Delator confirma propina em diretoria controlada pelo PMDB

Lobista Hamylton Padilha, que representava empresas internacionais de petróleo no Brasil, diz a juiz da Lava Jato que foi cobrado para que negócio de navio-sonda tivesse sucesso

FAUSTO MACEDO, JULIA AFFONSO, MATEUS COUTINHO E RICARDO BRANDT

31 Outubro 2015 | 15h27

O ex-diretor de Internacional da Petrobrás Jorge Zelada, que está preso pela Lava Jato. Foto: Dida Sampaio/Estadão

O ex-diretor de Internacional da Petrobrás Jorge Zelada, que está preso pela Lava Jato. Foto: Dida Sampaio/Estadão

O lobista Hamylton Padilha, que representava empresa multinacionais do setor de petróleo, afirmou ao juiz federal Sérgio Moro que pagou propina para o ex-diretor de Internacional da Petrobrás Jorge Zelada por contrato de construção de navio-sonda. A área era cota do PMDB no esquema de cartel e corrupção na estatal, acusa a força-tarefa do Ministério Público Federal. Delator da Operação Lava Jato desde julho, ele confirmou que o operador de propinas do partido João Augusto Henriques e outro lobista, Raul Schmidt, eram os intermediários das propinas paga aos agentes públicos e políticos.

“Ele (Schmidt) disse que para que prosseguisse as negociações para a contratação dessa unidade e a possibilidade de sucesso, que ele não garantia, mas achava que era possível, a condição necessária era que houvesse o pagamento de vantagens, ou propinas para membros da diretoria de Internacional da Petrobrás”, contou Padilha.

O lobista foi ouvido nesta sexta-feira, 31, por Moro – juiz dos processos da Operação Lava Jato, em Curitiba – em ação penal em que é réu junto com Zelada, o ex-gerente da estatal Eduardo Musa e o operador de propinas do PMDB João Augusto Henriques. O magistrado quis saber como foi esse encontro.

“Ele me ligou e depois encontrou comigo pessoalmente”, acrescentou o delator. Me lembro de uma vez ter estado com ele na casa dele em São Conrado.”

“Ele me procurou e me disse claramente que para prosseguir os negócios nas tratativa na área Internacional, para aquela transação prosseguir não somente nas negociações como chegar a um potencial acordo na Petrobrás seria necessário o pagamento de propinas”, disse Padilha.

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O delator relatou como foi feito o pagamento de US$ 10 milhões para agentes públicos e políticos na Diretoria Internacional, em 2008, por um contrato para construção do navio-sonda, para exploração de petróleo na África, Titanium Explorer.

“Nesse momento me contatou Raul Schmidt, que eu não via a muito tempo, eu acho que ele estava morando na época em Londres, ele era ex-funcionário da Petrobrás que tinha saído e sido representante de várias empresas do setor de petróleo e eu o conheci nessa época, como concorrente”, explicou Padilha, citando o nome de outro lobista.

Padilha é engenheiro e fechou no final de julho acordo de delação com a Lava Jato. Ele pagará multa no valor de R$ 70 milhões, valor que deverá ser destinado aos cofres da Petrobrás. Em seus termos, ele revelou os bastidores da propina acertada que chegou a US$ 31 milhões.

Zelada está preso em 2 de julho pela Conexão Mônaco, 15.º capítulo da Lava Jato, sob acusação de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Zelada teria depositado em Mônaco 20 milhões de euros.
Padilha relatou pagamento de propina na contratação do Titanium Explorer, feita entre a Petrobrás e uma empresa estrangeira, representada por ele, a Vantage Drilling Corp.

O negócio envolveu ainda um executivo asiático, dono do navio-sonda. “Quando ele me perguntou sobre o pagamentos dos agentes públicos no Brasil, eu falei para ele que esse assunto não seria tratado por mim, mas sim por um intermediário ou representante dos agentes públicos.”

Moro quis saber quem seria esse intermediário. “João Augusto Henriques”, o operador do PMDB. “Quando o senhor Raul Schmidt me procurou e nós tivemos essa primeira conversa, ele me apresentou o senhor João Augusto Henriques.”

Padilha diz que Schmidt apresentou Henriques como um ex-funcionário da Petrobrás, aposentado, com “contatos diretamente com a Diretoria Internacional naquela época representada pelo senhor Jorge Zelada”.

O delator conta que foi ele quem aproximou o empresário Nobu Su, acionista da empresa Vantage – dona da sonta – para Henriques, o operador do PMDB. Os três teriam realizado uma reunião no Hotel Copacabana Palace, no Rio.

Nessa reunião, João Augusto e Nobu Su teriam tratado dos acertos de pagamentos de propinas. Padilha citou a empresa Valencia Drilling, ligada a Nobu Su, como firma usada para pagamentos das comissões para Henriques e para ele próprio, referentes ao contrato do navio-sonda Titanium Explorer.

A propina inicial seria de US$ 15 milhões, mas ele diz ter recebido US$ 10 milhões – metade disso, ele diz ter pago o lobista Raul Schmidt. O MPF aponta que valores desse contrato foram canalizado para o PMDB via João Henriques.