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Operação Lava Jato

Delação da Lava Jato cita Delfim, ministro do milagre econômico

Por Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba, Mateus Coutinho e Julia Affonso

12/03/2016, 03h08

   

Poderoso titular da Fazenda nos anos de chumbo (1967/1974) é mencionado por colaborador na investigação sobre obras da usina de Belo Monte

O economista Delfim Netto, ex-ministro da Fazenda

O economista Delfim Netto, ex-ministro da Fazenda

 

O economista Antonio Delfim Netto teve seu nome citado em delação premiada em poder da força-tarefa da Operação Lava Jato envolvido em um recebimento sob investigação nas obras da Usina Hidrelétrica de Belo Monte.
Pelo menos quatro delatores apontaram propinas de até 10% nas obras, em consórcio de empreiteiras que envolveu a Andrade Gutierrez, Camargo Corrêa, Engevix, entre outras – todas acusadas de corrupção na Petrobrás.

A  força-tarefa da Lava Jato quer saber qual a participação de Delfim Netto, ex-ministro da Fazenda e que foi um dos conselheiros do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O nome do economista, ex-deputado federal e ex-ministro da Fazenda (1967/1974) criador do ‘milagre econômico’ da ditadura militar, foi citado pelo suposto recebimento de valores ainda não explicados no empreendimento de Belo Monte. Um dos principais nomes citado no esquema é o do ex-ministro da Fazenda e Casa Civil Antonio Palocci.

O mais recente delator da Lava Jato é o presidente da Andrade Gutierrez, Otávio Marques de Azevedo. A empreiteira teve papel fundamental nos acertos em Belo Monte, segundo descobriu a Lava Jato.

O ex-presidente da Camargo Corrêa Dalton dos Santos Avancini já havia apontado em delação premiada o nome do irmão do ex-ministro Palocci, Adhemar Palocci, como suposto recebedor de propina na Eletronorte – estatal do setor de energia do governo federal.

Em depoimento, em 14 de março de 2015, o executivo confessou pagamento de propina de R$ 20 milhões da empreiteira nas obras da Usina Hidrelétrica de Belo Monte. O valor teria como destinatário o PMDB e agentes públicos da estatal. “Adhemar Palocci Filho, ‘vulgo Paloccinho’, irmão de Antonio Palocci Filho, teria algum envolvimento com o recebimento das propinas”, contou Avancini.

O delator explicou que Camargo Corrêa, Odebrecht e Andrade Gutierrez entraram no projeto de Belo Monte como construtora e não como titulares da concessão. “Iniciou-se então a negociação para o ingresso dessas três empresas.” Elas teriam que atuar em conjunto com o grupo formado para vencer o leilão de concessão de Belo Monte, que tinha entre elas a OAS e a Queiroz Galvão.

“Esse processo liderado pela Andrade Gutierrez, a qual foi alçada a essa condição pelo próprio governo”, contou o ex-presidente da Camargo Corrêa. Ao todo, eram 10 empresas participantes dessa sociedade para execução das obras, segundo ele.

“Quando do ingresso da Camargo, Odebrecht e Andrade Gutierrez nesse consórcio construtivo, segundo informado por Luiz Camargo Martins, então diretor da área de Energia da Camargo, houve um compromisso de que haveria uma contribuição na ordem de 1% do valor do empreendimento para o PMDB.”

A contribuição seria feita pelas empreiteiras de maneira proporcional a participação de cada uma na obra. “A Camargo detinha cerca de 15% da participação junto a obra o que resultaria em uma ‘contribuição’ na ordem de R$ 20 milhões o que deveria ser pago ao longo do empreendimento”.

Belo Monte. Foto: Sergio Castro/Estadão

Belo Monte. Foto: Sergio Castro/Estadão

O sócio da Engevix Engenharia Gerson de Mello Almada revelou em depoimento à Polícia Federal que o operador de propinas Milton Pascowitch – preso desde maio, em Curitiba, pela Operação Lava Jato – recebeu R$ 2,2 milhões por ter feito “lobby” para contratação da empreiteira nas obras da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Pará.

