‘Carta Capital’ teria recebido R$ 3 mi em troca de espaço publicitário

‘Carta Capital’ teria recebido R$ 3 mi em troca de espaço publicitário

Ex-presidente Lula e ex-ministro Guido Mantega teriam atuado junto a Emílio e Marcelo Odebrecht para a obtenção de recursos à revista

Vitor Tavares

12 Abril 2017 | 10h42

Guido Mantega. Foto: Evaristo Sá/AFP

Guido Mantega. Foto: Evaristo Sá/AFP

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega teriam atuado junto à Odebrecht para a obtenção de recursos para a revista Carta Capital. A informação está na delação de executivos da empreiteira, entre eles Marcelo e Emílio Odebrecht.

A construtora teria emprestado R$ 3 milhões à publicação, “soma quitada na forma de compensação com espaços publicitários”. A operação teria se dado por intermédio do “Setor de Operações Estruturadas”, também conhecido como “departamento de propina”.

De acordo com as delações de Marcelo, Emílio e do ex-executivo Paulo Henyan Yue Cesena, Mantega teria feito o pedido diretamente à Marcelo Odebrecht; já o ex-presidente Lula teria atuado junto ao patriarca da empresa, Emílio.

Segundo a decisão de Fachin, o teor dos depoimentos será encaminhado à Seção Judiciária do Estado de São Paulo, onde a investigação deve prosseguir.

COM A PALAVRA, A CARTA CAPITAL

1. Em 2007 e 2009, a Odebrecht fez um adiantamento de publicidade no valor total de 3,5 milhões de reais a CartaCapital, uma operação normal no mercado. Naquele momento, a revista procurou vários anunciantes em busca de um reforço de caixa. O adiantamento foi negociado diretamente com a empresa por Mino Carta e Luiz Gonzaga Belluzzo, sócios da Editora Confiança, que edita a revista CartaCapital. Não houve interferência de ninguém a nosso favor.

2. O adiantamento foi pago da forma tradicional: por meio de anúncios e patrocínios de eventos. A Odebrecht chancelou vários de nossos seminários regulares intitulados “Diálogos Capitais”, bem como patrocinou a premiação “As Empresas Mais Admiradas no Brasil” em 2009, 2011, 2012, 2013 e 2014. Em 2013, figurou entre os patrocinadores do “Fórum Brasil”, que trouxe o economista Dani Rodrik. No ano seguinte, também patrocinou o mesmo evento, cujo principal palestrante foi Paul Krugman, Nobel de Economia. A editora possui os registros e notas fiscais dos anúncios publicados e eventos realizados.

3. Uma das maiores empresas do País, a Odebrecht regularmente anuncia e patrocina eventos em diversos veículos, entre eles, o próprio O Globo. CartaCapital não sabe e não tem obrigação de saber de onde vieram os recursos do adiantamento da verba de publicidade. Não existe carimbo em dinheiro e trata-se de má-fé acreditar que o investimento na revista saiu de “um departamento de propina” e o aplicado nos demais meios de comunicação tem origem lícita. Além disso, o investimento publicitário da empreiteira deu-se quando não havia nenhum sinal do envolvimento da empresa nas ilicitudes apontadas pela Operação Lava Jato. Lembremos que outros meios de comunicação receberam verbas da Odebrecht em 2016, quando os fatos eram sobejamente conhecidos, nem por isso esses veículos podem ser acusados de conivência com qualquer tipo de atitude da empresa ou de defender este ou aquele interesse.

4. Desconfiamos que o novo vazamento dessa citação distorcida a CartaCapital esteja relacionado ao fato de não termos abdicado do dever jornalístico de apontar os erros e abusos da Operação Lava Jato, além da nossa conhecida postura crítica em relação aos meios de comunicação, em grande medida responsáveis, no nosso entender, pelo clima de caça às bruxas reinante no Brasil. Nossa lisura e transparência, reforçadas semanalmente ao longo dos últimos 23 anos, não serão abaladas por essa classe de ilações.

COM A PALAVRA, O ADVOGADO DE GUIDO MANTEGA

“Guido Mantega nega absolutamente qualquer interferência ou qualquer escambo ou troca nesse sentido”, disse o advogado José Roberto Batochio. O defensor afirmou ainda que, se toda publicidade fosse colocada sob suspeita, os veículos de comunicação poderiam sofrer o mesmo que acontece com os políticos, ou seja, serem alvo de escândalos. “A Justiça, mesmo aquela realizada fora dos tribunais, nos julgamentos públicos, tem que se apoiar em fatos, não apenas em boatos”, disse. Para Batochio, qualquer delator que fala para ter uma pena amenizada deve ter as palavras consideradas com a “máxima reserva”.

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