Cadeia no Pará tem única cooperativa formada apenas por prisioneiras do País

Cadeia no Pará tem única cooperativa formada apenas por prisioneiras do País

"A gente conseguindo tirar a pessoa do mundo do crime, quantas famílias a gente não está salvando?", diz a criadora do projeto e diretora da penitenciária, Carmen Botelho.

Redação

15 Fevereiro 2015 | 07h30

Por Julia Affonso

A liberdade que dezenas de detentas do único presídio feminino do Pará procuravam foi alcançada dentro da cadeia. As aulas de português, matemática e artesanato dadas em setembro de 2013 se transformaram, cinco meses depois, em uma cooperativa para vender os produtos. A primeira do Brasil formada exclusivamente por mulheres presas.

Criada por meio de uma portaria interministerial do Governo Federal, a Cooperativa Social de Trabalho Arte Feminina Empreendedora (Coostafe) trabalha diariamente na produção de artesanatos como pelúcias, crochê, vassouras ecológicas, sandálias e bijuterias. Os produtos são vendidos em três grandes praças da região metropolitana de Belém.

“Eu sempre bati na tecla: ‘Vocês estão presas, mas a mente de vocês e as mãos estão livres'”, conta a criadora do projeto e diretora da penitenciária, Carmen Botelho. “Quando eu olho os produtos e vejo o que elas foram capazes de assimilar com o conhecimento que o designer trouxe, o que elas cresceram em pouco tempo, fico satisfeita.”

Artesanato produzido pelas detentas é vendido em feira na Grande Belém. Foto: Marco Zaoboni

Artesanato produzido pelas detentas é vendido em feira na Grande Belém. Foto: Marco Zaoboni

A produção é feita em um galpão improvisado no Centro de Reeducação Feminina de Ananindeua, cidade da região metropolitana de Belém. O presídio tem cerca de 600 detentas. Atualmente, 50 participam da cooperativa. A iniciativa concorreu ao Prêmio Innovare em 2014.

“A gente conseguindo tirar a pessoa do mundo do crime, quantas famílias a gente não está salvando?”, diz Carmen.

VEJA ENTREVISTA COMPLETA COM A DIRETORA DA PENITENCIÁRIA

ESTADÃO: A Cooperativa surgiu de que maneira?

CARMEN BOTELHO: Em setembro de 2013, nós demos alguns cursos (na penitenciária). Em dezembro de 2013, nós fizemos um grande bazar, com todo esse material confeccionado. O dinheiro da venda foi repassado para elas. Foi um sucesso. Eu cheguei e disse: ‘Vocês querem continuar?’. Elas disseram: ‘claro’. Algumas mandaram dinheiro para o filho, para a mãe, ficaram super satisfeitas. A gente decidiu, então, criar a cooperativa. Em janeiro de 2014, o sistema cooperativista do Estado, foi para dentro da unidade e fez a capacitação. Foram 50 presas selecionadas e capacitadas em um curso de 2 meses de duração – janeiro e fevereiro. Das 50 (capacitadas), nós tiramos 27, que estavam com a documentação em dia, carteira de identidade, CPF, título de eleitor, para dar entrada na constituição da cooperativa. As outras estão em processo. Fazem parte, mas não estão inseridas legalmente na cooperativa, por falta de alguma documentação.

ESTADÃO: Como são feitas as vendas dos produtos?

CARMEN: Elas saem para fazer as vendas em três grandes praças de Belém, Ananindeua e Marituba (cidades da região metropolitana da capital paraense). Os prefeitos doaram as barracas onde as presas do semi-aberto fazem as vendas, aos finais de semana. Na cooperativa, nós temos presas do regime provisório, fechado, semi-aberto e aberto. Das 27, duas estão no regime aberto. Elas são do interior e estão esperando nós montarmos uma filial lá, para elas continuarem (o trabalho).

ESTADÃO: A produção dos artesanatos é feita dentro da penitenciária?

CARMEN: Sim, dentro de um galpão que nós adaptamos. Elas saem das celas e vão para lá às 8h, almoçam lá dentro. Em dezembro, como as encomendas foram muito grandes, elas pediram para ficar além do horário. Foi permitido e elas ficaram até as 22h, 23h. Sábado e domingo, as que não tem visita, em vez de ficar nas celas, pedem para trabalhar e a gente libera. Elas assinam o horário que entram e que saem. Isso é computado na redução de pena delas. A cada três dias de trabalho diminui um na pena. Elas estão super felizes.

ESTADÃO: Essa atividade melhorou a autoestima delas?

