E virão outros

E virão outros

Flávio Figueiredo*

01 Maio 2018 | 16h14

Acervo Pessoal

Neste 1.º de Maio acordei com uma notícia muito triste: um prédio irregularmente ocupado, localizado no Largo do Paiçandu, pegou fogo e desabou, vitimando pessoas.

Notícia triste, mas esperada, pelo menos para quem circula pela cidade e procura conhecer sua realidade, em vez de observá-la apenas pela leitura de relatórios em seus gabinetes assépticos, ou através dos meandros da burocracia.

Já entrei em muitos prédios em situações críticas, dos já demolidos São Vito e Mercúrio a outros edifícios irregularmente ocupados. É apavorante. As tragédias são latentes e apenas não acontecem sei lá por qual conjunção de fatores.

Instalações elétricas precárias, acúmulo de lixo e materiais combustíveis, botijões de gás no interior de quartos ou salas, ausência de rotas de fuga e de qualquer equipamento para prevenção e combate a incêndio etc. etc., são condições sempre encontradas nesses imóveis. Todas elas representam risco para incêndio ou para sua propagação descontrolada, como a que ocorreu no prédio do Largo do Paiçandu.

Enquanto isso é tolerado, com omissão técnica movida por perigosa combinação entre interesses políticos, demagogia e falta de querer agir, edifícios e estabelecimentos regulares são autuados por ostentar pequenas desconformidades, cujos impactos para a comunidade são irrelevantes, quando comparados às situações encontradas em centenas de prédios invadidos.

São dois pesos e duas medidas.

Falta respeito, tanto pelas pessoas que habitam nesses edifícios, como para aqueles que vivem em suas imediações.

Não creio que ninguém tenha percebido que há um risco muito grande para toda a região em torno dos prédios invadidos e ocupados de forma precária.

Talvez seja necessário mostrar para os gestores de gabinete – pelo menos através de fotografias ou desenhos esquemáticos – que a maior parte dos edifícios invadidos está situada em regiões densamente ocupadas, nas quais não há recuos laterais entre prédios, nem recuos frontais, o que os deixa perto também das edificações situadas em outras quadras.

Nessas condições, não é difícil, ou improvável, que incêndio em um edifício se alastre para prédios vizinhos.

Espero que essa amostra de tragédia desperte nossos gestores para a realidade, descruzando seus braços e fazendo com que partam para a ação efetiva, impedindo que pessoas sem local para morar se instalem e permaneçam em lugares com riscos altíssimos para si e para todos aqueles que vivem em suas imediações.

*Engenheiro civil, especializado em perícias técnicas, diretor da Figueiredo & Associados Consultoria, tem várias obras publicadas sobre o tema. No dia 7 de junho lança o livro que coordenou e do qual é um dos autores: Vistorias em Obras Civis – Aplicações a Administração de Ativos e Gestão de Conflitos

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