E-mails indicam que executivos da Andrade Gutierrez temiam delação

E-mails indicam que executivos da Andrade Gutierrez temiam delação

Mensagem interceptada em maio de 2015 nos computadores da empreiteira alvo da Lava Jato diz que poderia ser 'ruim' um acordo de colaboração dos lobistas Mario Góes e Fernando "Baiano" Soares e do ex-diretor da área Internacional da Petrobrás Nestor Cerveró

Julia Affonso, Ricardo Brandt, Mateus Coutinho e Fausto Macedo

03 Outubro 2015 | 08h20

A partir da esquerda: Mário Góes, Fernando Baiano e Nestor Cerveró.

A partir da esquerda: Mário Góes, Fernando Baiano e Nestor Cerveró.

Em 11 de maio de 2015, pouco mais de um ano após a deflagração da Operação Lava Jato e cerca de um mês antes de a Polícia Federal prender dirigentes da cúpula da Andrade Gutierrez, executivos da companhia demostravam receio com a possibilidade de três investigados fazerem delação premiada. E-mail apreendido nos computadores da sede da empreiteira diz que poderia ser ‘ruim’ um acordo de colaboração dos lobistas Mario Góes e Fernando “Baiano” Soares e do ex-diretor da área Internacional da Petrobrás Nestor Cerveró.

Naquela data, Góes, Baiano e Cerveró os três estiveram em audiência da CPI da Petrobrás, em Curitiba, base da Lava Jato, e se calaram diante das perguntas dos deputados. Às 16h02, de 11 de maio, um executivo da Andrade Gutierrez envia mensagem a um colega do grupo. “CPI – Mario Góes, Fernando Baiano e Cerveró invocaram seu direito ao silêncio …. RR.”

Um dirigente da empreiteira responde às 16h19. “Pode ser bom mas tb pode ser porque estão se reservando para uma delação premiada … e aí é ruim.”

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Daquela ocasião até Mário Góes – apontado como operador de propinas na Diretoria de Serviços da Petrobrás-, acertar os termos de sua delação premiada passaram-se quase três meses. No fim de julho, o lobista começou a contar que sabia sobre o esquema de propinas na estatal em troca de benefícios, como redução de pena. Em um de seus depoimentos, Mário Góes confirmou que usou suas empresas, a RioMarine e a Phad Corporation, para repasse de propina e lavagem de dinheiro da Andrade Gutierrez para a Diretoria de Serviços da Petrobrás.

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Fernando Baiano, preso desde novembro de 2014, fechou delação premiada no início de setembro. As negociações para o acordo de colaboração de Baiano, lobista ligado ao PMDB, com a força-tarefa da Procuradoria-Geral da República se arrastaram por alguns meses.

Baiano é apontado como comprador de uma lancha de R$ 1,5 milhão, de propriedade do presidente da Andrade Gutierrez, Otávio Marques de Azevedo. O alto executivo da Gutierrez está preso desde 19 de junho deste ano, quando foi deflagrada a Operação Erga Omnes, 14ª fase da Lava Jato.

O ex-diretor da Petrobrás Nestor Cerveró chegou a se reunir com a força-tarefa do Ministério Público Federal, mas não acertou os termos de sua delação premiada.

Cerveró, Baiano e Góes já foram condenados na Lava Jato. O juiz federal Sérgio Moro, que conduz as ações da Lava Jato, impôs 12 anos e 3 meses de prisão ao ex-diretor da Petrobrás e 16 anos a Fernando Baiano.

Em outra ação, Mário Góes pegou 18 anos e 4 meses de prisão. Como já teve a delação premiada homologada por Moro, ele vai cumprir as penas definidas nos acordos com a força-tarefa da Lava Jato.