‘É de se lamentar’, diz Moro sobre vazamento do interrogatório do delator Odebrecht

‘É de se lamentar’, diz Moro sobre vazamento do interrogatório do delator Odebrecht

Audiência nesta segunda-feira, 10, foi 'transmitida em tempo real' pelo site O Antagonista

Julia Affonso, Fábio Serapião, Ricardo Brandt e Fausto Macedo

10 Abril 2017 | 21h26

O presidente afastado da maior empreiteira do País, Marcelo Odebrecht está preso desde junho de 2015, em Curitiba. Foto: Félix R/Futura Press

O presidente afastado da maior empreiteira do País, Marcelo Odebrecht está preso desde junho de 2015, em Curitiba. Foto: Félix R/Futura Press

O interrogatório do empresário Marcelo Odebrecht, que deveria ficar sob o mais rigoroso sigilo por ordem judicial, foi ‘transmitido online’ pelo site O Antagonista nesta segunda-feira, 10. Os detalhes mais importantes do relato do delator – ouvido pelo juiz federal Sérgio Moro, da Operação Lava Jato -, inclusive sobre suposto repasse de R$ 13 milhões para o ex-presidente Lula, foram levados em tempo real aos leitores do site.

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O feito do Antagonista provocou um tumulto ainda na sala de audiências do Fórum Federal de Curitiba, base de Moro e da Lava Jato, quando o criminalista José Roberto Batochio, defensor do ex-ministro Antônio Palocci (Fazenda-Casa Civil/Governos Lula e Dilma) – réu no processo ao lado de Odebrecht por corrupção e lavagem de dinheiro -, alertou o magistrado sobre o incrível vazamento on line.


“Após rápida checagem do site, o Juízo constatou que de fato teria reprodução de afirmações do depoente Marcelo Odebrecht que só poderiam ter saído desta sala”, assinalou Moro no Termo de Audiência.

Em meio a um clima de desconfiança geral, os advogados dos acusados, os representantes do Ministério Público Federal e os policiais federais que estavam na sala se dispuseram, ‘por iniciativa própria’, a mostrar seus aparelhos celulares para demonstrar que não seriam os responsáveis pelo vazamento.

Moro anotou que não caberia a ele exigir a apresentação dos celulares, por envolver questões relativas a sigilo profissional, mas se dispôs a examinar rapidamente aqueles que se dispusesseem a mostrá-los, ‘sem porém exigir a apresentação’.

Voluntariamente, mostraram os aparelhos celulares e outros aparelhos eletrônicos ‘e por sua própria iniciativa’ os policiais federais, que faziam a escolta de Odebrecht, os procuradores da República, e 24 advogados de todos os réus na ação – além de Odebrecht e Palocci, outros 13 acusados por corrupção e lavagem de dinheiro.

Os advogados que entregaram seus celulares são: Antonio Nabor Areias Bulhões, Maria Francisca Sofia Nedeff Santos, Alexanáre Knoptholz, Carlos da Silva Fontes Filho, Rafael Souto Monteagudo, Marta Pacheco Kramer, José Roberto Batochio, Guilherme Otávio Batochio, Juliano Campeio Prestes, Elaine Angel, Carlos Chammas Filho, Philippe Alves do Nascimento, Valdeque Borges Santos, Paula Sion de Souza Naves, Bruno Salles Pereira Ribeiro, Thiago Tibinka Neuwert, Giulianne Macedo Goedert, Ricardo Mathias Lamers, Vicente Bomfim, Eduardo Sanz de Oliveira e Silva, Bruno Augusto Gonçalves Vianna, Diogo Uehbe Lima, Juliana Fonseca de Azevedo e Joana Paula Gonçalves Menezes Batista.

“Nada foi constatado pelo julgador”, registrou Moro. “Não foi necessária a apresentação dos aparelhos daqueles que chegaram depois do depoimento de Marcelo Odebrecht e fica consignado que os defensores Luiz Guilherme Costa Pellizzaro e Rodolfo Herold Martins saíram antes do término do depoimento de Marcelo Odebrecht e da produção do trecho vazado.”

O juiz acrescentou que ele próprio não estava de posse de seu celular. “Fica ainda registrado que nem a servidora que acompanhou a audiência, nem o julgador, estão na posse de aparelho celular na audiência e ainda que haveria uma impossibilidade física de vazamento, já que ocupados com a audiência.”

“Quanto ao episódio do vazamento de trechos pontuais, é de se lamentar o ocorrido”, observou o magistrado da Lava Jato. “Apesar da voluntariedade da providência acima, nada foi elucidado. Querendo providências, caberão às partes requerer o que entenderem pertinentes em três dias.”