Delator confessa entrega de R$ 3 milhões em dinheiro vivo da CAOA a amigo de Pimentel

Delator confessa entrega de R$ 3 milhões em dinheiro vivo da CAOA a amigo de Pimentel

O contador Roberto Trombeta que abria offshores para a montadora disse em depoimento à Lava Jato ter visto o governador de Minas em encontro em que foi acertada a 'contribuição' repassada ao empresário Benedito Olivera, o Bené, preso na Operação Acrônimo

Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba, Fausto Macedo, Julia Affonso e Mateus Coutinho

01 Junho 2016 | 17h30

O governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel (PT), denunciado na Operação Acrônimo. Foto: Dida Sampaio/Estadão

O governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel (PT), denunciado na Operação Acrônimo. Foto: Dida Sampaio/Estadão

Delator da Operação Lava Jato, o contador Roberto Trombeta afirmou aos procuradores da República que o governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel (PT), estava na residência do dono do Grupo CAOA, numa reunião, em agosto de 2014, em que lhe foi solicitado a participação no repasse de R$ 3 milhões, em dinheiro vivo, para o empresário Benedito Rodrigues de Oliveira Neto, dono da Gráfica Brasil.

“Chamou a atenção do declarante Roberto Trombeta haver avistado no interior daquela residência a pessoa de Fernando Pimentel, então candidato ao Governo de Minas Gerais, não mantendo contato com o mesmo além do visual”, contou Trombeta aos procuradores da República, em Curitiba, nos autos da Lava Jato.

Bené, como é conhecido o amigo de Pimentel, está preso desde abril, como operador de propinas do petista. Os dois foram denunciados na Operação Acrônimo pelo recebimento de valores ilícitos do Grupo CAOA. Foram identificados o repasse de R$ 2 milhões para empresas de Bené, que teriam o governador e sua campanha como beneficiários – valor esse também citado por Trombeta como um “repasse oficial”.


DELAÇÃO TROMBETA PIMENTEL

Os R$ 3 milhões, que não teriam chegado a ser repassados integralmente, foram dados em dinheiro vivo na sede da CAOA, em Brasília, entre agosto e setembro de 2014, durante a campanha de governador – que tinha Bené como integrante. Sob risco de perder os benefícios de sua delação premiada na Lava Jato, como operador de propinas das empreiteiras OAS e UTC, Trombeta confessou em depoimento prestado no dia 29 de maio ter cuidado das offshores do Grupo CAOA, abertas para movimentar contas em outros países, e confirmou os repasses em Minas.

Repasse. Trombeta narrou três encontros com Bené e executivos da CAOA, entre julho e agosto de 2014, para tratar do repasse dos R$ 3 milhões ao amigo de Pimentel. Detalhou ainda as datas e as circunstâncias de entregas das notas na sede da empresa.

“Em reunião na casa do controlador do Grupo CAOA, Dr. Carlos Alberto Oliveira Andrade, convocada pelo presidente Sr. Maciel Neto, soube o declarante Roberto que a CAOA pagaria, diretamente ao senhor Benedito Rodrigues de Oliveira, a importância de R$ 3 milhões em dinheiro”, afirmou Trombeta. O encontro teria ocorrido em agosto de 2014. “Este pagamentos seriam feitos semanalmente na sede do Grupo CAOA.”

O primeiro encontro narrado pelo novo delator teria ocorrido em julho. “O declarante Roberto Trombeta foi chamado para uma reunião a pedido do presidente do Grupo Caoa, sr. Antonio Maciel Neto. Nesta reunião foi apresentado a Benedito Oliveira.” O delator diz que o executivo da CAOA “solicitou ajuda” para uma “demanda que posteriormente lhe seria explicada”.

O segundo encontro teria ocorrido em 6 de agosto no escritório de contabilidade de Trombeta, em São Paulo. “(Bené) pediu ajuda para que pudessem indicar alguém para fazer pagamentos à terceiros em seu nome”, relatou o delator.

DELAÇÃO TROMBETA 3 MI CAOA BENE

“Benedito não informou a razão destes pagamentos mas pelo que deixou transparecer, se tratada de compromissos políticos.”
Foi após esse encontro, que Trombeta diz ter ocorrido a reunião na casa do controlador da CAOA, em que ele diz ter visto Fernando Pimentel. O delator conta que por motivo de sigilo na empresa”, ele e seu sócio Rodrigo Morales foram incumbidos de destacar um funcionário de seu escritório de contabilidade para “retirar certa ‘encomenda’ no departamento financeiro e que a entregasse ao representante” indicado por Bené.

Os valores teriam sido repassados para um emissário de Bené, que ia na sede da CAOA, e pegava o dinheiro das mãos de um funcionário do escritório de Trombeta – que se ao local com essa única função.

“O funcionário dos declarantes foi ao departamento financeiro da empresa e procedeu da mesma maneira, recebendo envelope lacrado com a inscrição R$ 500 mil.” O primeiro repasse foi no dia 22 de agosto, quando Trombeta recebeu mensagem no celular enviada por Bené. “Pretendia Benedito Rodrigues comunicar que seu portador já estava na recepção da empresa CAOA.”

