As malas no caminho da PF

As malas no caminho da PF

2017, decididamente, tem sido um ano ruim para os colecionadores de fortunas em dinheiro vivo; os investigadores confiscaram, aqui e ali, maços de notas de R$ 50 e R$ 100 com políticos e gestores públicos às voltas com a Justiça

Julia Affonso e Fausto Macedo

29 Novembro 2017 | 14h21

Fotos: Reprodução

Na cidade de 85 mil habitantes, no litoral norte de São Paulo, ou no mais alto escalão da República. Achar malas lotadas de notas de R$ 50 e R$ 100 tem se tornado rotina nas operações da Polícia Federal. Desde o início do ano já foram flagrados ou ligados a malas de dinheiro o ex-assessor especial do presidente Michel Temer (PMDB), Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR), o primo do senador Aécio Neves (PSDB-MG), Frederico Pacheco, o ‘Fred’, o ex-ministro Geddel Vieira Lima e seu irmão Lúcio, ambos do PMDB da Bahia, e até um ex-secretário da Prefeitura de São Sebastião, litoral de São Paulo.

As cédulas foram encontradas divididas em pequenos montantes, enroladas em papeis ou presas por elásticos, às vezes estocadas também em caixas de papelão.

No bunker de Geddel, havia até moeda estrangeira, mais precisamente, US$ 2,688 milhões.

AS MALAS DO ANO

Rocha Loures carrega mala com R$ 500 mil em dinheiro. Foto: Reprodução

O ASSESSOR: Rodrigo Rocha Loures, aliado de Michel Temer, foi flagrado na noite de 28 de abril, em São Paulo, saindo apressado do estacionamento de uma pizzaria nos Jardins, carregando uma mala preta com R$ 500 mil em dinheiro vivo. Agentes da Polícia Federal o seguiam e o filmaram. As imagens mostram Rocha Loures desconfiado, olhando para os lados, em direção a um táxi que o aguardava na Rua Pamplona, com o porta-malas aberto.

O ex-assessor Rocha Loures devolveu o dinheiro, mas nunca explicou a origem. O presidente Michel Temer nega relação com o caso.

O PRIMO: Frederico Pacheco de Medeiros, o ‘Fred’, primo de Aécio Neves foi flagrado pela Polícia Federal colocando ‘maços de dinheiro’ no bolso dentro do prédio sede da JBS. Fred foi preso na Operação Patmos, em maio, após ser filmado pegando propina de R$ 500 mil – de um total de R$ 2 milhões. Segundo o Ministério Público Federal, a propina era um pedido de Aécio ao empresário Joesley Batista.

Foto: Reprodução

PF encontrou celulares em nome de supostos laranjas de Aécio

Em 12 de abril uma equipe de policiais federais ficou nas dependências da JBS e viu Fred chegar ao local. O primo de Aécio foi filmado dentro de uma sala da empresa. Uma mala com o dinheiro vivo foi colocada sobre uma mesa para que Fred pudesse ‘transferir os valores à sua bolsa’.

Aécio nega ter pedido propina à JBS. O senador declarou que se tratava de um empréstimo para pagar seus advogados.

Bunker dos R$ 51 milhões Foto: PF

O BUNKER: A PF encontrou, em setembro, após denúncia anônima, um bunker com malas e caixas de papelão contendo R$ 51 milhões – R$ 42.643.500,00 e US$ 2.688.000,00 -, ligados aos irmãos Geddel (ex-ministro) e Lúcio Vieira Lima (deputado federal), ambos do PMDB da Bahia. O apartamento era usado para armazenagem de fortunas em espécie.

Bunker dos R$ 51 milhões Foto: PF

Bunker dos R$ 51 milhões Foto: PF

Bunker dos R$ 51 milhões Foto: PF

Geddel está preso. Relatório da PF atribui a ele e ao irmão, o deputado Lucio Vieira Lima (PMDB-BA), os crimes de lavagem de dinheiro e associação criminosa.

O ex-ministro Geddel nunca explicou a origem do dinheiro.

Foto: Reprodução/PF

NO LITORAL: Nesta quarta-feira, 29, a Polícia Federal encontrou uma mala com R$ 450 mil em dinheiro na casa de um ex-secretário municipal de São Sebastião (SP), investigado na Operação Torniquete. A investigação mira supostas irregularidades e desvios de R$ 100 milhões nas duas gestões do ex-prefeito Ernane Primazzi (PSC), que exerceu mandatos entre 2009 a 2016, com recursos da saúde e de obras públicas.

Foto: Reprodução/PF

O advogado Francisco Duque Estrada, que defende Ernane Primazzi, afirmou que o ex-prefeito está ‘perplexo’ com a Operação. Ernane Primazzi foi alvo de busca e apreensão. Segundo o defensor, ‘não foi encontrado nada que o vinculasse a desvios’.

“Com todo respeito à diligência do juiz e da Polícia Federal, me parece que há um grande equívoco, creio que foi uma medida açodada”, declarou.

“Ele está perplexo, como a defesa está indignada pela medida cautelar.”

O defensor afirmou que foram apreendidos ‘um notebook, um celular e documentos pessoais’. De acordo com o advogado, não houve mandado de condução coercitiva – quando o investigado é levado para depor.

“Nunca foi intimado (a prestar depoimento)”, disse o defensor. “Hoje apenas ele ficou sabendo da existência do inquérito. Não sabemos o teor da apuração.”