Batalha ideológica no tratamento das drogas

Pablo Roig*

02 Setembro 2017 | 10h00

A adicção é uma doença versátil que impõe desafios no tratamento em especial quando há a negação dos pacientes pelo reconhecimento da doença. Uma doença que atinge todas as áreas da existência humana e do convívio social. Impacta na família, no trabalho e na sociedade. Neste cenário, diferentes modelos de tratamento são propostos para a discussão sobre esta patologia e, por muitas vezes, são perspectivas divergentes que travam determinadas batalhas ideológicas ao se considerarem “donas” de eventuais soluções. Mas a verdade é que o paciente pode se beneficiar de tratamentos que não sejam estritamente médicos e que possam auxiliar no estabelecimento de qualidade de vida minimamente melhor. A exemplo das questões espirituais ou de atividades recreativas e esportivas.

Do ponto de vista histórico, pode-se dizer que o consumo de substâncias psicotrópicas é tão antigo quanto a própria humanidade. Só que, na antiguidade as drogas são utilizadas com apenas dois fins.

Tratamento médico ou rituais religiosos. E o processo de produção e distribuição destas drogas era bem limitados. Já na Idade Média, constata-se um aumento considerável do uso do ópio para finalidades terapêutica, anestésicas, analgésicas e, inclusive, tranquilizante. O consumo permaneceu até sua proibição em meados do Século XIX. Mas o ópio foi utilizado na 1.ª Guerra Mundial porque a morfina só foi sintetizada quando o conflito já estava em andamento.

O tabaco era utilizado por comunidades da América do Sul que o consumiam mascado ou aspirado. E a cocaína era utilizada como tranquilizante, mas também como alimento. Já no início da Revolução Industrial, o processo de destilação do álcool modifica a forma como a substância é consumida devido às mudanças em sua concentração. Ainda no final do Século XIX, a heroína é sintetizada e prescrita como analgésico. Já em 1938, surge o alucinógeno LSD. E, na década de 80, o crack como forma de se aproveitar um subproduto da cocaína. O contexto da droga, em verdade, está inserido nas grandes mudanças sociais da vida humana. A exemplo do excesso de trabalho e daquilo que se pode chamar robotização das pessoas e, com o tempo, as drogas passam a ser procuradas como mercadoria naquilo que já se entende como sociedade de consumo.

Nos anos 90, os designers drugs começam a desenhar drogas diferentes a todo o tempo o que, na prática, acarreta em complicações significativas no trabalho dos especialistas em dependência química.

Anualmente são responsáveis pela produção de cerca de 150 substâncias químicas novas em média, drogas que possuem efeitos tão diferentes os quais, por muitas vezes, são difíceis de serem identificados e tratados. Este cenário obriga os médicos psiquiatras a buscarem por mais inovações no tratamento e, até mesmo, se tornarem “alquimistas” nesta luta contra a morte, bem como na busca de um novo sentido para a vida do adicto.

A partir deste momento, é necessária a discussão sobre os modelos ideológicos que ajudam na compreensão do que realmente é a dependência química. O primeiro modelo trata da moral cujo debate se inicia com o filósofo grego Aristóteles. Para ele, a virtude está no equilíbrio entre a sobriedade e o exagero, sendo o uso extremado definido como vício. Assim, o uso desregrado seria uma escolha individual a partir de uma atitude consciente e que tais comportamentos demandariam sanções ou punições sempre que ocorressem. E, na Idade Média, o conceito de pecado liga a droga às ideias de heresias porque seu consumo está vinculado a rituais considerados pagãos. Nos Estados Unidos, o Movimento da Temperança culmina na proibição do consumo de álcool na década de 20.

Existem, além das questões morais, os modelos ideológicos envoltos às questões psicológicas e genéticas. Mas no âmbito social, há a premissa das interações sociais como agentes capazes de moldar hábitos. São equalizadores sociais relacionados ao uso das substâncias químicas sobretudo quando há a exposição a uma cultura de consumo que define os hábitos do adicto. Isto é o que explica as tentativas de descriminalização e legalização da maconha. Se estabelece a indução ao consumo de uma droga a qual as pesquisas científicas já correlacionam com o aparecimento precoce do Mal de Alzheimer. Quando se propõe o uso terapêutico desta substância é necessário debater e compreender o que, de fato, significa o uso terapêutico da maconha para que se tenha o uso controlado pela medicina e evite-se a tolerância, dependência e adicção. O modelo ideológico social demonstra claramente a relação entre a sociedade e as informações que ela transmite para o consumo ou não das drogas.

Os modelos de tratamento, inseridos nestas variadas possibilidades, são compostos por hospitais gerais, ambulatórios, grupos de ajuda mútua, CRAS, comunidades terapêuticas, moradias assistidas, igrejas, medidas de redução de danos e centros de excelência. Todos são válidos. Mas o que realmente é decisivo para o tratamento é a identificação e a correta aplicação da terapia a determinado paciente, conforme as características que apresenta. E, neste contexto, está a saúde pública que busca sintetizar todos esses modelos de tratamento em soluções mais coerentes com a participação de todas as formas de cuidados.

Mas, independentemente, da batalha ideológica que se instaure, cada tratamento da dependência química será útil desde que esteja de acordo com o diagnóstico feito para cada paciente.

*Médico psiquiatra e diretor da Clínica Greenwood

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