reportagens que tratam desse assunto, confundindo os consumidores e a sociedade.
CONCLUSÃO
Em virtude do exposto acima, a BRF vem a público manifestar seu apoio à fiscalização do setor e ao direito de informação da sociedade com base em fatos, sem generalizações que podem prejudicar a reputação de empresas idôneas e gerar alarme desnecessário na população.
Sobre a BRF
A BRF é uma das maiores companhias de alimentos do mundo, com mais de 30 marcas em seu portfólio, entre elas, Sadia, Perdigão, Qualy, Paty, Dánica, Bocatti e Vienissima. Seus produtos são comercializados em mais de 150 países, nos cinco continentes. Mais de 105 mil funcionários trabalham na companhia, que mantém 54 fábricas em sete países (Argentina, Brasil, Emirados Árabes Unidos, Holanda, Malásia, Reino Unido e Tailândia).

COM A PALAVRA, O MINISTÉRIO DA AGRICULTURA

Ministério da Agricultura interdita frigoríficos e afasta 33 servidores
Também estão sendo abertos processos administrativos. Investigação foi iniciada há dois anos
Brasília (17/03/2017) – Três frigoríficos foram interditados e 33 servidores envolvidos na Operação Carne Fraca destituídos das funções que ocupavam no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), anunciou o secretário-executivo da pasta, Eumar Novacki. As medidas foram tomadas em função da operação desencadeada nesta sexta-feira (17) pela Polícia Federal, que investiga o pagamento de propina para obtenção de licenças sanitárias.
O secretário observou que o corpo técnico do Mapa é altamente qualificado e que o sistema de inspeção federal é robusto, sendo submetido a avaliações constantes, incluindo as de autoridades sanitárias estrangeiras por parte de 150 países importadores de carnes brasileiras. ‘Não vamos tolerar desvios e atos de corrupção. Estamos tomando medidas enérgicas em relação a servidores e empresas e compartilhando informações com a Polícia Federal e com o Ministério Público”, disse Novacki.
As intervenções do Mapa ocorreram no frigorífico da BRF de Mineiros (GO), de abate de frangos, e nas unidades da Pessin em Jaraguá do Sul (SC) e em Curitiba (PR), que produzem embutidos (mortadela e salsicha). Em relação aos servidores, estão sendo abertos processos administrativos. “Cabe ressaltar que há processos que foram abertos já no passado, em fase de investigação, e que estamos dando todo o suporte à PF”, ressaltou o secretário. As primeiras denúncias do caso divulgado hoje ocorreram há quase sete anos e, há dois anos, foram iniciadas as investigações culminado com as prisões e conduções coercitivas”, acrescentou.
O secretário enfatizou que o Mapa não admite atos ilícitos e apoia integralmente quaisquer ações que visem coibi-los. Além de desenvolver ações próprias, assinalou, o Ministério da Agricultura tem parcerias com outros órgãos federais para fornecer dados, coletas oficiais de amostras, análises laboratoriais e resultados de ações fiscalizatórias.
Novacki admitiu preocupação com repercussão no exterior, observando que o Brasil é um grande player no mercado internacional do agronegócio. Mas ressaltou que as denúncias se referem a casos isolados e que o produto brasileiro tem reconhecimento no exterior. Ele lembrou ainda medidas adotadas no Mapa, desde que Blairo Maggi é ministro, como mudanças legais – entre elas portaria que impede a remoção de fiscais por parte de superintendentes regionais, sem motivação.
Em novembro do ano passado, Maggi publicou a Portaria 257/2016, que centralizou na Secretaria de Defesa Agropecuária e na Secretaria-Executiva essas remoções. “É um dos mecanismos adotados nesta gestão que contribui para evitar a repetição de fatos como os apurados pela PF”, disse Novacki. O secretário afirmou ainda que, em 10 meses, desde que Maggi, assumiu foram abertos mais processos administrativos do que nos dois anos anteriores.

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