Delator entrega notas fiscais usadas em propina do PMDB

Julio Camargo disse que usou empresas de fachada suas e de doleiro para repassar dinheiro para Fernando Baiano

Redação

19 Fevereiro 2015 | 17h22

Por Julia Affonso e Ricardo Brandt

O executivo Julio Camargo, delator da Operação Lava Jato, entregou ao Ministério Público Federal duas notas fiscais usadas para ‘cobrir’ movimentação de dinheiro de propina no exterior que teria sido destinada ao empresário Fernando Soares, o ‘Fernando Baiano’ – apontado como operador do PMDB nos desvios de contratos de obras da Petrobrás. Os documentos foram juntados na quarta-feira, 18, aos autos da ação penal que corre na Justiça Federal, no Paraná, contra Fernando Baiano e o ex-diretor da área Internacional da estatal Nestor Cerveró.

Extratos do banco Merryll Lynch indicam a movimentação de US$ 2.715.972 milhões de duas empresas de Julio Camargo, entre os meses de outubro e novembro de 2010, para uma conta da Devonshire Global Fund, de titularidade do doleiro Alberto Youssef, personagem central da Lava Jato. Os valores foram usados como ’empréstimos’ em favor da Devonshire para que Youssef pagasse propina devida pelo executivo para o suposto operador do PMDB na diretoria Internacional.

Fernando Baiano está preso na carceragem da Polícia Federal, em Curitiba, base da Operação Lava Jato, desde o fim do ano passado. Na delação premiada que fez, Camargo explicou que Fernando Baiano pediu propina de US$ 25 milhões para a compra de uma segunda sonda para a Petrobrás, que seria instalada no Golfo do México. Pela compra da primeira sonda, instalada na África, Fernando Baiano havia levado, segundo o executivo, uma propina de US$ 15 milhões.

Fernando Baiano faz exame de corpo de delito em Curitiba, na época de sua prisão, em novembro de 2014. Foto: Geraldo Bubniak/AGB

Extratos entregues à Justiça seriam de propina destinada a Fernando Baiano (na foto, de azul). Foto: Geraldo Bubniak/AGB. Foto: novembro de 2014

 

Camargo contou que a Samsung, de quem a Petrobrás havia comprado as sondas, suspendeu uma parte do pagamento e ele ficou sem dinheiro para repassar a propina a Baiano. Ele afirmou que tentou explicar a situação ao operador, e ele lhe deu 6 meses para efetuar o pagamento.

“Alberto Youssef sugeriu ao declarante (Julio Camargo) que fizesse aportes na GFD Investimentos, alegando que precisava de recursos em tal empresa de origem conhecida, para terminar empreendimento hoteleiros”, contou Camargo.

Segundo ele, foram feitos contratos simulados de investimentos entre 3 empresas de sua propriedade e a GFD. A Piemonte teria transferido R$ 8,73 milhão, a Treviso, R$ 1,85 milhão e a Auguri, R$ 1,15 milhão.

“Não sabe dizer como Alberto Youssef, na sequência, pagou estes valores a Fernando Soares, se no Brasil ou no exterior, mas Soares não reclamou ao declarante, de maneira que certamente o acerto foi feito”, disse Camargo. “Para completar o pagamento de seu saldo com Fernando Soares, que era na época de aproximadamente US$ 8 milhões, efetuou pagamentos a empresas indicadas por ele no Brasil.”

O PMDB nega envolvimento em práticas ilícitas.