‘Criminosos profissionais’

‘Criminosos profissionais’

Relatório da Polícia Federal afirma que irmãos Joesley e Wesley Batista, acionistas e delatores da JBS, 'possuem perfis voltados à prática reiterada de crimes o que indica que continuarão delinquindo caso permaneçam soltos'

Julia Affonso, Luiz Vassallo e Fausto Macedo

14 Setembro 2017 | 04h35

O empresário Joesley Batista. FOTO: FELIPE RAU/ESTADÃO

No relatório de 84 páginas que embasa a Operação Acerto de Contas – nova etapa da Tendão de Aquiles -, a Polícia Federal traçou um perfil dos empresários Joesley e Wesley Batista, irmãos delatores do Grupo J&F, controlador da JBS. “São criminosos profissionais.”

Nesta quarta-feira, 13, a PF prendeu preventivamente os delatores. Wesley foi capturado em sua casa, na Rua das Antilhas, 181, Jardim América. Joesley já estava recolhido, em regime temporário, em Brasília, em outra fonte de investigação, que atribui a ele violação do acordo de delação premiada firmado com a Procuradoria-Geral da República.

A prisão dos executivos que mergulharam o governo Michel Temer na grande crise política foi ordenada pela Justiça Federal porque eles teriam lucrado fortuna no mercado financeiro por meio do uso de informações privilegiadas de sua própria delação. Especularam na Bolsa e com a moeda americana. Da noite para o dia, alegam os investigadores, eles ganharam quantia equivalente à multa que acertaram com a Procuradoria, R$ 110 milhões para cada um deles.


“Buscavam lucrar utilizando-se da própria torpeza”, afirma o relatório da PF, subscrito por quatro delegados que detêm larga experiência no combate ao crime organizado – Victor Hugo Rodrigues Alves, Melissa Maximino Pastor, Edson Garutti e Karina Murakami Souza.

A PF destaca o envolvimento do ex-procurador da República Marcelo Miller, que teria sido corrompido pela JBS. “É indiscutível que Joesley e Wesley são criminosos profissionais e possuem perfis voltados à prática reiterada de crimes, o que indica que continuarão delinquindo caso permaneçam soltos.”

Em outro trecho da representação à Justiça Federal pela prisão preventiva dos executivos, a PF argumenta. “Reforça também a prova da contumácia delitiva o fato de que continuaram praticando crimes mesmo após obterem todos os benefícios que desejavam com a homologação da colaboração premiada, não apenas lucrando milhões com informações priviiegiadas em prejuízo do mercado de ações e de derivativos, mas também cooptando niais um servidor público federal para lhes auxiliar na consucação dos seus objetivos ilícitos, conduta que sempre praticaram e que continuaram praticando mesmo após receber os benefícios do acordo de delação.”

Na avaliação da PF, ‘não será, portanto, mais um mero inquérito policial ou o simples recebimento de mais uma denúncia que fará com que parem de cometer crimes’.

“Suas prisões, em que pese ser uma medida dura, é a única que fará com que cessem, de uma vez por todas, com suas condutas criminosas.”

“De acordo com as provas constantes nos autos, temos elementos suficientes que caracterizam a prática dos delitos de insider trading em pelo menos duas situações distintas. Os indícios de autoria convergem
exclusivamente para Joesley e Wesley Batista, os quais demonstraram, juntamente com suas participações na corrupção ativa de um procurador da República, total desprezo pelas leis brasileiras e a certeza da impunidade por meio de um Acordo de Colaboração premiada que lhe garantiu imunidade.”

Para a PF, os irmãos da JBS fizeram delação premiada junto à Procuradoria-Geral da República ‘exclusivamente para escapar da persecução penal de pelo menos seis operações da Polícia Federal dentre outras ações penais em andamento’.

A PF elenca as investigações que estrangulam o Grupo J&F e seus principais acionistas – Operações Sépsis, Greenfield, Cui Bono?, Carne Fraca, Bullish e Lama Asfáltica.

“Durante as negociações deste acordo há indícios de que os irmãos Batista continuaram delinquindo, com a cooptação do procurador da República Marcello Miller, o qual de acordo com as evidências, orientou-os durante as negociações da colaboração premiada e conduziu o procedimento de leniência nos Estados Unidos enquanto ainda era procurador da República. Registra-se que não se trataria da primeira vez que os irmãos Batista teriam cooptado um procurador da República. Ângelo Goulart Vilela foi recentemente preso sob acusações de solicitação de propina na ordem de R$ 50 mil mensais para repassar informações sobre as investigações da Operação Greenfield bem como obstar ou, no mínimo, embaraçar eventual processo de negociação de colaboração premiada.”

COM A PALAVRA, PIERPAOLO BOTTINI, QUE DEFENDE OS IRMÃOS BATISTA

“É injusta, absurda e lamentável a prisão preventiva de alguém que sempre esteve à disposição da justiça, prestou depoimentos e apresentou todos os documentos requeridos. O Estado brasileiro usa de todos os meios para promover uma vingança contra aqueles que colaboraram com a Justiça.”

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