Amor e ódio

Amor e ódio

No interrogatório a que foi submetido na quarta-feira, 13, pelo juiz Sérgio Moro, ex-presidente Lula derramou mágoas e afagos sobre seu antigo aliado, o ex-ministro Antônio Palocci

Luiz Vassallo, Ricardo Brandt e Julia Affonso

15 Setembro 2017 | 05h00

Lula e Palocci em 2005 FOTO DIGITAL: CELSO JUNIOR/AE

No interrogatório a que foi submetido pelo juiz federal Sérgio Moro na quarta-feira, 13, em ação penal na qual é réu por supostas propinas da Odebrecht, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva demonstrou, com veemência, irritação com o depoimento do ex-ministro Antônio Palocci. Durante parte da audiência que se prolongou por cerca de duas horas, Lula foi do céu ao inferno quando se referia ao antigo aliado, que foi ministro da Fazenda do seu governo.

O relato do ex-presidente foi marcado por declarações de amor e ódio. Ele chamou Palocci de ‘simulador’, ‘frio’ e ‘calculista’. Mas também elogiou o ex-ministro alegando relação de ‘profunda amizade’ e classificando-o como ‘um quadro excepcional o qual o Brasil não tem muitos’.

Nesta ação o ex-presidente é acusado de repasses ilícitos da Odebrecht que chegaram a R$ 75 milhões em oito contratos com a estatal. O montante, segundo a força-tarefa da Lava Jato, inclui um terreno de R$ 12,5 milhões para Instituto Lula e cobertura vizinha à residência de Lula em São Bernardo do Campo de R$ 504 mil.

O AMIGO E O SIMULADOR

CFOTO DIGITAL: ED FERREIRA/AE

Ao descrever sua relação com o ex-ministro, Lula partiu de uma amizade de 30 anos e chegou à conclusão de que o ‘amigo’ é ‘frio’ e ‘calculista’, além de um notório ‘simulador’, ‘se não fosse um der humano’.

“O Palocci veio aqui e eu vi o Palocci e o senhor sabe que eu tenho uma profunda amizade com Palocci há mais de 30 anos. Não é coisa de um dia. Ele foi meu ministro da fazenda e prestou um grande serviço a este país. Eu tirei o Palocci do governo em março de 2003 porque ele não conseguiu explicar uma coisa pequena. Saiu a denúncia de que ele frequentava uma casa, sabe ele disse que não ia na casa, a oposição denunciou, o caseiro disse que ele ia e ficou uma briga na imprensa. Vai ou não vai. Eu lembro que vim a Curitiba inaugurar uma obra com o prefeito e disse ao Palocci: olha, Palocci, se você não resolver esse problema do caseiro, quando eu voltar de Curitiba eu vou tirar você do governo. Porque não é possível um ministro da fazenda ficar brigando com um caseiro. Voltei a tarde, o Palocci não tinha resolvido, então afastei o Palocci do governo. Eu ia exonerar, ele pediu demissão e eu falei: tudo bem, pode fazer isso. O Palocci então virou deputado e foi deputado até 2010. Eu estou lhe contanto isso porque o senhor fala muito em contexto. E eu quero contar o meu contexto. Pois bem. Eu vi atentamente o depoimento do Palocci. Uma coisa quase cinematográfica, quase que feita por um roteirista da Globo: ‘você vai dizer tal coisa, os lides vão ser esse, esse e esse. Prepararam alguns lides para ele dizer. E ele foi dizendo, habitualmente, lendo alguma coisa, falando. E eu conheço o Palocci bem. O Palocci, se não fosse um ser humano, seria um simulador. Ele é tão esperto que é capaz de simular uma mentira mais verdadeira que a verdade. O Palocci é medico, é calculista, é frio”.

A PENA DE UM QUADRO EXCEPCIONAL

FOTO DIGITAL:CELSO JUNIOR/AE

Questionado por Moro a respeito de supostos ilícitos cometidos pelo ex-ministro supostamente em seu benefício, Lula afirmou que Palocci ‘inventou a frase de efeito “pacto de sangue”’, referente à suposta relação entre a Odebrecht e o ex-presidente.

“Eu fiquei vendo o Palocci falar. Ele inventou a frase de efeito ‘pacto de sangue’ de Emilio Odebrecht. Ele que fez pacto de sangue com os delatores, com os advogados dele e talvez com o Ministério Público. Porque ele disse exatamente o que o Power Point queria que ele dissesse. Há muito tempo eu leio, escuto e converso com advogado e fico sabendo que todo mundo que é preso a primeira pergunta é: E o Lula? Conhece o Lula? O Lula estava lá? Diga alguma coisa do Lula! Isto faz dois anos e meio, dr. Moro! Eu lamento profundamente que o senhor tenha feito a denuncia. O senhor poderia recusar a denuncia”.

“Eu não tenho raiva do Palocci, eu tenho pena dele. Porque o Palocci é um quadro político excepcional o qual o brasil não tem muitos”.

O QUE PENSA A MÃE?

 FOTO JOSE CORDEIRO /AE

“Eu fico pensando como é que está pensando a mãe dele agora que é militante do PT e fundadora do PT. Eu fico imaginando como estão as pessoas que militavam com ele no PT. É lamentável. Eu, sinceramente, não tenho raiva do Palocci. Não leve essa imagem que eu tenho raiva do Palocci. Eu tenho pena dele ter terminado uma carreira tão brilhante da forma como ele terminou.”

NÃO CONHECIA

Lula e Antonio Palocci em 2002. Foto: Roberto Castro/AE

O Ministério Público Federal quis saber de Lula se ele não nunca havia identificado ‘essa faceta tão negativa’ de Palocci.
“Não, eu terminei elogiando o Palocci. Eu disse que o Palocci foi o ministro da Fazenda muito competente, que ajudou muito este País. Eu disse que eu não conhecia era essa simulação que ele fez aqui semana passada”, afirmou Lula.

TEM O DIREITO

Lula. Foto: Reprodução

“Parece que tem uma caça às bruxas. Eu tenho lidado com muita paciência. Eu vi o depoimento do Palocci, não respondi nada, não falei nada. Muita gente achou que eu ia chegar com muita raiva do Palocci. Eu achei que o Palocci tá preso há mais de um ano, o Palocci tem o direito de querer ser livre, tem o direito de querer ficar com o pouco do dinheiro que ele ganhou fazendo palestra, ele tem família. Tudo isso eu acho. O que não pode é se você não quer assumir a tua responsabilidade pelos fatos ilícitos que você fez, não jogue em cima dos outros”.

ESPERTAMENTE

Antonio Palocci. Foto: Reprodução

“Eu fiquei muito preocupado com a delação do Palocci, porque ele poderia ter falado ‘Eu fiz isso de errado, eu fiz isso’. Ele, espertamente, disse, ‘não é que eu sou santo’ e pau no Lula. ‘Não é que eu sou santo’, que é um jeito de você conquistar veracidade na tua frase. Eu fiquei com pena disso”, afirmou.