A suspensão da descrença

Daniel Medeiros*

12 Maio 2018 | 12h00

É cada vez mais comum ouvir as pessoas negando a política. Qualquer um que fale dela só é admitido nos círculos de conversa se for para falar mal. Por outro lado, qualquer um que se disponha a participar da política é imediatamente taxado de oportunista e candidato à locupletação. É um círculo fechado cuja senha de entrada é: a política não presta.

O argumento tem muitas razões para existir. O principal é o de que a maioria dos políticos não presta. As instituições parecem cupinzeiros: grandes estruturas completamente carcomidas por dentro. No entanto, há um problema claro nessa elaboração: os políticos não são a política. A política é a forma de representação constituída para viabilizar a convivência (e a existência) da vida coletiva. Afinal, como poderiam as pessoas viver em um espaço público sem que alguém organizasse as atividades de funcionamento desse espaço? Há muito tempo, Thomas Hobbes fez uma sugestão: entregamos toda a nossa liberdade e deixamos a um só governante a tarefa total de tomar essas decisões. Sim, parece ser uma saída. A outra é a política.

Vivemos em uma coletividade mas, é claro, não pensamos da mesma maneira. Nossa individualidade, constantemente, busca deixar marcas nesse espaço coletivo. Não concordamos com uma coisa, temos uma ideia sobre outra coisa, achamos mais ou menos justo um arranjo, queremos a construção de algo, defendemos a destruição de outro algo, a ampliação, a liberação, a distribuição, a restrição, enfim, a lista de quereres é enorme. Mas existem os outros que, muitas vezes, querem coisas opostas às que defendemos. Por isso, é preciso construir maiorias para impor ou consensos para ceder. E ainda é preciso escolher quem elabore as regras do funcionamento dessas coisas todas. E ainda escolher quem execute toda essa lista de coisas. E, quando o consenso demora, é preciso que exista quem decida o que fazer para que a paralisia não prejudique a todos. E é preciso fiscalizar os escolhidos. E substitui-los periodicamente. Um trabalho dos diabos! E quem deve fazer tudo isso? Só há uma resposta: nós. Ou então tem aquela proposta do Hobbes. Para muitos, ela parece tentadora. O duro é que ninguém garante que o tal governante todo poderoso vai fazer o melhor. Ou fazer algo. E se ele decidir sempre contra o que você pensa e você não tem mais a liberdade de poder mudar? Por isso, a política não deveria ser pensada como uma saída, mas como uma entrada. Para viver coletivamente é preciso entrar no jogo, arregaçar as mangas, por as mãos à obra. Fora disso é o Leviatã, o Estado como um monstro sem ouvidos para as vontades e para as diferenças.

A política tem uma exigência: conhecer as regras do jogo. Como o xadrez, há as peças e o tabuleiro. Mas não haverá jogo sem conhecer as suas regras. Sim, você pode mover as peças ou até batucar no tabuleiro. Você só não jogará xadrez. Conhecer as regras é um ato de vontade que pressupõe um querer jogar. Se nego a política, não jogo. Se não jogo, não sei quem ganha ou como ganha. No entanto, diferente do xadrez, na política o prêmio de quem ganha é poder jogar com a sua vida, com as suas propriedades, com o seu trabalho, com a sua saúde, com a sua educação, com a sua segurança. E como vou reclamar? Negando as regras que não quis conhecer e os representantes que não me importei em escolher?

A política pressupõe uma suspensão da descrença. Se continuarmos negando, aqueles que se locupletam continuarão a compor as maiorias e elaborar os arranjos. O cupinzeiro em ação, cada vez maior e mais carcomido. Se acreditarmos na política, podemos reescrever esses arranjos e retomar a trajetória de uma sociedade capaz de pensar em sua sobrevivência e seu bem estar, jogando o jogo das diferenças com regras claras e chances reais para todos. Duro de acreditar? Não vai embarcar nessa? Bom, a saída está logo ali, em lugar nenhum.

*Doutor em Educação Histórica pela UFPR e professor de História no Curso Positivo, de Curitiba (PR)

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