DELAÇÃO TROMBETA ENTREGA ENVELOPES 500 MIL

Foram repassados R$ 2 milhões, dos R$ 3 milhões acertados na reunião. Segundo Trombeta foram quatro repasses nos dias 22 de agosto, 5, 19 e 25 de setembro. “O restante do valor acordado entre o presidente do Grupo CAOA Sr. Antonio Maciel Neto e o Sr. Benedito Oliveira não foram pagos em razão da prisão do Sr Bendito no dia 7 de outubro.”

Em outubro de 2014, Bené seria detido com R$ 116 mil em dinheiro vivo chegando no aeroporto de Brasília, em um jatinho particular. Ele acabou sendo liberado.

Acrônimo. O delator da Lava Jato confirmou os repasses que a CAOA fez – R$ 2,2 milhões, segundo ele – para Bené “de forma oficial”. A CAOA e seus executivos são alvos da Operação Acrônimo e chegaram a ser investigados na Operação Zelotes por pagamentos suspeitos em troca de benefícios no governo federal.

“Acredita que os valores primeiro mencionados (R$ 3 milhões) fora repassados a título de contribuição político, ao menos foi o que se deixou transparecer, vez que os representantes do Grupo CAOA não foram enfáticos, apenas falaram ‘é uma contribuição’.” As revelações de Trombeta na Lava Jato, como operador de repasses ilícitos da CAOA, vão ser compartilhadas com a Acrônimo.

DELAÇÃO TROMBETA CONTRIBUIÇÕES POLÍTICAS

 

Trombeta e o sócio Morales corriam o risco de perder os benefícios da delação premiada homologada pelo juiz federal Sérgio Moro, no ano passado. Os procuradores da força-tarefa em Curitiba alegaram haver indícios de não cumprimento do acordo, com ocultação de informações e não cumprimento dos pagamentos de multas. A entrega de documentos, pagamentos de valores devidos afastaram o risco.

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Um dos pontos que pesou no pedido de quebra de delação foi a descoberta, no início do ano, de que Trombeta operava pelo menos outras oito offshores não declaradas no acordo com a Lava jato – fato descoberto após as publicações do Panama Pappers, sobre empresas usadas para lavagem de dinheiro abertas pela panamenha Mossack Fonseca.

Bené já confessou que atuou em nome de Pimentel em delação premiada, no processo da Operação Acrônimo. Segundo ele, o Grupo Caoa teria feito ao todo o repasse de R$ 20 milhões para o governador, entre 2013 e 2014. Pelo menos R$ 7 milhões teria ido para contas no exterior do petista e o restante abastecido campanhas.

O criminalista Antonio Figueiredo Basto, que defende Trombeta e seu sócio Morales, disse que não comentaria o caso.

COM A PALAVRA, A DEFESA DO GOVERNADOR DE MINAS GERAIS, FERNANDO PIMENTEL

Nota ao Estadão

É fundamental registrar, antes de qualquer observação, que o referido Sr. Roberto Trombeta é acusado pelo Ministério Público Federal de mentir e ocultar documentos prometidos por ele na negociação do acordo de delação premiada no âmbito da assim chamada Operação Lava Jato. Por esta razão, a delação pode ser anulada.

Como a defesa de Fernando Pimentel, que não é investigado na referida operação, desconhece por completo os assuntos narrados, só pode se basear nas informações repassadas pela reportagem, que não deixa sombra de dúvida: nada do que foi relatado liga Pimentel a essas supostas tratativas.

Nada a não ser a palavra de alguém que é acusado de mentir em sua delação. Nada além de “ter avistado” alguém que poderia, em sua avaliação, ser Fernando Pimentel em um desses supostos encontros.

Confiamos que os princípios éticos da profissão impedirão veículos respeitados de comunicação de comprometer a sua credibilidade dando respaldo a uma flagrante leviandade.

Advogado
Eugênio Pacelli

COM A PALAVRA, O GRUPO CAOA

“A CAOA desconhece a existência e eventual conteúdo das delações premiadas de Roberto Trombeta e seu sócio Rodrigo Morales que lhe faça qualquer menção, sendo curioso que tal suposta informação, coberta por sigilo legal, venha parcialmente ao conhecimento público, sem possibilidade prévia da empresa saber e contrapor os seus termos.

Não obstante é importante frisar que a CAOA sempre desenvolveu suas atividades com recursos de origem lícita e privada, dentro e fora do Brasil e, ademais, desconhece os negócios e as empresas de Trombeta e Morales no exterior, as quais não fazem ou fizeram parte dos negócios da CAOA.

A CAOA repele com veemência qualquer irregularidade e reafirma que jamais contratou ou pagou, no Brasil ou no exterior, qualquer pessoa ou empresa para angariar vantagens junto a qualquer agente ou órgão público.”

Assessoria de Imprensa CAOA”

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