Doleiro diz que Odebrecht ‘pagava propinas parte lá fora, parte aqui em reais’

Doleiro diz que Odebrecht ‘pagava propinas parte lá fora, parte aqui em reais’

Alberto Youssef depôs como testemunha de acusação na ação penal contra a cúpula da maior empreiteira do Brasil e revelou como eram feitos os repasses no âmbito de contratos da Petrobrás

Julia Affonso, Fausto Macedo e Mateus Coutinho

22 Outubro 2015 | 05h00

Alberto Youssef está preso desde março de 2014. Foto: Vagner Rosario/Futura Press

Alberto Youssef está preso desde março de 2014. Foto: Vagner Rosario/Futura Press

O doleiro Alberto Youssef, peça central da Operação Lava Jato, afirmou nesta quarta-feira, 21, à Justiça Federal que a empreiteira Odebrecht ‘pagava propinas parte lá fora e parte aqui (no Brasil) em reais’. Youssef depôs como testemunha arrolada pela acusação na ação penal contra a cúpula da maior empreiteira do País. Na audiência, o juiz federal Sérgio Moro pediu ao doleiro que detalhasse o procedimento adotado para receber dinheiro da Odebrecht no exterior.

“Eu indicava as contas de alguns doleiros, eles faziam os pagamentos, eu retirava os reais aqui no Brasil”, relatou Youssef.

“O sr. indicava as contas de doleiros lá fora? De quem?”, insistiu o juiz.


“Indiquei do Leonardo Meirelles, da Nelma Kodama, do sr. Carlos Rocha”

“A Odebrecht fazia os depósitos nessas contas?”, indagou Moro

“Sim”, afirmou o doleiro.

“Quem lhe repassava os reais aqui?”

“Eu não sei, porque na verdade eles marcavam, dia e horário, sempre ia uma ou duas pessoas entregar esses valores no escritório. Esses valores eram entregues em espécie no meu escritório.”

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“Parte dos valores o sr recebeu diretamente em espécie da Odebrecht, é isso que eu entendi?”, perguntou o juiz.
“Sim, não sei se eram pessoas deles (da Odebrecht) que entregavam. Alguém chegava no escritório e entregava esses valores.”

“O sr. lembra quem fazia essas entregas?”

“Não.”

Ele disse que ‘nunca foi’ à Odebrecht retirar o dinheiro.

O juiz perguntou sobre a Braskem, do Grupo Odebrecht. Moro indagou com qual executivo da Braskem o doleiro teve contato. “Só com Alexandrino Alencar.”

“Tratou diretamente com ele assuntos relativos a esses pagamentos?”

“Tratei com ele esses pagamentos, mas sempre tinha situação de que não era (Alexandrino) que decidia, mas sim o presidente da Braskem.”

O juiz insistiu. “Alexandrino lhe dizia que tinha que obter autorização?”

“Sim, sim.”

“Para esees pagamentos?”

“Para que ocorressem essas doações”, disse o doleiro.”O sr. Alexandrino sempre tratava isso como uma doação, ele nunca tratava isso como uma propina. Nós entendíamos que era propina, (para) a empresa sempre como doação.”
“Mas foi feita doação eleitoral, registrada?”, perguntou o juiz.

“Não.”

Alberto Youssef disse que, assim como valores pagos pela Odebrecht, a Braskem pagava no exterior e, ‘algumas vezes’, ocorreram pagamentos em reais em seu escritório, em São Paulo. “Da mesma maneira como eram pagos pela Odebrecht.”

Indagado sobre como fazia para repassar o dinheiro vivo para integrantes do PP, partido que detinha o controle da Diretoria de Abastecimento da Petrobrás, então dirigida pelo engenheiro Paulo Roberto Costa, o doleiro disse. “Para o Paulo Roberto Costa eu entregava no Rio de Janeiro, muitas vezes ele recebia pessoalmente. Do Partido Progressista eu mandava para Brasília, ou muitas vezes para o Estado e a cidade, casa dos líderes que comandavam o partido.”

O juiz citou diversos contratos de grandes empreendimentos da Petrobrás e questionou valores e como ocorreram os pagamentos de propinas.

Youssef voltou a falar sobre Paulo Roberto Costa, primeiro delator da Operação Lava Jato, que apontou o pagamento de propinas para deputados, senadores, governadores e ex-parlamentares.

Ao abordar um contrato do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj), o doleiro confundiu nomes de políticos do Rio e de Pernambuco. “Foi recebida uma parte, não estou muito lembrado se foi 100% pago pela Odebrecht ou se a UTC pagou parte disso. Eu me lembro desse contrato das utilidades, eu recebi parte da Odebrecht porque na verdade o Paulo Roberto Costa destinou esses recursos, a maioria desses recursos, para que fosse resolvido um problema com o, na época, governador Eduardo Campos, se não me engano. Eduardo Campos não, é o governador do Rio, o vice-governador era o Pezão, não estou lembrado do nome do governador agora, mas era do governo do Rio de Janeiro.”

Depois, sobre o Consórcio da Refinaria do Nordeste, em Pernambuco, ele voltou a mencionar Eduardo Campos, ex-governador do Estado e candidato à Presidência da República morto em acidente aéreo em Santos (SP), em agosto de 2014.”Na verdade, era para ser 45 milhões, teve um acordo entre dr. Paulo Roberto e o Eduardo Campos, na época governador de Pernambuco. Inclusive, houve até uma confusão por conta desses valores e aí nós recebemos só vinte milhões.”

A Odebrecht e a Braskem vem negando envolvimento em irregularidades.