Análise do Drousys mostra R$ 3,1 mi do setor de propinas vinculado a ‘Prédio IL’

Análise do Drousys mostra R$ 3,1 mi do setor de propinas vinculado a ‘Prédio IL’

Documento do MPF no processo em que Lula foi interrogado nesta quarta, 13, por Moro liga movimentação de contas de offshores usadas pela Odebrecht para pagar propinas a registro de pagamento de terreno para Instituto Lula

Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba, Julia Affonso e Luiz Vassallo

14 Setembro 2017 | 09h27

Um relatório do Ministério Público Federal com análise de dados extraídos da memória do sistema de comunicação Drousys, que era usado pelo setor de propinas da Odebrecht, revela que pelo menos R$ 3,1 milhões do R$ 12 milhões da compra do terreno para o Instituto Lula saíram do caixa 2 da empresa e estão relacionados à anotação “Prédio IL”, da “Planilha Italiano”, que seria o controle da conta corrente gerenciado por Antonio Palocci.

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Lula foi ouvido ontem como réu no processo em que é acusado por crime de corrupção passiva e lavagem de dinheiro, pelo acerto de R$ 12,5 milhões em propinas da Odebrecht, de forma dissimulada, na compra do terreno para o Instituto Lula e de um apartamento em São Bernardo do Campo. O ex-presidente negou envolvimento em crimes. Na semana passada, o ex-ministro Antonio Palocci – também réu nesse processo – confessou seu envolvimento e incriminou Lula.

Documento

“Foram realizadas consultas nos arquivos extraídos da cópia fornecida do sistema Drousys, com vistas a identificar respostas positivas para a expressão “(3*1057)”, que consiste na primeira parte da expressão relacionada a coluna correspondente ao número “12.422”, por sua vez referente ao registro “Prédio (IL)”, constante do arquivo eletrônico da ‘Planilha Italiano'”, informou a procuradora da República Isabel Groba Vieira, em documento anexado ao processo no dia 30.

Trata-se do Relatório de Análise 007/2017, da Assessoria de Pesquisa e Análise da Procuradoria da República, em Curitiba, que pesquisou dados extraídos do sistema de comunicação secreta do Setor de Operações Estruturadas do Grupo Odebrecht, em poder da Lava Jato desde março.

“Os elementos ora anexados, examinados no relatório de análise igualmente
anexado, demonstram que parte do valor despendido com a aquisição do imóvel localizado na Rua Doutor Haberbeck Brandão, 178, foi disponibilizado pelo Grupo Odebrecht com recursos de caixa dois, por meio do Setor de Operaões Estruturadas, envolvendo, no que concerne aos pagamentos feitos no exteriors as empresas offshores Constructora Internacional
Del Sur S/A e Innovation Research Engineering and Development Ltd”, escreve a Procuradora, ao juiz federal Sérgio Moro.

Ambas as offshores, controladas por Olivio Rodrigues Júnior, delator da Lava Jato.

Outro delator da Odebrecht, Fernando Migliaccio da Silva, que era um dos responsáveis pelo setor de propinas, colaborou com as consulta aos arquivos feitas pelos técnicos do MPF nos dias 2 e 3 de agosto.

A pesquisa identificou que no dia 17 de setembro de 2010, quatro dias antes de o terreno ter sido comprado formalmente pela  DAG Construtora, do amigo de Marcelo Odebrecht, às 16h32, uma “anotação com os dados de uma
conta em nome de Beluga Holdings LTD., no Banco Lombard Odier Darier Hentsch & Cie (Geneve), conta 507 95 300, IBAN CH88 0876 0000 0507 95300, SWFIT LOCYCHGG”.

O documento do MPF ressalta que “após os dados da referida conta verificou-se outra anotação, aparentemente a lápis, com os termos ‘P. Melo.'”, que seria o nome de Paulo Barqueiro de Melo, ex-executivo da Odebrecht Realizações Imobiliárias, também réu no processo.

A análise de e-mails das secretárias do setor de Operações Estruturadas – primeiras delatores da Odebrecht, que obrigaram Marcelo e Emílio Odebrecht a buscarem um acordo – identificou ainda um saldo de US$ 2,142,575.63 em que “havia sido reservado US$ 611,515.00 (Beluga) que
poderia ser liberado a qualquer momento”.

 

Os dados da conta Beluga levaram aos ordenamentos de movimentações de duas contas da rede de offshores controlada pela Odebrecht e seus parceiros para alimentar a máquina de fazer propinas – por onde circularam R$ 3 bilhões de dinheiro ilícito.

As contas ligadas ao pagamento dos R$ 3,1 milhões seriam as da Constructora Internacional Del Sur e da Innovation.

Consta nos arquivos analisados ainda a operação “com referência 551, de 24/nov/10, com valor $ 537.575,00 para Beluga Holdings LTD, agora fazendo referência a parcela 3×3”. “Dessa vez, entretanto, sem arquivo anexo correspondente à transação e com observação na própria tabela ‘Aguardando Extrato’.”

Nas pesquisas do sistema Drousys, a força-tarefa da Lava Jato indentificou também elos de uma conta da offshore Inovation com a Beluga, que estaria relacionado ao repasse para pagamento do Instituto Lula.

Consta que essa operação foi cancelada e identificou-se repasse para conta de uma outra offshore, a Jaumont Services Limited.

“Apesar do pagamento da Innovation Research para Beluga Holdings no valor de US$ 537,575.00 ter sido devolvido em 2 de dezembro de 2010, dentre os documentos coletados na pesquisa ao sistema Drousys, evidenciou-se um arquivo denominado ‘Última Beluga R$ 887 Conv US$.pdf’, em seu conteúdo havia instruções para transferência, com os dados da conta em benefício de Jaumnot Services Limited, no Banco BNP Paribas (Suissse) S.A., Geneve.”

Lula disse ontem que Palocci mente e que chegou a conhecer o imóvel, mas nunca comprou ou permitiu que negociam o imóvel em seu nome. O ex-presidente diz que é vítima de uma perseguição.

Palocci disse que tratou com a dona Marisa Letícia, ex-primeira dama que morreu em fevereiro, sobre a aquisição do imóvel, e que quem coordenava a operação eram o pecuarista José Carlos Bumlai e o advogado Roberto Teixeira, amigos de Lula.

“Nunca autorizei que conversassem em meu nome.” Lula disse que em 2010 deu uma ordem que só discutissem sobre seu futuro, após deixar a Presidência.