CARMEN: Percebi que ficaram mais felizes. Era como elas se fossem mortas vivas, aquelas pessoas que só acordavam e iam dormir, não tinham perspectiva, não tinha esperança de futuro. Muitas me disseram: ‘Se eu soubesse fazer isso, eu jamais teria entrado no mundo do crime’. Para mim, isso é mais do que gratificante. Algumas não sabiam nem ler e nem escrever. O que nós fizemos? Eu falei para elas: ‘Hoje vocês são empresárias, têm de saber falar, se portar, fazer conta, ler um contrato’. Nós abrimos três turnos de aula, de manhã, à tarde e à noite. Temos mais de 50% da nossa cadeia dentro da sala de aula. Com isso, elas melhoraram. Algumas dizem: ‘Eu jamais pensei que dentro da cadeira, eu fosse sustentar minha família lá fora’. Para o ser humano ser feliz, ele tem de ter dignidade. Como ele vai ter isso? Quando ele tem conhecimento, educação e um trabalho, uma renda para sustentar a família sem precisar de ninguém, sem precisar pedir esmola, ajuda. Elas são independentes. No início, eu fornecia todo material, agora elas dividem o dinheiro em 3 fatias: para a compra de material, a segunda para investimentos – compra de máquinas de costura – o que sobra elas dividem entre elas. Estão andando com as próprias pernas. Os juízes de execução foram sensíveis ao projeto e autorizam que as condenadas saiam mediante escolta. Elas saem para as exposições, eventos, feiras. Eu as acompanho nesse momento.

 

ESTADÃO: O trabalho dá liberdade para elas?

CARMEN: Elas dizem quando saem: ‘A gente não se sente presa. As pessoas olham para a gente com outro olhar’. No início foi um pouco difícil para elas despertarem o lado criativo. Eu sempre bati na tecla: ‘Vocês estão presas, mas a mente de vocês e as mãos estão livres’. Elas foram liberando a criatividade. Quando eu olho os produtos e vejo o que elas foram capazes de assimilar com o conhecimento que o designer trouxe, o que elas cresceram em pouco tempo, fico satisfeita.

ESTADÃO: Quem foram as primeiras escolhidas?

CARMEN: Primeiramente a gente baseou (a escolha) em saber fazer alguma coisa. Sabe costurar, bordar, crochê? Essas foram as pré-selecionadas. Algumas não tinham comportamento tão bom, mas nós acreditamos e foi ótimo. Elas são exemplos hoje. O comportamento mudou de tal maneira que eu já nem olho mais isso. Eu até falo que as piores deveriam ser as primeiras a serem inseridas. Lá dentro elas começam a se socializar, a tratar bem as outras. A maioria delas assume um comportamento agressivo por sobrevivência no mundo da carceragem. Quando elas vão para lá (cooperativa), elas se olham e se transformam. Lá é a não realidade do mundo carcerário. É como se a gente tivesse transformado um pedacinho da unidade em um local que não é lá dentro. É como se fosse uma empresa, uma indústria. Essa perspectiva de um futuro melhor é o que faz com que elas produzam mais e queiram mais.

ESTADÃO: Lembra de alguma história que te marcou?

CARMEN: Eu tenho uma presa, a dona Domingas. Ela é uma senhora de 57 anos e não tinha nenhuma passagem no mundo do crime. Na cadeia masculina, o homem vem no mundo do crime desde a adolescência. A mulher, não. Alguma coisa aconteceu na vida dela. Ela conheceu a pessoa errada ou assumiu o crime no lugar do marido, ou levou droga para dentro da unidade penitenciária e foi pega ou é uma necessidade extrema, como o caso dela. Em uma das conversas, eu falei com ela: ‘A senhora tem um crochê tão maravilhoso, por que a senhora veio parar aqui?’. Ela disse que não sabia fazer e tinha aprendido dentro da cadeia. Contou que teve dois casamentos e 5 filhos de cada marido. A relação acabou por causa de violência doméstica. Ela era empregada em uma casa, mas adoeceu e a patroa a demitiu. Ela estava sem marido, tuberculosa, analfabeta, com 10 filhos e 17 netos. Eram 27 pessoas dependendo dela. Para completar, o filho de 3 anos teve leucemia. Ela me disse: ‘Eu não pensei duas vezes, peguei e fui vender droga. A gente não precisa ir para a rua, a pessoa vem na nossa casa e compra. Eu podia cuidar dos meus filhos, cuidar do meu filho doente, comprar remédio e sustentar a casa. O que eu ia fazer? Eu sou uma pessoa honesta, não quero traficar’. Hoje ela sabe ler, escrever e fazer conta. É uma das cooperadas que está saindo (da prisão), mas não quer. Ela sustenta a família lá de dentro. A nossa meta agora é criar uma filial da cooperativa em outros locais, para que elas possam continuar o trabalho fora da cadeia. Quantos jovens ela não levou para um caminho praticamente sem volta? A gente conseguindo tirar essa pessoa do mundo do crime, quantas famílias a gente não está salvando?

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