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‘Cadê o resto?’ cobravam os deputados por mais propinas, diz delator

‘Cadê o resto?’ cobravam os deputados por mais propinas, diz delator

Revelação foi feita no Termo de Colaboração número 5 de Carlos Alexandre de Souza Rocha, o Ceará, entregador de dinheiro em espécie do doleiro da Lava Jato Alberto Youssef

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Beatriza Bulla e Gustavo Aguiar, de Brasília

05 Janeiro 2016 | 09h00

Mário Negrmonte. Foto: Zeca Ribeiro/Agência Câmara

Mário Negrmonte. Foto: Zeca Ribeiro/Agência Câmara

O entregador de propinas Carlos Alexandre de Souza Rocha, o Ceará, disse que era cobrado pelos deputados destinatários de valores ilícitos do esquema Lava Jato. “Cadê o resto?”, perguntavam os parlamentares ao receberem sacolas de dinheiro vivo, segundo o Termo de Colaboração número 5 de Ceará perante a Procuradoria-Geral da República.

Ele afirmou que em 2010 fez entregas de dinheiro vivo em um apartamento funcional na Quadra 311 Sul, em Brasília, onde se encontravam os deputados Mário Negromonte (PP/BA), João Pizzolatti (PP/SC), Pedro Corrêa (PP/PE) e outros dos quais disse não lembrar o nome. “Não sabia exatamente quem morava nesse apartamento, sabendo apenas que, nas oportunidades em que compareceu ao local para entregar dinheiro, estavam presentes os deputados federais João Pizzolatti (PP/SC), Mário Negromonte (PP/BA), Pedro Corrêa (PP/PE), além de outros deputados dos quais o depoente não se recorda”, relatou Ceará em delação premiada. Numa dessas entregas estava no apartamento do deputado Nelson Meurer (PP/PR).

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O delator fez dezenove depoimentos entre os dias 29 de junho e 2 de julho de 2015. Tudo o que ele disse faz parte dos autos da Operação Lava Jato no Supremo Tribunal Federal, instância competente para investigar políticos com foro privilegiado, deputados e senadores.

Ceará contou que retirava os valores em espécie no escritório de Youssef, em São Paulo, na Avenida São Gabriel. Em Brasília, ia ao encontro dos deputados. As entregas, disse, ocorreram em 2010, ano de eleições. “Foi umas quatro vezes nesse apartamento funcional entregar dinheiro em espécie. Nessas oportunidades transportava R$ 300 mil.”

Ele disse que ‘transportava o dinheiro no corpo, usando meias de futebol e calças próprias, mais folgadas, calças de trabalho’.

“Ao chegar ao apartamento, ia ao banheiro para retirar o dinheiro das pernas, que estava embalado em filmes plásticos, e retornava com uma sacola de dinheiro e apresentava a todos que estavam à espera, na sala do apartamento. Os deputados federais recebiam o declarante e pegavam o dinheiro. O declarante não sabia como eles dividiam os valores. Os deputados federais sempre perguntavam para o depoente: ‘Cadê o resto?’. O depoente apenas respondia que aquela era a quantia que ele estava transportando.”

Os políticos citados na delação de Carlos Alexandre de Souza, o Ceará, negam recebimento de propinas no esquema desmontado na Operação Lava Jato.

O ex-ministro do governo Dilma Rousseff (Cidades) Mário Negromonte disse à reportagem que os delatores Alberto Youssef e Ceará fazem ‘jogo farsante’ para atingi-lo.

Os ex-deputados Pedro Corrêa (PP/PE) e Luiz Argôlo (SD/BA) estão presos em Curitiba, base da missão Lava Jato, condenados pelo juiz federal Sérgio Moro por crimes de corrupção e lavagem de dinheiro. Eles negam terem sido beneficiados pelo esquema de cartel e fraudes instalado na Petrobrás entre 2004 e 2014.

O ex-deputado João Pizzolatti (PP/SC) diz que está ‘à disposiçáo das autoridades’ para esclarecer todos os fatos.

O deputado Nelson Meurer (PP/PR) tem reiterado que não recebeu propinas.

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