A revolução invisível

A revolução invisível

Rodrigo Tellechea*

23 Março 2018 | 04h00

Rodrigo Tellechea. FOTO: DIVULGAÇÃO

O século 21 tem sido responsável por uma transformação histórica no modo de exercício do poder – nas palavras de Moisés Naim, “a degradação do poder”, isto é, um movimento irrefreável no sentido de dispersar e enfraquecer o alcance e o modo de influência dos agentes tradicionais (i.e., políticos, governos, empresas, igreja, exército, sindicatos, mídia) e o surgimento de uma série de novos e surpreendentes agentes e instituições, com pautas disruptivas e custos infinitamente inferiores aos do status quo.

Vivenciamos uma revolução silenciosa, de amplitude global e extensão absoluta em todos os aspectos das nossas vidas, das relações afetivas ao mercado profissional. Ao contrário dos eventos revolucionários-ideológicos – que atormentaram os séculos XIX e XX com violência e crueldade ímpares -, a insurreição em curso não trava suas batalhas em trincheiras ou tanques de guerra, mas em espaços de trabalho compartilhado, em reuniões informais colaborativas, no debate de ideias a partir de modelos de negócio inovadores e com potencial de escalabilidade global.

O padrão ordinário de vida, tal qual o conhecemos, será profundamente alterado nos próximos anos, e essas mudanças não decorrerão nem terão relação alguma com a política ou com o Estado. A rigor, a própria ideia de Estado – na condição de aparato burocrático, politicamente organizado em torno de instituições e supostamente responsável pela busca do bem comum – está sendo questionada globalmente, tanto no que se refere ao seu propósito, suas finalidades e, especialmente, quanto ao cumprimento das responsabilidades que lhe foram atribuídas pelas Constituições contemporâneas.

Naturalmente inquietas e inconformistas, as gerações Y e Z viram no empreendedorismo com propósito a janela de oportunidade para realização de seus sonhos e definição de seu próprio modo de vida. Alicerçados na criatividade, na busca por modelos de negócios inovadores e na utilização da tecnologia como potência motriz, os jovens inverteram a cadeia executiva tradicional do mercado de trabalho e passaram a prescindir da hierarquia e da burocracia para criar suas próprias empresas, em um ambiente horizontal, informal e divertido.

Nesse novo contexto, inspirado pela liberdade e pela meritocracia, o indivíduo atua como agente de mudança da sociedade, reconfigurando as relações humanas em escala planetária por meio de inovações a baixo custo e elevado potencial de resolução de complexos problemas do cotidiano (e.g. Waze, Whatsapp, Skype, Uber, Airbnb). A mão visível do empreendedor é responsável pelo desenvolvimento de tecnologias que colocam em xeque nossa capacidade de questionar a ética humana e os limites tradicionalmente impostos às inovações.

Embora os dispositivos móveis, a pesquisa algorítmica e a computação em nuvem tenham sido determinantes para moldar nosso atual modo de vida, a mudança que se aproxima alterará a forma como agimos e nos relacionamos em sociedade. Nos próximos anos, assistentes digitais organizarão nossos compromissos pessoais e profissionais, softwares sofisticados dirigirão nossos automóveis e gerenciarão nossas casas, aplicativos gerenciarão a agenda afetiva de uma grande parcela da população e assim por diante.

A civilização humana estará diante de um dilema desafiador, que testará a cultura, os valores e os princípios que nos fizeram chegar até aqui. Criador e criatura estão face a face na tarefa de estabelecer os limites para o próximo salto tecnológico que está sendo germinado nos cérebros e mentes brilhantes soltos por aí. Vivemos uma era formidável em termos de inovação e desenvolvimento, resta saber se saberemos, como Humanos, usufruir de todo este potencial tecnológico sem abdicar da nossa posição de seres pensantes e guiados pelo livre arbítrio, a partir de parâmetros éticos e morais bem definidos.

*Sócio de Souto Correa Advogados

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