‘A vítima é o próprio País em que vivemos’

‘A vítima é o próprio País em que vivemos’

Delegado da Operação Acerto de Contas, nova fase da Tendão de Aquiles, diz que os prejudicados pelas 'operações ilícitas' no mercado financeiro dos irmãos delatores da JBS Joesley e Wesley Batista não são apenas os acionistas do grupo

Julia Affonso, Luiz Vassallo e Fausto Macedo

13 Setembro 2017 | 16h06

Joesley Batista em Brasília, em 7 de agosto. FOTO DIDA SAMPAIO/ESTADÃO

A manipulação do mercado financeiro pelos irmãos Joesley e Wesley Batista, investigada na Operação Tendão de Aquiles, em meio ao acerto da delação premiada dos executivos do Grupo J&F, provocou um prejuízo ao País, segundo o delegado da Polícia Federal Victor Hugo Rodrigues. Wesley foi preso preventivamente nesta quarta-feira, 13, em sua casa, em São Paulo.

Contra Joesley foi expedido um mandado de prisão. O empresário está custodiado temporariamente por ordem do ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal, por suspeita de violação de sua delação premiada.

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A Tendão de Aquiles investiga duas frentes de manipulação dos irmãos Batista no mercado financeiro. A primeiro é a realização de ordens de venda de ações de emissão da JBS S/A na bolsa de valores, entre 24 de abril e 17 de maio, por sua controladora, a empresa FB Participações S/A e a compra dessas ações, em mercado, por parte da empresa JBS S/A, manipulando o mercado e fazendo com que seus acionistas absorvessem parte do prejuízo decorrente da baixa das ações que, de outra maneira, somente a FB Participações, uma empresa de capital fechado, teria sofrido sozinha.

“Eles (os irmãos) detêm 100% das cotas da empresa FB Participações. Essa empresa, por sua vez, detinha 42,5% das ações da JBS S/A. As investigações demonstraram que quando os irmãos Batista iniciaram as tratativas para fechar o acordo de colaboração premiada com as autoridades, eles tinham consciência de que esse acordo de colaboração, quando viesse à tona, iria impactar o mercado, provocando, bastante provável, desvalorização da JBS”, explicou o delegado.

“Tendo consciência disso, eles passaram a vender os papeis da JBS que ele tinham. Inicialmente, por meio da empresa FB Participações. O presidente da FB Participações, na época dos fatos, era o Joesley Batista. Ele determina, na condição de presidente, que a empresa passe a vender os papeis da JBS que ela detinha. E vende 42 milhões de ações da JBS ao preço aproximado de R$ 372 milhões. Quase que concomitantemente a isso, a própria JBS, que na época era presidida pelo Wesley Batista, passa a recomprar esses papeis que foram vendidos pela FB.”

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O delegado afirmou que crimes financeiros ‘são complexos por sua própria natureza’.

“Qual o prejuízo se nós temos uma venda quase que simultânea de papel pela FB e de recompra pela JBS? Ao fazer isso, eles, de um lado, evitaram que o excesso de oferta desses papeis no mercado provocassem uma desvalorização das ações, o que ia antecipar o que iria acontecer de qualquer forma com o vazamento do acordo de colaboração. Ao mesmo tempo, eles diluem o prejuízo com a queda dessas ações no momento em que a colaboração fosse divulgada”, disse o delegado.

Segundo o delegado, ao vender pela FB e comprar pela JBS, ‘a maior parte do prejuízo com a queda no valor das ações não ficou com os irmãos Batista e sim com os outros acionistas’.

“Esses acionistas são vários, inclusive o próprio governo federal, por meio do BNDESPar, que também detém ações da JBS. Feito isso, o acordo de colaboração realmente fechado e é divulgado pela empresa. Quando ele foi divulgado, aconteceu exatamente o que os irmãos Batista já previam. Houve um impacto brutal no mercado financeiro. Na manhã do dia seguinte, quando o mercado abriu, houve uma valorização de 9% dólar, que foi a maior desde 1999 quando houve a desvalorização do real. Houve uma queda de 8,8& do índice Bovespa. A maior desde 2008 com a crise imobiliária dos EUA”, observou.

Victor Hugo Rodrigues declarou que ‘no mesmo dia, os papeis da JBS chegaram a ter um pico de desvalorização de 37%’.

“A venda antecipada dos papeis evitou um prejuízo potencial de R$ 138 milhões. O prejuízo foi diluído com os acionistas da JBS”, afirmou. “A vítima não foram só os acionistas da JBS, que tiveram que arcar com o prejuízo dos investigados, mas num contexto mais amplo, a vítima é o próprio país em que vivemos, na medida em que os crimes abalaram também a confiança no mercado, essencial para que as pessoas invistam no nosso País e isso promova o desenvolvimento.”

A segunda frente investigada na Tendão de Aquiles é a intensa compra de contratos de derivativos de dólares entre 28 de abril e 17 de maio por parte da JBS S/A, em desacordo com a movimentação usual da empresa, gerando ganhos decorrentes da alta da moeda norte-americana após o dia 17.

O delegado da Polícia Federal Rodrigo Costa chamou a atenção para a primeira reunião entre os advogados da JBS junto à Procuradoria-Geral da República para um acerto de delação premiada.

“Foi na data de 2 de março. A JBS e seus sócios principais são investigados em seis operações da Polícia Federal e eles procuraram espontaneamente a PGR a fim de celebrar um acordo de colaboração. No entanto, eles cientes do potencial lesivo da informação que eles detinham, o conteúdo dessas colaborações que poderiam efetivamente abalar o mercado financeiro, abalar a economia, abalar a política, houve especificamente no tocante a compra de contratos futuros de dólar uma movimentação absolutamente atípica na compra de dólar no mercado futuro por parte da JBS. Isso foi muito bem pontuado por parte da CVM e laudo pericial que produzimos por parte da Polícia Federal”, declarou.

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“É injusta, absurda e lamentável a prisão preventiva de alguém que sempre esteve à disposição da justiça, prestou depoimentos e apresentou todos os documentos requeridos. O Estado brasileiro usa de todos os meios para promover uma vinganca contra aqueles que colaboraram com a Justiça.”

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