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Amigo de Lula foi pressionado para quitar empréstimo do PT, diz delator

Amigo de Lula foi pressionado para quitar empréstimo do PT, diz delator

Fernando Baiano, em audiência na Justiça Federal, relatou que pecuarista José Carlos Bumlai o procurou e pediu ajuda 'para uma solução' na Petrobrás

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Fausto Macedo, Ricardo Brandt, Julia Affonso e Mateus Coutinho

21 Abril 2016 | 05h00

 

Fernando Baino deixou a prisão nesta quarta. Foto: Paulo Lisboa/Brazil Photo Press

Fernando Baino é um dos delatores da Lava Jato. Foto: Paulo Lisboa/Brazil Photo Press

O lobista Fernando Antonio Falcão Soares, o Fernando Baiano, apontado como operador de propinas do PMDB no esquema de corrupção instalado na Petrobrás entre 2004 e 2014 declarou que ‘por volta de 2006’ foi procurado pelo pecuarista José Carlos Bumlai que lhe pediu ajuda para ‘uma solução’ junto à estatal.

Na ocasião, segundo Baiano, o pecuarista – amigo do ex-presidente Lula – contou que estava sendo pressionado para quitar empréstimo de R$ 12 milhões que havia tomado em 2004 para o PT junto ao Banco Schahin.

A ‘solução’ seria o Grupo Schahin fechar um contrato sem licitação de US$ 1,6 bilhão com a Petrobrás para exploração de navio sonda, o que acabou ocorrendo em 2009.

“Ele (Bumlai) sabia que eu tinha boas relações na Petrobrás, ele me procurou para ver se podia ajudar”, relatou Fernando Baiano ao juiz federal Sérgio Moro, em audiência realizada na segunda-feira, 18, em que o lobista depôs como testemunha na ação penal contra o pecuarista.

Baiano é um dos delatores da Operação Lava Jato.

José Carlos Bumlai foi preso em 24 de novembro de 2015. A Procuradoria da República o denunciou por lavagem de dinheiro e gestão fraudulenta de instituição financeira.

Inicialmente, o juiz Moro perguntou a Baiano se Bumlai lhe falou sobre o ‘interesse’ que tinha no caso. “No primeiro momento não, ele só me falou isso. Eu disse que ia conversar com o pessoal. O pessoal da área Internacional me disse que seria possível sim, desde que a Schahin comprovasse ter capacidade financeira para apresentar garantias. Na época, conversei com o Nestor Cerveró (então diretor de Internacional da Petrobrás) e com o Luís Carlos Moreira (executivo da estatal).”

Segundo Baiano, o amigo de Lula explicou que o PT ‘tinha pego um financiamento (junto ao Banco Schahin) para pagar dívidas de campanha de 2002 e ele (Bumlai) tinha sido avalista desse financiamento’.

Bumlai afirmou à força tarefa da Operação Lava Jato que o empréstimo foi de R$ 12 milhões. Fernando Baiano disse ter ouvido que o valor chegou a R$ 40 milhões. “Bumlai disse que tinha sido avalista desse financiamento, ele me colocou dessa forma. Agora, realmente quem era o tomador não tive acesso a nenhum documento da história que ele me contou.”

O juiz perguntou a Baiano qual seria a relação do empréstimo e do contrato da Schahin com a Petrobrás. “A Schahin vinha cobrando ele (Bumlai) devido ao tempo que esse empréstimo já tinha sido tomado. Ela (Schahin) vinha cobrando dele o pagamento senão ele (Bumlai) ia perder uma ou duas fazendas que tinha colocado no negócio como garantia, alguma coisa assim. E a Schahin, tendo esses contratos, teria alguma forma de quitar esse empréstimo. Aí eu voltei prá ele (Bumlai) e disse que o pessoal falou que poderia seguir em frente desde que a Schahin tivesse capacidade financeira para dar as garantias.”

Bumlai, então, levou ‘o pessoal da Schahin para conversar na Petrobrás’. O então diretor de Internacional da estatal, Nestor Cerveró, participou de uma primeira reunião, segundo Fernando Baiano. “A partir daí começou a negociação para que fossem (o Grupo Schahin) sócios da Petrobrás nesse empreendimento, (sonda) Vitória 10.000.”

Segundo Baiano, os irmãos Milton e Salim Schahin, controladores do grupo, participaram de um encontro na sede da Petrobrás, no Rio, além de Cerveró´e do executivo da estatal Luís Carlos Moreira.

O lobista relatou ao juiz Moro ‘dificuldades’ para o fechamento do negócio. “A Schahin não conseguiu apresentar as garantias e aí se negociou para ficar só com a operação. Só que eu acho que o pessoal da Schahin achava que seria pouco para quitar o negócio lá, a dívida. Aí se colocou uma situação onde a Schahin seria o operador. Criou-se uma espécie de leasing, ao final de 10 ou quinze anos da operação (a Schahin) poderia exercer o direito de comprar, de ficar com a sonda. Acho que por isso demorou muito para a aprovação desse contrato com a Petrobrás. O processo de negociação se prolongou muito.”

Fernando Baiano contou que ‘levou pelo menos três vezes para ser aprovado (o negócio)’.

“Chegava na hora, algum diretor questionava alguma coisa. Pediam mais explicação e levou três vezes para essa operação ser aprovada na reunião de diretoria da Petrobrás.”

O juiz perguntou se ‘foi feito algo para vencer essa resistência’.

“Na época, o técnico da Petrobrás que estava tocando esse projeto era o Eduardo Musa (ex-gerente geral da área Internacional da Petrobrás). O Eduardo Musa achava que as coisas iam ser mais fáceis diante do que já estava acertado. Toda vez que a coisa dava um problema ele voltava prá e mim e dizia: ‘Pô, cara, não tem o que fazer, a gente precisa resolver isso’. Aí eu procurava o Bumlai e dizia ‘Bumlai, você precisa se movimentar é um assunto do interesse de vocês e o pessoal lá (na Petrobrás) tá com dificuldade em aprovar’. Ele dizia ‘vou resolver o problema’.”

Fernando Baiano relata que promoveu um encontro entre Eduardo Musa e Bumlai. “Ele (Bumlai) disse que ia resolver o problema, ele se comprometeu a falar com as pessoas para resolver isso.”

O juiz indagou de Fernando Baiano sobre quem eram ‘essas pessoas’.
“Nesse dia ele citou que estaria conversando com o Gabrielli (José Sérgio Gabrielli, então presidente da Petrobrás) e com o próprio presidente Lula. Ele falou isso. O que eu sei é que foi levado e, finalmente, ele ficou de me retornar dizendo quando seria o momento de colocar de novo em pauta. Ele me retornou dizendo ‘tá tudo ok’ e que poderia colocar em pauta. O Musa colocou novamente em pauta e foi aprovado com a cláusula do leasing. Não era uma cláusula padrão.”

“O sr. recebeu comissões ou pagamento de propinas decorrente desse contrato?”, indagou o juiz Sérgio Moro. “Nesse contrato especificamente a gente não fez nenhuma solicitação porque já havia uma comissão que estava sendo paga pela Samsung. Então, como era um negócio prá atender o PT a gente acabou não pedindo nada.”

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