E-mail apreendido na Lava Jato desmente versão de Palocci, diz PF

E-mail apreendido na Lava Jato desmente versão de Palocci, diz PF

Ex-ministro da Fazenda e da Casa Civil (Governos Lula e Dilma) afirmou em depoimento que não arrecadou para a campanha da petista, em 2010, mas mensagem do então tesoureiro do PT o liga a valores para o marqueteiro João Santana

Julia Affonso, Mateus Coutinho, Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba, e Fausto Macedo

10 Dezembro 2016 | 06h15

Antonio Palocci. Foto: Rodolfo Buhrer/Reuters

Antonio Palocci. Foto: Rodolfo Buhrer/Reuters

Relatório da Polícia Federal afirma que um e-mail apreendido na Operação Lava Jato desmente o ex-ministro Antonio Palocci (Fazenda e Casa Civil, Governos Lula e Dilma) à investigação. O laudo aponta que ‘foram encontrados indícios da participação’ de Palocci e de seu braço direito Branislav Kontic na ‘arrecadação de recursos para a campanha presidencial do Partido dos Trabalhadores de 2010’ e na quitação de despesas com o marqueteiro das campanhas da legenda João Cerqueira de Santana Filho.

Palocci e seu ex-assessor Brani estão presos e são réus perante o juiz federal Sérgio Moro. Eles são acusados por corrupção e lavagem de dinheiro relacionados à obtenção, pela empreiteira Odebrecht, de contratos de afretamento de sondas com a Petrobrás.

Documento

A mensagem que desmentiria Palocci foi apreendida na caixa de e-mails usada pelo ex-tesoureiro das campanhas presidenciais de Lula, em 2006, e Dilma em 2010, José de Filippi Junior. O e-mail capturado foi enviado em 6 de outubro de 2010, às 19h10, por uma interlocutora identificada como Adelaide Maria Bezerra Maia de Moraes para José de Filippi.

“Boa Noite! Sr. Deputado Federal Filippi, um resumo do dia 6 de outubro de 2010”, escreveu Adelaide.

A interlocutora enumera oito itens na mensagem. A PF destacou dois.

Em e-mail de 6 de outubro de 2010, Adelaide informou Filippi que Brani pediu que entrasse em contato com o presidente da Equipav, Luiz Vital, e o lembra que estava programada uma doação para o dia 8 de outubro de R$ 500 mil.

“O Brani pediu para vc entrar em contato c/a Equipav (sr. Luiz Vital). Lembrete: Está programada uma doação no dia 8 de outubro de R$ 500mil”, narrou Adelaide.

No ítem oito, a interlocutora escreveu ‘Resumo Financeiro’ e citou ‘Mônica’. Para os investigadores trata-se de Mônica Moura, mulher de João Santana.

“Demandas: Reality Voice = $ 500 mil, Santana = $ 5 milhões (solicitação Brani/Palocci). O Doni está ciente e fez contato, em Brasília, d Mônica. Folha Comp. = $ 70 mil (prevista p/ amanhã)”, observa Adelaide de Moraes.

A PF destaca que ‘entre as demandas’ está Brani, ‘numa demanda de $ 5 milhões, sendo essa uma solicitação de Brani/Palocci’.

“Cabe mencionar que, em seu Termo de Declarações de 29 de setembro de 2016, Antônio Palocci Filho afirma que ‘foi membro da campanha da então candidata à Presidência da República Dilma Vana Rousseff em 2010, sendo que sua função era primordialmente destinada aos assuntos de programa política econômica’ e que não teve função de arrecadar recursos para a campanha. Tal declaração é desmentida pelo pedido de Brani para que Felippi entrasse em contato com a Equipav”, anota a Federal.

Em depoimento, diz a PF, Palocci também declarou que a relação com João Santana em 2010 foi ‘intensa, inclusive por pedidos de Dilma Rousseff, especificamente em questões econômicas tendo em vista o programa eleitoral da campanha” e que “desconhece completamente tais fatos, não tendo, tampouco, participação” nos recebimentos de recursos por parte de João Santana e sua esposa Mônica em conta no exterior’.

“Essa declaração também é desmentida pela demanda de $ 5 milhões solicitadas por Brani/Palocci, especialmente se a ausência de unidade monetária designar pagamento em moeda que não o Real”, assinala o relatório da Federal.

COM A PALAVRA, O CRIMINALISTA JOSÉ ROBERTO BATOCHIO, QUE DEFENDE ANTONIO PALOCCI E BRANI KONTIC

“São manobras primárias de incriminação que efetivamente são um pouco depreciativas da inteligência da parte contrária. Antonio Palocci continua afirmando que jamais operou como arrecadador, nunca foi tesoureiro. Ele se incumbia das políticas públicas relativas ao setor econômico. As campanhas tinham seus tesoureiros. A única coisa que ele pede é que não vejam fantasmas onde não há lençol. O lembrete (no e-mail recuperado pela Polícia Federal) é da secretária, da sra. Adelaide. Vírgula não é ponto, assim como alhos não são bugalhos. E mais: quero dizer que cifrão para Chico tem que ser cifrão para Francisco. Não pode ser em reais, primeiro, e depois mudar para dólar. Tem mais um detalhe. Até aqui, eles (investigadores) atribuíam a Palocci a alcunha de ‘Italiano’. Agora é Palocci/Brani. No mínimo intrigante como mudam de opinião com tanta frequência.”

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