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Cui Bono? rastreia mais de quatro anos de e-mails de Geddel

Cui Bono? rastreia mais de quatro anos de e-mails de Geddel

Justiça Federal acolheu pedido da Procuradoria e da PF e autorizou análise de correspondências de ex-ministro do Governo Temer no período de 1.º de abril de 2011 a 31 de dezembro de 2015 quando ele estava na Caixa Econômica Federal

Julia Affonso e Fausto Macedo

17 Janeiro 2017 | 05h00

Geddel Vieira Lima. Foto: Dida Sampaio/Estadão

Geddel Vieira Lima. Foto: Dida Sampaio/Estadão

A Operação Cui Bono? (a quem interessa?) vai analisar mais de quatro anos de e-mails institucionais enviados e recebidos por Geddel Vieira Lima no período em que foi vice-presidente de Assuntos Jurídicos da Caixa Econômica Federal. A investigação sobre fraudes na liberação de crédito do banco busca identificar mensagens trocadas no período de 1.º de abril de 2011 a 31 de dezembro de 2015.

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Geddel foi ministro da Secretaria de Governo de Michel Temer (PMDB). Aliado muito próximo do presidente, Geddel caiu da cadeira da Secretaria de Governo em 25 de novembro, em meio ao escândalo protagonizado pelo ex-ministro da Cultura Marcelo Calero, que o acusou de pressioná-lo para que o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) autorizasse a construção de um residencial de alto padrão em uma área nobre tombada em Salvador. Geddel tem uma unidade no empreendimento.

Ao pedir autorização para buscas da Cui Bono?, a Polícia Federal e o Ministério Público Federal solicitaram entrada na vice-presidência de Tecnologia da Informação da Caixa para capturar e-mails institucionais. A operação foi deflagrada na sexta 13.

“Tendo em vista que pelos diálogos muitas conversas e informações foram repassadas por meio de e-mails, entendemos como importante à investigação, a realização de diligência junto à vice-presidência de Tecnologia da Informação da Caixa Econômica Federal a fim de obter as mensagens armazenadas nas contas de correspondências eletrônicas institucionais utilizadas por Geddel Quadros Vieira Lima, Fabio Ferreira Cleto, Marcos Roberto Vasconcelos, Deusdina dos Reis Pereira, Giovanni Carvalho Alves e José Henrique Marques da Cruz, no período compreendido entre 1.º de abril de 2011 e 31 de dezembro de 2015, quando Geddel Quadros Vieira Lima e Fabio Ferreira Cleto ocuparam os importantes cargos de vice-presidente da Caixa Econômica Federal”, anotam a PF e a Procuradoria da República.

As buscas da Cui Bono? abrangeram também a vice-presidência de Pessoa Jurídica da Caixa. Para a Federal e o Ministério Público, a entrada dos investigadores era necessária para buscar ‘informações e cópias de processos de obtenção de créditos das empresas aqui mencionadas junto a Caixa Econômica Federal, a saber, BR Vias, Oeste Sul, Comporte Participações S.A, Marfrig, J&F Investimentos, Grupo Bertin (Contern), JBS, Big Frango, Digibrás, Inepar e Prefeitura Municipal de Barra Mansa’.

Em pedido complementar à PF, a Procuradoria da República solicitou ao juiz Vallisney de Souza Oliveira, da 10.ª Vara Criminal Federal, ainda buscas nas dependências da vice-presidência de Gestão de Ativos de Terceiros da Caixa.

O Ministério Público Federal pediu ‘acesso às mensagens armazenadas nas contas de correspondências eletrônicas institucionais (e-mails corporativos) utilizadas pelos funcionários ocupantes de cargos comissionados vinculados à vice-presidência de Gestão de Ativos de Terceiros da Caixa Econômica Federal (VITER/CEF), especialmente das contas vinculadas aos ocupantes entre 2009 e 2016’.

Os cargos que a Cui Bono? mira: superintendente nacional de Fundos de Investimentos Especiais, superintendente nacional de Fundos Estruturados, superintendente de Ativos de Terceiros, diretor executivo de Ativos de Terceiros do Comitê de Planejamento e Gestão, gerente nacional de Gestão de Fundos Estruturados e gerentes executivos vinculados à Gerência Nacional de Gestão de Fundos Estruturados.

A Viter era subordinada a Marcos Roberto Vasconcelos, indicado ao cargo pelo PT e exonerado no Governo Temer. O executivo teve um imóvel vasculhado em Maringá, no Paraná.

“Esclarece-se desde já que o acesso às correspondências eletrônicas da VITER/CEF é necessário à presente investigação criminal não porque todos os titulares das contas (que estiveram subordinados ao investigado Marcos Roberto Vasconcelos) estejam na condição própria de investigados, mas sim porque o acesso aos dados e informações de tais agentes poderá contribuir para a elucidação do processo técnico e decisório que embasou os investimentos e financiamentos investigados”, anota o procurador Anselmo Henrique Cordeiro Lopes, que subscreve a representação da Procuradoria da República, no Distrito Federal.

A Cui Bono? é um desdobramento da Operação Catilinárias, deflagrada em 15 de dezembro de 2015. Na ocasião, a PF encontrou um aparelho celular em desuso na residência do então presidente da Câmara do Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ).

O celular foi submetido a perícia e, mediante autorização judicial de acesso aos dados do dispositivo, a Polícia Federal extraiu uma ‘intensa’ troca de mensagens eletrônicas entre o Eduardo Cunha e Geddel, entre 2011 e 2013. As mensagens indicavam a possível obtenção de vantagens indevidas pelos investigados em troca da liberação para grandes empresas de créditos junto à Caixa, o que pode indicar a prática dos crimes de corrupção, quadrilha e lavagem de dinheiro.

COM A PALAVRA, AO ADVOGADO QUE DEFENDE GEDDEL VIEIRA LIMA

Quando a operação foi deflagrada, o advogado Gamil Föppel, que defende Geddel Vieira Lima, afirmou que a ‘malfadada operação’ decorre de ‘ilações e meras suposições não comprovadas’. Em nota, reclamou que a decisão do juiz Vallisney de Souza Oliveira, da 10.ª Vara Federal em Brasília, que autorizou a Operação Cui Bono?, foi apressada e ‘não traz nenhum fundamento idôneo que justificasse’ as medidas.

“Além disso, não há indicação pela polícia ou MPF (Ministério Público Federal) de qualquer fato/elemento concreto que pudesse representar corrupção ou lavagem de dinheiro, até porque tais atos jamais foram praticados por Geddel.”
Föppel chamou o relatório da PF de ‘ficcional’ e ‘repleto de suposições’, Argumentou que o documento não aponta concretamente ‘qualquer valor que tivesse sido recebido por Geddel’.

“Geddel nada recebeu. Informa que está, como sempre esteve, à disposição das autoridades”, afirmou.

COM A PALAVRA, A CAIXA ECONÔMICA FEDERAL

Em relação à Operação da Polícia Federal realizada na sexta-feira (13 de janeiro) e no que diz respeito à CAIXA, esclarecemos que o banco está em contato permanente com as autoridades, prestando irrestrita colaboração com as investigações, procedimento que continuará sendo adotado pela CAIXA.

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