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Consultor diz que delator do cartel dos trens queria “receber algum valor”

Mateus Coutinho

15 janeiro 2014 | 22:17

Em depoimento ao Ministério Público, em dezembro, Arthur Teixeira revelou que Everton Rheinheimer ‘insinuava interesse” nas transações envolvendo a Siemens e as estatais do transporte público em São Paulo.

por Fernando Gallo e Fausto Macedo

O consultor Arthur Teixeira, apontado pela Polícia Federal como intermediário no pagamento de propina a agentes públicos do setor metroferroviário em São Paulo e no Distrito Federal, afirmou, em depoimento ao Ministério Público, que o ex-diretor da Siemens Everton Rheinheimer, principal delator da suposta corrupção do Metrô e na CPTM, “insinuava interesse em receber algum valor”das transações envolvendo a multinacional e as estatais paulistas.

“Como se fosse uma participação dele”, disse Teixeira ao promotor Valter Foleto Santin, em 17 de dezembro. O consultor nega peremptoriamente que tenha pagado propina ou participado do cartel, e diz que recebeu por consultorias prestadas à Siemens e a outras empresas do ramo.

Teixeira declarou, no depoimento de 13 páginas, que o relacionamento dele com Rheinheimer era difícil por “razões comerciais e pessoais”, e disse que o ex-diretor tinha um comportamento “ambíguo”.

Teixeira, que está sob suspeita de ter repassado valores de propina ao ex-diretor de manutenção da CPTM João Roberto Zaniboni na Suíça, confirmou que manteve duas contas no banco Credit Suisse naquele País, mas reiterou que pagou a Zaniboni por serviços de consultoria prestados em 1998 – o ex-diretor da estatal ocupou o cargo entre 1999 e 2003, período em que os depósitos na Suíça foram feitos, totalizando cerca de US$ 250 mil.

De acordo com o consultor, Zaniboni fez um estudo técnico que serviu de base para terceirizar o suprimento de energia elétrica para a CPTM.

Teixeira reiterou que não fizeram contrato escrito, e que a contratação foi “verbal”.

Ele também negou que seja o dono das empresas uruguaias GHT Consulting e Gantown Consulting, conforme consta da documentação enviada pela Promotoria suíça a seus pares brasileiros. Para autoridades que investigam o caso, as duas consultorias eram offshores utilizadas por Teixeira para pagamento de propinas.

Teixeira afirmou que não pediu ajuda para o senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP) e nem foi por ele ajudado. Disse que teve contato “por mais tempo” com Jurandir Fernandes e que Jurandir “fez interlocução normal no desempenho das funções de secretário”.

Ele informou que participou de um jantar de campanha do secretario estadual de Energia e deputado federal licenciado José Aníbal (PSDB-SP) e que foi a única contribuição que fez a uma campanha eleitoral.

O consultor afirmou que “conhece superficialmente”o secretario da Casa Civil e deputado federal licenciado, Edson Aparecido (PSDB), e o deputado federal Arnaldo Jardim (PPS-SP), “não tendo tratado com eles sobre assuntos metroferroviários”.

Aparecido, Jardim e Aníbal são acusados por Everton Rheinheimer de receberem propina do setor de metrô e trens, bem como o secretário de Desenvolvimento Econômico e deputado licenciado, Rodrigo Garcia (DEM).

Aloysio e Jurandir foram citados em uma carta produzida por Rheinheimer em abril do ano passado como tendo “relacionamento estreito” com a consultoria de Arthur Teixeira.

Versões. Everton Rheinheimer rechaçou totalmente as afirmações de Arthur Teixeira, acrescentado que vem sendo alvo de constantes ataques infundados, com o objetivo de minar sua idoneidade. Por meio de sua advogada, Sylvia Urquiza, o ex-diretor da Siemens reiterou que “não tem, nem nunca teve, nenhum interesse pessoal ou político nesse caso.”

O criminalista Eduardo Carnelós disse que não há, até o momento, nenhuma imputação formulada pelo Ministério Público de São Paulo contra Teixeira. “Não foi proposta nenhuma ação penal nem civil. Um dos inquéritos civis, aliás, já estava arquivado por absoluta ausência de elementos comprobatórios de ilicitude, e somente foi reaberto a partir de relatório remetido pelo Ministério Público da Suíça, que, dentre outras coisas, atribui ao sr. Arthur a titularidade de contas bancárias mantidas naquele país por pessoas jurídicas.

Meu cliente já esclareceu em seu depoimento que não é titular daquelas contas nem das referidas empresas, e acrescenta que a afirmação feita pelo MP suíço não veio amparada em nenhum documento, tratando-se de mera e vazia suposição.”

Carnelós anotou que “quanto aos demais termos das declarações prestadas, o sr. Arthur os reitera, e a eles, neste momento, nada tem a acrescentar.”

Confira a íntegra do depoimento de Teixeira ao MP