Delegado que defendeu prisão de ‘Temer, Alckmin, Aécio, etc’ exerceu pensamento livre, diz entidade de classe

Delegado que defendeu prisão de ‘Temer, Alckmin, Aécio, etc’ exerceu pensamento livre, diz entidade de classe

Em nota pública, Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal defende Milton Fornazari Júnior e pede que seja revista a determinação de procedimento administrativo-disciplinar

Luiz Vassallo

11 Abril 2018 | 05h22

Delegado de Polícia Federal Milton Fornazari Junior. Foto: Sabrina Vasconcelos

A principal entidade de classe dos delegados de Polícia Federal, ADPF, saiu em defesa do delegado Milton Fornazari Júnior que postou em seu Face, na noite de sábado, 7, logo após a prisão de Lula, mensagem em que defende prisão para ‘Temer, Alckmin, Aécio, etc’.

Em nota pública, subscrita por seu presidente, Edvandir Felix de Paiva, a Associação Nacional dos Delegados da PF afirma que Fornazari – lotado na Delegacia de Combate à Corrupção e aos Crimes Financeiros (Delecor), braço da PF em São Paulo – ‘ao exercer o direito fundamental de manifestar pensamento livremente, o fez por meio de perfil pessoal, não por meio de página oficial da Polícia Federal, documento interno, ou mesmo entrevista em nome do órgão’.

A associação argumenta que,’ao se extrair o sentido da postagem, nota-se claramente a defesa de que a persecução penal no Brasil seja republicana, impessoal e principalmente justa’.

“Exatamente o que determinam princípios constitucionais como os da legalidade, isonomia, moralidade e impessoalidade, que se coadunam com a missão institucional da Polícia Federal”, diz o texto.

Fornazari postou seu recado na noite de sábado, 7, pouco depois que o ex-presidente Lula decolou rumo a Curitiba, terra da Lava Jato, para cumprir a pena de 12 anos e um mês de reclusão no processo do famoso triplex do Guarujá.

“Lula preso. Objetivamente recebeu bens, valores, favores e doações para seu partido indevidamente por empresas que se beneficiaram da corrupção em seu governo”, cravou o delegado, um especialista em cooperação jurídica internacional e no combate à corrupção. “Por isso merece a prisão.”
Ele emendou. “Agora é hora de serem investigados, processados e presos os outros líderes de viés ideológico diverso, que se beneficiaram dos mesmos esquemas ilícitos que sempre existiram no Brasil (Temer, Alckmin, Aécio etc)’.
A cúpula da PF reagiu, na segunda-feira, 9, e anunciou ‘medidas administrativo-disciplinares’ para apurar a conduta de Fornazari.

Para a Associação dos Delegados a Corregedoria da Polícia Federal deve atentar ‘para a premissa absolutamente verdadeira de que, desde que fale em nome próprio, não revele fatos sigilosos ou não atrapalhe o trabalho investigativo, um delegado de Polícia Federal é antes de mais nada um cidadão que tem o direito de se manifestar, de forma pessoal, sobre qualquer tema, sem que para isso haja qualquer tipo de censura administrativa’.

COM A PALAVRA, ADPF
“Em relação à matéria ‘Delegado da PF diz no Face que é hora de serem presos os outros líderes, Temer, Alckmin, Aécio, etc’, publicada no jornal O Estado de S. Paulo na segunda-feira, 9, e os desdobramentos acerca da postagem do delegado de Polícia Federal Milton Fornazari Júnior em perfil pessoal de mídia social, a Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal (ADPF) recebe com estranheza a notícia de que a Polícia Federal adotará medidas administrativo-disciplinares.”

“O cidadão Milton Fornazari Júnior, ao exercer o direito fundamental de manifestar pensamento livremente, o fez por meio de perfil pessoal, não por meio de página oficial da Polícia Federal, documento interno, ou mesmo entrevista em nome do órgão. Além disso, ao se extrair o sentido da postagem, nota-se claramente a defesa de que a persecução penal no Brasil seja republicana, impessoal e principalmente justa. Exatamente o que determinam princípios constitucionais como os da legalidade, isonomia, moralidade e impessoalidade, que se coadunam com a missão institucional da Polícia Federal.”

“A ADPF espera que a notícia de instauração de processo disciplinar anunciada pela Polícia Federal seja revista e que a Corregedoria atente para a premissa absolutamente verdadeira de que, desde que fale em nome próprio, não revele fatos sigilosos ou não atrapalhe o trabalho investigativo, um delegado de Polícia Federal é antes de mais nada um cidadão que tem o direito de se manifestar, de forma pessoal, sobre qualquer tema, sem que para isso haja qualquer tipo de censura administrativa.”

_Edvandir Felix de Paiva, presidente da Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal (ADPF)