Baiano disse que vai apresentar documentos sobre pagamentos a suposta nora de Lula

'O depoente se compromete a tentar identificar a operação bancária referente aos fatos', registra a força-tarefa da Lava Jato no termo de delação

Fausto Macedo, Ricardo Brandt, Julia Affonso e Andreza Matais

20 Outubro 2015 | 23h05

Fernando Baiano faz exame de corpo de delito em Curitiba, na época de sua prisão, em novembro de 2014. Foto: Geraldo Bubniak/AGB

Fernando Baiano faz exame de corpo de delito em Curitiba, na época de sua prisão, em novembro de 2014. Foto: Geraldo Bubniak/AGB

Apontado pelas investigações da Operação Lava Jato como um dos operadores de propinas no esquema de irregularidades na Petrobrás, Fernando Soares, o Fernando Baiano, se comprometeu, em seu termo de delação premiada, a apresentar documentos bancários que comprovem a suposta transferência de valores para uma das noras do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

“O depoente se compromete a tentar identificar a operação bancária referente aos fatos”, registra a força-tarefa da Lava Jato no termo de delação.

Baiano afirmou em seu depoimento que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva se reuniu pelo menos duas vezes com seu amigo, o pecuarista José Carlos Bumlai, e com João Carlos Ferraz, então presidente da Sete Brasil, para tratar de negócios relativos à estatal investigados pela operação.

Os encontros ocorreram no primeiro semestre de 2011, na sede do Instituto Lula, em São Paulo, e antecederam a cobrança de R$ 3 milhões por Bumlai para supostamente pagar uma dívida de imóvel de uma nora do ex-presidente. Segundo Baiano, Bumlai o pressionou para receber esse valor e alegou que precisava saldar uma dívida imobiliária de uma nora de Lula, mas não revelou o nome dela.

[veja_tambem]

“Essa reunião (entre Lula, Bumlai e Ferraz) foi realizada em São Paulo no final do primeiro semestre de 2011”, afirmou Fernando Baiano em seu termo de delação premiada fechado com a força-tarefa da Lava Jato. Ferraz queria tratar de negócios intermediados por ele, em nome do grupo OSX, do empresário Eike Batista.

Ainda de acordo com Baiano, uma das reuniões com a presença de Lula ocorreu logo após um almoço entre o próprio Baiano, Ferraz e Bumlai para tratar de contratos relativos à Petrobrás. “Antes dessa reunião, o depoente (Baiano) encontrou João Carlos Ferraz e Bumlai. Esse encontro ocorreu em um restaurante italiano embaixo de um flat, onde almoçaram”, registra o termo de deleção.

Segundo o delator, o local do encontro foi o restaurante Tatini, no Jardim Paulista, em São Paulo. “Bumlai orientou José Carlos Ferraz sobre o que falar a Lula”, revelou baiano. “Depois José Carlos Ferraz e Bumlai foram para a reunião com Lula e essa reunião ocorreu no Instituto Lula”, afirmou Fernando Baiano.

Ferraz era ex-funcionário da Petrobrás. Foi o primeiro presidente da Sete Brasil, empresa criada pela estatal com bancos e fundos de pensão, para contratação de 28 navios-sonda pelo valor de US$ 22 bilhões.

Ferraz e outro ex-executivo da Sete Brasil, Eduardo Musa, confessaram em delação premiada que esses contratos envolveram propina de 1%. Parte abasteceu os cofres do PT, afirmou o ex-gerente de Engenharia da Petrobrás Pedro Barusco.

Velocidade. “Ferraz disse que a reunião com Bumlai e Lula tinha sido muito boa”, disse Baiano. O delator afirmou que, segundo relatos de Ferraz, Lula teria falado em “dar mais velocidade” nos assuntos da empresa. “Ferraz disse que Lula foi bastante amável com ele e teria assumido o compromisso de ajudar a dar mais velocidade nos assuntos da Sete Brasil, para viabilizar uma consolidação mais rápida da indústria naval brasileira”, registra a deleção.
Segundo Baiano, Ferraz disse que, em decorrência da reunião com Lula, teria sido agendada e realizada uma outra reunião, no Instituto Lula, com a participação do presidente “do Sindicato da Indústria Naval, do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Naval ou algo do tipo”.

Negociações. Fernando Baiano relatou em seu termo de delação que as negociações começaram em 2011, depois de ele ter procurado Bumlai para ajudar a OSX a participar do pacote de contratos da Sete Brasil, que estava sendo fechado no início da primeira gestão Dilma Rousseff.

O delator afirmou que, em determinado momento, ainda em 2011, conversou com Bumlai sobre empecilhos para concretizar o negócio. Ele entendia “ser necessária uma providência mais incisiva para concretização da negociação”. “O depoente considerava indispensável ‘um peso maior’ para que o negócio fosse ultimado”, registrou a força-tarefa. Bumlai, então, “ficou de acertar uma reunião entre João Carlos Ferraz e o ex-presidente Lula.”

Segundo Baiano, como pagamento, Bumlai receberia metade da propina paga pela OSX.

Ainda de acordo com o documento de delação, Fernando Baiano afirmou que foi no decorrer dessas negociações da OSX com a Sete Brasil, intermediadas por Bumlai em contatos diretos com Lula, que, “em uma das visitas” do pecuarista, ele teria mencionado a necessidade de um “adiantamento na comissão que seria paga pela OSX”.

“Nessa reunião, Bumlai afirmou que precisava do dinheiro porque estava sendo pressionado para resolver um problema”, afirmou Baiano. “Bumlai disse que estava sendo cobrado por uma nora do ex-presidente Lula para pagar uma dívida ou uma parcela de um imóvel”, disse Baiano na delação. Bumlai teria dito que “tinha ficado de resolver esse problema” e falou em uma dívida de R$ 3 milhões.

O delator afirmou que disse pessoalmente a Bumlai que “não poderia ajudar com R$ 3 milhões, mas que poderia contribuir com R$ 2 milhões para resolver o problema”. O valor, segundo ele, foi repassado para o pecuarista, por meio de uma empresa de locação de equipamentos, de nome São Fernando, por meio da emissão de uma nota fiscal por serviços não prestados. “O valor pago não foi o valor exato de R$ 2 milhões, tendo sido provavelmente uma quantia um pouco menor.”

COM A PALAVRA, O INSTITUTO LULA

“O ex-presidente não comenta supostos trechos de documentos que estão sob sigilo judicial. Reiteramos que o ex-presidente Lula nunca atuou como intermediário de empresas em contratos, antes, durante ou depois de seu governo. Jamais autorizou que o sr. José Carlos Bumlai ou qualquer pessoa utilizasse seu nome em qualquer espécie de lobby. Não existe a dívida de 2 milhões supostamente mencionada na delação.”

COM A PALAVRA, O PECUARISTA JOSÉ CARLOS BUMLAI

“A respeito das questões encaminhadas, insistimos que o empresário JCB nunca atuou em nome de OSX ou de Fernando Baiano em quaisquer demandas, nem pediu dinheiro usando o nome do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ou seus familiares, para beneficiar quem quer que fosse. Mais uma vez, informações já contestadas por nós são misturadas irresponsavelmente, na tentativa de criar novos fatos que, na prática, não existem.”