A Engevix participou do projeto de Belo Monte contratada pelo consórcio vencedor do leilão, realizado em 2010. Ela era sócia da Toyo Setal, formada pela japonesa Toyo Engeneering, representada pelo lobista Julio Gerin Camargo, e pela Setal, do empresário Augusto Mendonça. As empreiteiras são acusadas de cartel e corrupção em obras da Petrobrás e atuaram na montagem eletromecânica da Casa de Força da usina. O contrato foi assinado no início de 2014 por R$ 1,03 milhão.

O leilão para construção e operação de Belo Monte foi realizado em abril de 2010 e as obras fechadas em 2011. Paloccinho foi um dos agentes públicos envolvidos nas negociações. Dois consórcios disputaram o leilão da usina: o vencedor Norte Energia, formado por Chesf, Queiroz Galvão, OAS, Mender Jr enre outras, e o derrotado Belo Monte Energia, que tinha como sócios as estatais Furnas e Eletrosul, e a empreiteira Andrade Gutierrez.

O Consórcio Norte Energia é liderado pela Eletronorte. O Tribunal de Conta da União atua na fiscalização das obras, tendo considerado o “volume de recursos investidos em Belo Monte, que possui em seu capital social parcela superior a 75% de recursos de origem pública, sua importância para o setor elétrico, o percentual de 65% de avanço físico da obra, e o número de empresas denunciadas na Operação Lava-Jato, envolvidas em sua construção”.

Com as obras em andamento, no Rio Xingu, próximo do município de Altamira (PA), Belo Monte será a terceira maior hidrelétrica do mundo. A conclusão das obras é prevista para janeiro de 2019. Investimento total estimado em R$ 28,9 bilhões.

COM A PALAVRA, O EX-MINISTRO ANTÔNIO DELFIM NETTO

“Antes do leilão (de Belo Monte) só existia um concorrente. Ajudei a montar o segundo grupo para competir com o primeiro. Prestei uma assessoria. O segundo grupo era formado por empresas menores que não estavam no grupo anterior. Era uma montagem (do segundo grupo) para que houvesse concorrência.

Depois ficou visível que isso não ia acontecer. A Eletrobrás tomou conta do processo. Isso aconteceu entre 2011 e 2012. Então eu me retirei normalmente. Terminou, não ia ter concorrência. Ia ter uma escolha direta.

Eu não recebi nada. O que eu recebi foi por essa assessoria. Nunca recebi nada por conta de Belo Monte. Foi uma vida muito efêmera. Eu nunca recebi absolutamente nada.”

COM A PALAVRA, O CRIMINALISTA RICARDO TOLEDO
O criminalista Ricardo Toledo, que representa o engenheiro Ademar Palocci, o Palocinho, irmão do ex-ministro da Fazenda no governo Lula, afirmou no ano passado que seu cliente é funcionário de carreira, engenheiro eletricista, funcionário concursado que não ocupa cargo de confiança. Ele disse que a citação pelos executivos da Camargo Corrêa é uma “referência indireta, uma referência especulativa, com uso do condicional, atribuindo-se a informação a terceira pessoa”. “Enfim, fica tudo na base do talvez, do quem sabe. Trata-se de uma mera elucubração.”

COM A PALAVRA, O CRIMINALISTA JOSÉ ROBERTO BATOCHIO
O advogado José Roberto Batochio disse na ocasião que o depoimento de Dalton Avancini “demonstra, mais uma vez, que Antônio Palocci não tem nenhuma ligação com qualquer uma dessas empresas que estão sendo investigadas”.

“Mais um delator (Avancini) que é duramente inquirido sobre Antônio Palocci, mais uma vez fica demonstrado que Antônio Palocci nada tem com todas essas denúncias”, declarou Batochio.

O criminalista reafirmou que Antônio Palocci jamais solicitou “de quem quer que seja” dinheiro para a campanha da presidente Dilma Roussef, em 2010.

COM A PALAVRA, O CONSÓRCIO BELO MONTE
O Consórcio Construtor Belo Monte não tem conhecimento de que seja objeto de citações de quaisquer dos investigados pela Operação Lava Jato, e refuta com veemência ilações irresponsáveis em relação às nossas ações.

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