À Justiça, delator relata propina de R$ 15 mi para Duque e Costa

Executivo explicou que repasses eram feitos por meio de contas de suas empresas para o exterior; quantia foi referente a obra da Refinaria Henrique Lange, em São José dos Campos (SP)

Redação

04 Fevereiro 2015 | 21h32

Por Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba, Mateus Coutinho e Fausto Macedo

O delator Júlio Gerin Camargo afirmou nesta quarta-feira, 4, que como representante do consórcio Ecovap, formado pelas empreiteiras OAS, SOG Óleo e Gás e Toyo Engeneering pagou R$ 15 milhões em propina para os ex-diretores da Petrobrás Renato Duque (Serviços) e Paulo Roberto Costa (Abastecimento). Os valores teriam sido remetidos ao exterior, por meio de transferência oficiais dentro do sistema de controle do Banco Central, por meio de suas três empresas de consultoria.

“Nesse (contrato do consórcio Ecovap) foram R$ 15 milhões em duas áreas, Engenharia metade e outra metade para Abastecimento”, afirmou Camargo, em depoimento à Justiça Federal na ação penal em que executivos da OAS são réus. O consórcio foi formado para execução de obras na Refinaria Henrique Lange, em São José dos Campos (SP), a partir de 2007 por R$ 1,5 bilhão.

“(Na Diretoria de) Abastecimento iria para o doutor Paulo Roberto e (na Diretoria de) Engenharia Renato Duque.”

VEJA O DEPOIMENTO DE JÚLIO CAMARGO QUE CITA A PROPINA:

Questionado pelos procuradores da força-tarefa da Lava Jato, o delator afirmou que a “maioria (do dinheiro) foi para o exterior”. “Quando era solicitada alguma coisa em reais, eu fazia depósito no exterior e o Alberto (Youssef) depositava em reais no Brasil”, explicou ele. As suas empresas de consultoria – Treviso, Auguri e Piemonte – eram usadas para fazer o envio da propina.

“Essas empresas remetiam oficialmente pelo Banco Central, através dos lucros auferidos pelas receitas frutos do faturamento do consórcio, com impostos pagos”, explicou ele. Questionado pelo juiz federal Sérgio Moro, Camargo afirmou ter pago propina para os ex-diretores em seis contratos da estatal.

O delator apontou ainda o doleiro Alberto Youssef como operador oficial dos recebimentos de propina na Diretoria de Abastecimento, por indicação do ex-deputado José Janene – morto em 2010 -, ex-líder do PP e pivô do escândalo Petrobrás.

OAS. A empreitara OAS tem seis executivos denunciados na Lava Jato, entre eles o presidente José Aldemário Pinheiro, o Léo Pinheiro. A empreiteira e seus executivos negam irregularidades e pagamentos de propina. Parte dos acusados no processo estão presos desde o dia 14 de novembro de 2014.

Na denúncia, os executivos da OAS, Youssef e seus operadores e o ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás Paulo Roberto Costa são acusados por terem praticado 20 atos de corrupção e 14 de lavagem de dinheiro. A empreiteira é acusada pelo MPF de ter pago um total de R$ 29 milhões em propina para corromper Costa e o diretor de Serviços Renato Duque, indicado para o cargo pelo PT.

Só pelos contratos da OAS com a Diretoria de Abastecimento da Petrobrás, entre 2004 e 2012, o Ministério Público Federal almeja o ressarcimento de R$ 213 milhões, referente aos 3% que eram desviados dos contratos.

Duque. Na semana passada, o Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, recomendou a prisão de Renato Duque em parecer encaminhado no habeas corpus do ex-diretor que está sendo julgado no Supremo Tribunal Federal. No documento, Janot afirmou que o ex-diretor “possui inúmeras possibilidades, notadamente financeiras a partir de dezenas de milhões de reais angariados por práticas criminosas, de se evadir por inúmeros meios e sem mínimo controle seguro, especialmente se consideradas as continentais e incontroladas fronteiras brasileiras”.

Para Janot, “não se trata de imaginar situações abstratas, imaginárias, mas de considerar que, em situações similares, muitos réus e investigados e em condições não tanto privilegiadas quanto o paciente (Duque)já se evadiram do País”. O caso ainda vai ser julgado pelo STF.