Delator da Lava Jato diz que ‘outros diretores’ receberam propina na compra de Pasadena

Paulo Roberto Costa disse à Justiça Federal: 'Por que só eu receberia?'

Redação

13 Fevereiro 2015 | 16h43

Por Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba, Julia Affonso e Fausto Macedo

O ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás Paulo Roberto Costa, delator da Operação Lava Jato, afirmou nesta sexta feira, 13, que não foi o único dirigente da estatal que recebeu propinas para não atrapalhar a compra da Refinaria de Pasadena, nos EUA. Em depoimento à Justiça Federal, Costa disse que US$ 1,5 milhão lhe foi passado pelo lobista Fernando Soares, o Fernando Baiano, apontado com operador do PMDB na estatal petrolífera.

O juiz Sérgio Moro, que conduz todas ações da Lava Jato, perguntou. “Essa aquisição foi pela sua diretoria?” Costa respondeu. “Não, a minha diretoria se restringia a atividades no Brasil. Como a refinaria fica no exterior, (a compra) foi conduzida pela Diretoria Internacional. O Nestor Cerveró era o diretor na ocasião.”

Delator da Lava Jato, Costa foi ouvido na Justiça Federal em Curitiba como testemunha de acusação de dois réus, o ex-diretor de Internacional, Nestor Cerveró, e o lobista Fernando Antônio Falcão Soares, o Fernando Baiano, apontado como operador do PMDB no esquema de corrupção da Petrobrás.

Cerveró é acusado de ter recebido US$ 30 milhões em propinas pela compra de dois navios-sonda, entre 2005 e 2006. Fernando Baiano, por seu lado, é apontado como operador de propinas na diretoria de Cerveró.

O juiz Sérgio Moro quis saber de Paulo Roberto Costa se ele era “o único” que recebia propinas na Petrobrás. O ex-diretor declarou que não. Ele reafirmou todos os termos de sua delação premiada, esmiuçando os porcentuais sobre contratos do cartel para cada área da estatal e para agremiações políticas.

O magistrado perguntou a ele se Fernando Baiano lhe disse se outros diretores também receberam propina por Pasadena. “Ele (Baiano) não falou, mas se eu recebi outros receberam. Por que só eu receberia?” .

Moro perguntou ao delator porque ele recebeu o dinheiro de propina. “Fui procurado no final de 2005 pelo Fernando Soares (Fernando Baiano), ele me falou que era importante que essa refinaria fosse adquirida. Se foi um bom negócio naquele momento ou não, na minha visão como técnico, independente de qualquer desvio de dinheiro, no momento foi um bom negócio para a Petrobrás. Ele falou: ‘Paulo, é bom que seja aprovado, se você não criar nenhum problema aí no colegiado você recebe 1,5 milhão'”.

De dólares ou reais?, questionou o juiz. “De dólares”, respondeu Costa.

Ele afirmou também que não era o único dirigente da estatal que recebia “vantagens indevidas” do cartel de empreiteiras que se instalou na Petrobrás. Costa apontou o ex-diretor de Serviços da Petrobrás, Renato Duque, como beneficiário de valores. “Recebia.”

O ex-diretor afirmou que 2% sobre o valor dos contratos de sua área eram desviados para a o PT, via Diretoria de Serviços da estatal. O partido, segundo ele, captava 3% de outras diretorias. Renato Duque, por meio de sua defesa, tem reiterado que jamais recebeu propinas.

 

Costa reiterou que 2% sobre os contratos do cartel eram destinados ao PT. Segundo Costa, 1% era destinado para a sua diretoria, Abastecimento. Desse 1%, um total de 60% ia para o PP, partido que o indicou para o cargo.

Questionado pelo juiz, se os encontros com Fernando Soares ‘se davam, sempre nesse contexto de pagamento de vantagem indevida, a propina’, Costa foi taxativo: ‘sim’.

“O senhor teve alguma discussão técnica sobre contratos da Petrobrás, com o senhor Fernando Soares ou questões relativas à Engenharia ou coisa que o valha?”, questionou o magistrado. “Não”, explicou o ex-diretor.”Era sempre propina?”, questionou, então, Moro.”Sim, ou divisão de futuros projetos que poderiam ser feitos’, explicou o delator. Costa afirmou que algumas vezes “ele mencionou a empresa que ele representava, se tinha alguma atividade que a Petrobrás, se poderia usar a empresa espanhola, mas na minha área nunca chegamos a viabilizar’.

O ex-diretor apontou na audiência que os lobistas Fernando Baiano e Júlio Camargo eram operadores de propina e que “nunca tratou questões técnicas com os mesmos”. O delator afirmou ainda que teve “vários” contatos com o lobista Júlio Camargo, um dos réus do processo, e que em apenas um caso não chegou a falar em comissões, pelo negócio ter sido interrompido.

Segundo a denúncia, Fernando Baiano e Julio Camargo, via Cerveró, operaram dois pagamentos de US$ 20 milhões e US$ 33 milhões para que a empresa vencesse os contratos de construção de dois navios-sonda. Questionado pelo juiz se com Camargo os encontros eram sempre para tratar de propina, Costa respondeu. “Era, e do processo de cartelização. Sim.”

O magistrado perguntou então se nos contatos que teve com Julio Camargo se ele “teve alguma interação técnica” e que “não dizia respeito a vantagem indevida e propina. “É, nos (contatos) que eu tive contato com ele foi relativo à Toyo Setal, que era do cartel. A resposta é sim.”

 

 

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